REBELDE
Nora Roberts

Srie MacGregors 11



Uma mulher passional, capaz de amar e odiar com a mesma intensidade.
A pureza da menina havia sido definitivamente comprometida na noite em que a honra de sua famlia foi manchada pelos ingleses. A revolta comeou a guiar os passos
de Serena, cada passo de uma vida cheia de indignao.
Enquanto muitas jovens sonhavam com os sales iluminados onde a nobreza flua dos prazeres da fortuna, a rebelde escocesa via nisso apenas o resultado das injustias
que condenava. De temperamento explosivo e natureza indcil, no se amoldava aos padres exigidos para uma dama dos crculos da realeza.
Mas o amor pelo conde ingls surgiu sem que pudesse reprimi-lo, ela resolveu viver a felicidade de um romance, to fugidia quanto o brilho das sedas e dos brocados.
A separao era inevitvel! Como Serena conseguiria se submeter s regras de uma sociedade ftil? A um homem que, para ela, representava todos os seus inimigos?


Copyright (c) 1988 by Nora Roberts
Publicado originalmente em 1988 pela Harlequin Books, Toronto, Canad.
Ttulo original: Rebellion 
Publicado originalmente pela Editora Nova Cultural em 1989
Copyright para a lngua portuguesa: 1999 [REEDIO] EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

         
PRLOGO
     
       
       Glenroe Forest, Esccia, 1735.
       Os ingleses chegaram  tardinha, quando o cu se adensava de nuvens pesadas e as velas e os candeeiros comeavam a brilhar nos chals da aldeia. Naquele silncio, 
o estrpido das patas dos cavalos, transmitido pela vibrao do solo gelado, ecoou pela floresta como o surdo ribombar de um trovo, fazendo com que os pequenos 
animais, assustados, corressem em busca de abrigo.
       Serena MacGregor acomodou o irmozinho de colo no quadril e foi at a janela.
       "Papai e seus homens esto voltando da caada mais cedo", pensou. E ficou conjeturando por que no irrompiam gritos de boas-vindas nem exploses de riso das 
casas situadas no sop da colina.
       Esperou, o nariz achatado contra a vidraa, pelos primeiros sinas da chegada, o soar da trompa, os latidos dos ces, embora estivesse ainda ressentida. Uma 
vez mais no lhe haviam dado permisso para acompanhar os caadores.
       Coll fora com eles, e tinha apenas catorze anos e no era to destro no arco e flecha quanto ela. Sua boca cerrou-se de desdm, enquanto continuava a perscrutar 
a paisagem deserta, iluminada pela luz que morria. Seu irmo iria vangloriar-se dessa preferncia durante dias. E ela seria, no fim,  custa de importunao, levada 
a ouvir suas gabolices.
       Mas quando o pequeno Malcolm comeou a choramingar, sua irritao se dissipou. Embalou-o automaticamente, os olhos fixos na trilha ngreme que corria entre 
os cercados e os chals, murmurando:
       - Fique quieto. Papai no vai gostar de encontrar voc chorando.
       Sbito, uma angstia inexplicvel a fez aconcheg-lo contra o peito e olhar nervosamente por cima do ombro. As velas ardiam nos candelabros de prata e um 
aroma bom de ensopado de carneiro evolava-se do caldeiro suspenso sobre o fogo da cozinha. O assoalho e os mveis brilhavam, as arcas recendiam a lavanda dos pequenos 
sachs que sua me confeccionara.
       Tudo parecia normal, porm um peso estranho oprimia-lhe o corao. Num impulso, enrolou Malcolm num xale e saiu para o jardim. As sombras alongavam-se, sinuosas, 
mas no se ouvia nenhum outro som, alm do rudo seco das patas dos cavalos escalando a trilha da colina.
       "Vo aparecer a qualquer momento", pensou e, sem saber por que, um calafrio percorreu-lhe a espinha. Quando ouviu o primeiro grito, vindo de um dos chals, 
deu um passo para trs.
       No mesmo instante, Fiona MacGregor, o lindo rosto plido e tenso, desceu correndo os degraus de pedra. Mas no ficou parada aos ps da escada, como era seu 
hbito, para dar boas-vindas ao marido.
       - Entre, Serena. Depressa!
       - Mas mame...
       - Vamos menina. Pelo amor de Deus! - Ela agarrou a filha pelo brao e conduziu-a quase  fora pela alameda de cascalho.
       - E papai?
       - No  seu pai!
       Antes de entrar, Serena viu os primeiros cavaleiros assomarem ao alto da colina. No vestiam o manto axadrezado dos MacGregor, mas os casacos vermelhos dos 
drages ingleses. Tremeu de medo. Embora tivesse apenas oito anos, j conhecia as terrveis histrias que circulavam na aldeia acerca desses soldados.
       - O que eles querem, mame? No fizemos nada!
       - No  necessrio fazer, mas apenas existir!
       Fiona fechou a porta, num gesto de desafio, mesmo consciente de que isso no iria deter os intrusos. Apesar de pequena e esguia, no costumava se desesperar 
nas situaes difceis. Sabia o que era preciso fazer, e fazia-o calma e competentemente.
       - Serena.
       - Sim, mame?
       - V para o quarto das crianas e leve Malcolm com voc. No saia de l enquanto eu no mandar.
       - Est bem, mame.
       Nesse instante, o vale ressoou com outro grito, seguido de um choro selvagem. Pela janela, as duas viram a fumaa grossa desprender-se do teto de colmo de 
um dos chals e chamas saltarem pelas janelas e aberturas.
       - Quero ficar aqui embaixo com voc - disse Serena com voz trmula.
       - No, querida.
       - Papai no gostaria que eu a deixasse sozinha.
       L fora, ordens de comando elevaram-se no ar, esporas e sabres entrechocaram-se. Os imensos olhos verdes de Fiona espelharam preocupao.
       - V, agora! E faa o que eu lhe disse.
       Serena voou escadas acima. No havia ainda vencido o primeiro lance, quando ouviu algum bater com fora na porta da ftente. Parou e voltou-se. Um grupo de 
drages estava parado no hall de entrada. Um deles avanou alguns passos e inclinou-se profundamente diante de sua me, que permanecia empertigada e altiva no meio 
da sala. Mesmo daquela distncia, ela percebeu a ironia do gesto.
       - Pegue Malcolm - disse baixinho a Gwen, sua irmazinh de cinco anos que a aguardava no topo da escada. - V para o quarto das crianas e feche a porta.
       - Mas Serena...
       - Depressa! E no deixe o beb chorar.
       Depois disso, agachou-se junto ao corrimo e ficou  espreita.
       - Fiona MacGregor? - ouviu o drago perguntar secamente.
       - Sou lady MacGregor.
       Fiona estava disposta a arriscar a vida para proteger seu lar, seus filhos. Mas recusava-se a adotar uma atitude hipcrita de submisso.
       - Que direito tem o senhor de invadir minha casa? - disse, um olhar de desdm brilhando nos olhos verdes e orgulhosos.
       - Com o direito de um oficial do rei!
       - Quem  o senhor?
       - Capito Standish, a seu servio. - Ele tirou lentamente as luvas, esperando ver o medo estampar-se no rosto dela. - Onde est seu marido... lady MacGregor?
       - O senhor destas terras est caando em companhia" de seus homens.
       Standish no proferiu palavra alguma. Olhou durante alguns segundos a orgulhosa criatura que tinha diante de si e depois fez sinal a trs de seus homens para 
que iniciassem a busca.
       Fiona no nutria esperana de que qualquer sentimento de compaixo conseguisse abrandar o corao daquele homem. Resolveu, portanto, conservar intactos seu 
orgulho e sua dignidade, revidando ironia com ironia.
       - Como v, chegou em m hora. H apenas mulheres e crianas em Glenroe. Ou foi talvez por isso que tenha se atrevido a vir at aqui?
       Sem pensar duas vezes, Standish levantou a mo e esbofeteou-a duramente, primeiro numa face depois na outra.
       - Aprenda a respeitar um oficial de sua majestade, escocesa!
       Serena desceu as escadas com a velocidade de uma bala e atirou-se sobre ele, martelando-lhe o peito com os punhos cerrados.
       - Meu pai o matar por isto!
       O homem empurrou-a para um lado com brutalidade.
       - Pirralha do inferno!
       Fiona colocou-se diante da filha, protegendo-a com seu prprio corpo.
       - Os homens do rei George costuma bater em crianas? So essas as leis inglesas?
       A respirao de Standish acelerou-se. No podia permitir que seus homens o vissem em desvantagem diante de uma mulher e uma criana, especialmente quando 
ambas pertenciam  ral escocesa! Mas tinha ordens apenas para interrogar e dar buscas nas casas dos suspeitos. Embora descontente com seus sditos escoceses, a 
rainha Carolina no gostaria que acontecesse um incidente isolado na Alta Esccia.
       - Leve essa pirralha para cima e tranque-a num dos quartos - ordenou em tom spero a um de seus drages.
       Sem uma palavra, o soldado agarrou Serena pela cintura, tomando cuidado para evitar seus pontaps e seus punhos.
       - A senhora cria gatos selvagens, milady - observou Standish, voltando-se para Fiona.
       - Minha filha no est acostumada a ver um homem usar de violncia com sua me ou outra mulher qualquer.
       O capito fitou aquela bela mulher, s e sem protetores, com ar pensativo. No reconquistaria a estima de seus homens punindo uma criana. Mas a me... Um 
sorriso cruel contraiu-lhe os lbios, quando disse:
       - Seu marido  acusado de estar envolvido na morte do capito Portenous.
       Fiona surpreendeu-se.
       - O capito no foi sentenciado  morte pela corte inglesa por ter atirado sobre uma multido indefesa?
       - O capito atirou num grupo de desordeiros, no em homens indefesos. De qualquer modo, a sentena que o condenava  morte foi suspensa.
       Standish colocou a mo no punho da espada. Ele tinha fama de cruel mesmo entre seus pares. Achava que medo e intimidao ajudavam a conservar seus homens 
na linha. Por que isso no iria funcionar com uma vagabunda escocesa?
       - Suspensa? Por qu?
       - Portenous foi encontrado morto em sua cela. Queremos descobrir seus assassinos.
       - No sinto pena desse desaventurado - disse Fiona. - Mas posso lhe garantir que no temos nada a ver com sua morte.
       - Pois temos prova mais do que evidente que seu marido assassinou, ou mandou assassinar o capito.
       - Isso  falso! - exclamou Fiona, revoltada.
       - Milady, como sua esposa, no ter direito  proteo da rainha - continuou Standish, imperturbvel -, a menos que coopere com a justia.
       - A rainha, melhor do que ningum, deve saber de que lado se acha a justia. Eu no tenho nada a declarar!
       -  uma pena.
       O capito sorriu com fingida simpatia e deu um passo para a frente.
       - Nesse caso, vou lhe mostrar o que acontece s mulheres desprotegidas.
       No andar superior, Serena bateu na porta com os punhos at suas mos sangrarem. Depois, ps-se a andar de um lado para outro do quarto, agitada. Do lusco-fusco 
que reinava fora, chegavam longos e lamentosos gritos femininos. Mas ela pensava unicamente em sua me, sozinha e desprotegida no meio dos odiados soldados ingleses.
       Quando, afinal, a chave voltou a girar na fechadura, saiu a correr do quarto, precipitou-se para as escadas e atravessou a sala. Sua me estava cada junto 
 lareira. Suas feies finas apresentavam uma palidez intensa, o vestido rasgado permitia distinguir as manchas arroxeadas que se espalhavam pelo corpo inteiro.
       Caiu de joelhos a seus ps.
       - Mame!
       Ela chorava. J a vira chorar antes, mas no assim, com lgrimas silenciosas e desesperanadas. Tirou uma manta da arca e cobriu-a. Enquanto os drages se 
afastavam a galope, sustentou-a com um brao, abrigando com o outro Gwen e o pequeno Malcolm. Tinha apenas uma vaga compreenso do que havia ocorrido, mas isso foi 
suficiente para faz-la odiar os ingleses pelo resto da vida.
       
     CAPTULO I 
       
       
       Londres, 1745
       Brigham Langston, o quarto conde de Ashburn, sentou-se  mesa de caf de sua elegante casa citadina e desdobrou a carta que estivera esperando to ansiosamente. 
Leu-a com ateno, pesando cada palavra. Seus olhos brilharam e sua boca entreabriu-se num leve sorriso. Era uma carta explcita, composta com cuidado. No dizia 
nada de menos ou de mais, mas havia ali palavras que tocavam seu corao de patriota.
       - Com os diabos, Brig! Quanto tempo ainda vai me fazer esperar?
       Coll MacGregor, o temperamental escocs de cabelos vermelhos que fora seu companheiro em viagens pela Itlia e Frana, parecia a ponto de explodir.
       Em resposta, Brigham apenas levantou a mo branca e esguia, enfeitada com renda no punho. Estava acostumado com aquelas exploses e, em geral, isso o divertia. 
Mas, dessa vez, manteve a impacincia do escocs sob controle e tornou a ler a carta.
       -  dele, no ? Do nosso prncipe!
       Coll levantou-se da mesa e mediu o aposento com passadas largas, dando a impresso de que apenas as boas maneiras o impediam de arrancar a carta das mos 
do amigo.
       - Tenho tanto direito de l-la quanto voc.
       Brigham ergueu os olhos e deixou-os deslizar sobre o homem que andava nervosamente de um lado para outro da pequena sala. No levou em conta sua revolta e 
disse apenas:
       - A carta est endereada a mim.
       - Por um nico motivo:  mais fcil enviar clandestinamente uma carta ao importante conde de Ashburn do que a um MacGregor. Os escoceses esto todos na mira 
do governo!
       Brigham encolheu os ombros e virou a pgina, continuando a leitura. Coll lanou uma torrente de injrias e depois desabou sobre a cadeira, resignado.
       - Voc tem o dom de esgotar a pacincia de um santo!
       - Obrigado.
       Brigham ficou longo tempo a fitar o encorpado papel timbrado e a escrita que se estendia atravs dele em linhas rpidas e disciplinadas. Depois colocou-o 
ao lado do prato e serviu-se de mais caf. Sua mo estava to firme como quando empunhava uma espada ou uma pistola. E, na verdade, essa carta era uma arma de guerra.
       - Voc tem razo, meu caro. E uma mensagem do prncipe Charles - disse, por fim entre um gole e outro de caf.
       - Bom. E o que ele diz?
       - Leia voc mesmo.
       Coll apoderou-se do papel com impacincia. Enquanto ele se engolfava na leitura da carta, lorde Ashburn ps-se a estudar pensativamente a sala. O papel azul 
de parede, os tapetes de ricos desenhos e os mveis elegantes, quase delicados com suas curvas e cercaduras douradas, haviam sido escolhidos por sua av, de quem 
lembrava no s o leve sotaque escocs como a teimosia.
       As graciosas figurinhas de porcelana Meissen, que ela tanto apreciava, estavam ainda sobre a pequena mesa redonda colocada perto da janela. Quando era menino, 
tinha a permisso de olhar mas no de tocar, e seus dedos fremiam na nsia de segurar a estatueta representando a pastora de rosto delicado e longos cabelos de porcelana.
       O retrato em moldura dourada de Mary MacDonald, a mulher forte e decidida que se tornara lady Ashburn, estava sobre a lareira e mostrava-se investida da dignidade 
inconsciente da riqueza. O porte ereto e a orgulhosa inclinao da cabea diziam que ela podia ser persuadida mas no forada, convocada mas no induzida.
       Mary transmitira a seu neto os mesmos cabelos pretos, os mesmos olhos cinzentos, as mesmas feies aristocrticas: testa alta, nariz reto e boca bem delineada. 
Mas no apenas isso. Transmitira-lhe tambm uma natureza apaixonada e senso de justia.
       Naquele instante, ele pensou na carta e nas decises a serem tomadas, e fez um brinde silencioso ao retrato.
       "A senhora gostaria que eu fosse. Todas as histrias que me contou, essa f inquebrantvel na causa dos Stuart que me ps na cabea durante os anos que cuidou 
de mim... Tenho certeza de que se ainda estivesse viva iria pessoalmente  Esccia. Por que ento no ir em seu lugar?"
       - Chegou a hora! - disse Coll com voz exultante. Ele tinha vinte e quatro anos, seis meses menos do que seu amigo, e esperara tanto tempo, que bradava por 
ao e por uma mudana.
       Brigham empurrou para trs sua alta cadeira esculpida e levantou-se.
       - Voc tem que aprender a ler nas entrelinhas, Coll. Charles conta ainda com o apoio dos franceses, mas est comeando a perceber que o rei Lus prefere falar 
a agir.
       Pensativo, ele ergueu a ponta da cortina e olhou para os jardins adormecidos. Explodiriam em cores e perfumes na primavera. Mas era improvvel que estivesse 
ali para admirar esse espetculo.
       - Quando freqentvamos a corte, Lus parecia muito interessado em nossa causa. Dava at a impresso de desprezar o ttere dos Hanover que ocupa atualmente 
o trono ingls - objetou Coll.
       - Sim, mas isso no quer dizer que ele ir afrouxar os cordes de sua bolsa para o Prncipe galante ou pela causa dos Stuart! A idia de Charles, armar uma 
fragata e tomar o rumo da Esccia, me parece mais condizente com a realidade. Mas essas coisas levam tempo.
       - No podemos comear a preparar o terreno?
       Brigham deixou a cortina cair e virou-se.
       - Voc conhece sua gente melhor do que eu. Que apoio o prncipe conseguiria na Esccia?
       - O suficiente para entusiasm-lo!
       Coll levantou-se e bradou de modo arrebatado!
       - Os cls se levantaro por seu verdadeiro rei e lutaro contra o usurpador!
       Depois fitou seu companheiro com ar pensativo. Sabia que ele arriscaria tudo com essa viagem: ttulo, dinheiro, reputao e at a vida.
       - Brig, eu posso levar a carta a meu pai e, com o auxlio dele, convocar todos os cls da Alta Esccia. No  necessrio que voc v tambm.
       O rosto moreno de Brigham abriu-se num sorriso de quem verdadeiramente se divertia.
       - Acha ento que l eu no teria nenhuma utilidade?
       - No quis dizer isso, Brigham, e voc sabe! - Coll colocou-lhe afetuosamente a mo no ombro. - Quem no gostaria de contar com um homem como voc, que sabe 
falar e lutar, um aristocrata ingls disposto a arriscar tudo pela causa?
       - E se eu no for bem-sucedido?
       - Absurdo! Conheo o seu valor, amigo. Afinal, quem foi que me salvou a vida, e mais de uma vez, durante nossa viagem pela Itlia e pela Frana?
       - No exagere, Coll. - Brigham puxou a renda de seus punhos. - No  de seu feitio.
       O escocs deu um largo sorriso.
       - Isso sem falar de sua habilidade de transformista. Num instante um exmio espadachim, no outro o arrogante conde de Ashburn!
       - Meu caro, eu sou o conde de Ashburn!
       Coll olhou-o com admirao. Ningum melhor do que ele conhecia a fora que se escondia sob aquelas rendas e aquelas maneiras lnguidas, quase afetadas.
       - No era o conde de Ashburn que lutou ombro a ombro comigo, quando nossa carruagem foi atacada nos arredores de Calais. No era o conde de Ashburn que quase 
embriagou a mim, um MacGregor, naquela taverna de Roma!
       - Pois eu digo que era. Lembro-me muito bem dos dois incidentes e asseguro-lhes que era o conde de Ashburn em carne e osso! 
       Coll no objetou.
       - Estou falando srio, Brigham. Voc devia ficar aqui e continuar a freqentar festas e bailes, tomar parte nas caadas. Poderia fazer mais pela causa permanecendo 
na Inglaterra, de sobreaviso.
       - E se eu no concordar?
       - Bom, se est decidido a ir, gostaria de t-lo a meu lado, participando da luta.
       Brigham voltou a olhar para o retrato de sua av e ento fez um sinal afirmativo com a cabea.
       - Naturalmente, meu amigo.
       
       O tempo em Londres estava mido e frio. Continuava imutvel, trs dias depois, quando os dois homens iniciaram sua jornada. Viajariam em direo ao norte 
no relativo conforto da carruagem de Brigham e ento fariam o resto do percurso a cavalo.
       Para todos os efeitos, lorde Ashburn ia  Esccia para uma visita de cortesia  famlia de seu amigo. Apenas a alguns, um punhado de tries e jacobitas fiis, 
ele confiara secretamente os seus planos e as suas esperanas, e tambm a guarda de seu solar no campo e de sua manso em Londres.
       Tinha plena conscincia de que passaria muito tempo, meses, talvez anos, at que pudesse voltar a instalar-se definitivamente na Inglaterra.
       Levava consigo apenas o que podia carregar sem chamar ateno. Sua bagagem consistia de um ba com roupas, entre as quais acondicionara uma miniatura de sua 
av e, por um capricho sentimental, a pastorinha de porcelana. Outro, menor, acomodava peas de ouro em quantidade maior do que a necessria para uma simples visita 
de cortesia. E, por precauo, fora colocado sob o assoalho da carruagem.
       Avanavam lentamente. As estradas estavam to escorregadias, que a marcha era um penoso exerccio de equilbrio. A carruagem atolava, obrigando muitas vezes 
o cocheiro a descer da bolia e a conduzir a parelha a p. Brigham teria preferido um passo mais rpido, mas um olhar  janela disse-lhe que o tempo na regio norte 
s tendia a piorar. Ento, com pacincia que aprendera a cultivar atravs dos anos, recostou-se no espaldar, descansou os ps calados de finas botas de couro no 
banco oposto, onde Coll cochilava, e deixou seus pensamentos voltarem para Paris.
       No ano anterior, passara alguns meses divertidos naquele pas. Era a Frana de Lus XV, que deslumbrava o mundo com a pompa e a magnificncia de sua corte. 
Havia conhecido ali mulheres lindas, de cabelos empoados e trajes escandalosos, com quem mantivera delicadas ligaes amorosas. Mas aquela indolente vida palaciana 
acabara por cans-lo, fazendo-o ansiar por ao e propsitos.
       A exemplo de outros Langston, ele havia sempre apreciado a intriga poltica, apoiando secretamente os Stuart, os legtimos herdeiros da coroa da Inglaterra, 
no seu entender. Assim, quando o prncipe Charles Edward, um jovem carismtico, corajoso e decidido, chegara  Frana, oferecera-lhe sua ajuda em qualquer expedio 
que ele pudesse empreender para reconquistar seu direito ao trono.
       Muitos o teriam considerado um traidor. E os Whigs, que apiam o gordo usurpador alemo, gostariam de v-lo enforcado se tivessem conhecimento daquela prova 
de lealdade. Mas preferia correr o risco; no havia ainda esquecido as histrias de 1715 e dos banimentos e execues acontecidos antes e depois dela.
       Enquanto a paisagem tornava-se mais agreste e Londres desaparecia na bruma da distncia, tornou a pensar que a casa dos Hanover havia feito muito pouco para 
se tornar benquista na Esccia. O pas estava dividido, tornando mais alarmante a sombra de guerra que pairava ora ao norte ora do outro lado do Canal. Se a Inglaterra 
quisesse tornar-se uma nao poderosa, necessitaria de um rei legtimo.
       Afinal no haviam sido os olhos azuis do prncipe nem suas belas feies que o convenceram a apoi-lo. Foram seus projetos ambiciosos e talvez a confiana 
juvenil de que ele podia e iria reclamar o que era seu.
       
       Ao anoitecer pararam numa pequena estalagem de paredes de pedra, teto baixo e cho de terra, situada no limite entre a Baixa e Alta Esccia. O ouro de Brigham 
e seu ttulo granjearam lenis limpos e uma saleta particular aos dois amigos.
       Bem alimentados e aquecidos pelo fogo que crepitava na lareira, puseram-se a jogar dados e a tomar cerveja, enquanto o vento soprava das montanhas e batia 
nas janelas. E durante algumas horas, foram simplesmente dois jovens cavalheiros que compartilhavam de uma viagem aventurosa.
       - Com os diabos, Brig! Voc est com sorte esta noite.
       O quarto conde de Ashburn recolheu os dados e as moedas de ouro com os olhos brilhantes de satisfao.
       - E o que parece. Vamos tentar mais uma partida?
       - Sua sorte pode mudar. - Coll sorriu e deixou os dados rolarem. - Vamos ver se desta vez voc consegue me vencer.
       Logo depois, entretanto, ele sacudia a cabea.
       - Parece que a sorte no vai abandon-lo to cedo. Como naquela noite em Paris, quando voc jogava com o duque pelos favores de uma doce mademoiselle.
       - Com ou sem os dados, eu j tinha conquistado o corao da bela dama.
       O escocs tornou a jogar mais um punhado de moedas sobre a mesa.
       - Espero que a sorte continue a sorrir-lhe nos meses que esto por vir.
       Brigham levantou a cabea e assegurou-se de que a porta da saleta estivesse fechada.
       - A sorte ter que sorrir no apenas para mim, mas tambm para o prncipe.
       - Ele tem a ambio de que precisamos, ao contrrio de seu pai. - Coll ergueu a caneca de cerveja. - Ao Prncipe Galante!
       - Ele ir precisar muito mais do que sua bela aparncia e sua conversa inteligente para convencer os escoceses - observou Brigham, retribuindo o brinde.
       O amigo franziu a testa.
       - Est duvidando da lealdade dos MacGregor?
       - Voc  o nico MacGregor que eu conheo.
       Antes que Coll comeasse um discurso sobre seu cl, Brigham apressou-se a perguntar:
       - No est feliz de rever sua famlia?
       - Ah, sim! No que eu no tenha me divertido em Roma e Paris. Mas um homem que nasceu na Alta Esccia prefere morrer na sua terra e entre sua gente.
       O escocs tomou um gole longo de cerveja, pensando nos pntanos cor de prpura e nos lagos azuis e cristalinos.
       - Segundo minha me, esto todos bem. Mas eu me sentiria mais tranqilo vendo isso com meus prprios olhos.
       Ele fez uma pausa demorada, antes de continuar:
       - Malcolm deve estar com seus nove ou dez anos agora e parece que  um garoto endiabrado. - Sorriu, orgulhoso. - Como todos ns, alis.
       - Voc me disse que sua irm  um anjo.
       - Gwen. - A voz de Coll encheu-se de ternura. - Sim, ela  meiga, paciente e linda como um anjo.
       - Voc no tem outra irm?
       - Sim, Serena. Mas s Deus sabe por que lhe deram esse nome. Ela  uma verdadeira gata selvagem!
       - E bonita ao menos?
       - No  feia. Em sua ltima carta, mame contou-me que alguns rapazes tentaram fazer-lhe a corte, mas que ela os mandou passear.
       - Talvez eles no tenham sabido... sensibilizar seu corao.
       - Sensibilizar Serena? Impossvel! Tenho pena do homem que se atrever a pr os olhos nela!
       - Parece que sua irm  uma amazona!
       Brigham imaginou uma jovem robusta e sadia, com as feies de Coll e uma desordenada massa de cabelos vermelhos a emoldurar o rosto redondo. "Saudvel como 
uma ordenhadora", pensou "e igualmente simplria."
       - Confesso que prefiro os tipos mais meigos e dceis.
       - Ela no  dcil, mas  sincera e inteiramente devotada  famlia. J lhe falei da noite em que os drages chegaram a Glenroe?
       O olhos de Coll tornaram-se sombrios.
       - Serena era apenas uma menina naquela poca e estava assustada. Mas cuidou de minha irm e distraiu as outras crianas at ns voltarmos. No chorou quando 
nos viu. E, de olhos enxutos, nos contou tudo.
       Brigham ps a mo sobre o brao do amigo.
       - No  hora de vingana, mas de justia. 
       - Conseguirei ambas - murmurou Coll por entre os dentes e jogou novamente os dados.
       
       Os dois viajantes partiram bem cedo na manh seguinte. Dessa vez foram a cavalo, seguidos pela carruagem que os acompanhava em marcha moderada.
       Encontravam-se agora nas terras de que Brigham ouvira falar quando criana. Era uma regio rstica e solitria, entremeada de altos penhascos e charnecas 
desoladas. Picos proeminentes, algumas vezes cortados por cachoeiras espumantes e rios piscosos, penetravam no cinzento opalescente do cu.
       Em alguns stios, pedras brutas, de grandes dimenses, distribuam-se em crculos, como que semeados por mo cuidadosa. Pareceria um lugar antigo, reservado 
aos ritos da superstio drudica, se no fosse a viso de algum chal, com a fumaa a elevar-se da abertura central no teto de colmo.
       O solo estava congelado e o vento soprava em rajadas colricas, carregando em seu rastro nuvens de neve desfeita em partculas, penetrando em seus grossos 
casacos de l e enregelando-os at os ossos. A luz do sol era plida e coada e seus raios oblquos pareciam to frios quanto os da lua.
       Cavalgavam a toda brida, quando a estrada permitia. Mas, em geral, eram obrigados a abrir caminho por trilhas cobertas com neve que chegava at a cintura. 
Cautelosos, passavam ao longo dos fortes que os ingleses haviam construdo e evitavam at a hospitalidade que lhes seria oferecida prazerosamente em cada chal.
       A hospitalidade, como Coll avisara, envolveria perguntas sobre o motivo da jornada, sobre suas famlias e seu destino. Forasteiros eram raros na Alta Esccia 
e a notcia de sua presena naquelas paragens solitrias logo correria de aldeia em aldeia e voaria de boca em boca.
       Seguiram, portanto, por estradas secundrias e pararam numa taverna para tomar uma refeio quente, enquanto os cavalos descansavam. Ali, o assoalho era sujo, 
a sala escura e enfumaada, cheirando a peixe e aos odores de seus freqentadores. No era exatamente um lugar apropriado para receber o quarto conde de Ashburn. 
Mas o fogo era acolhedor e o taverneiro prometeu-lhes uma refeio razovel.
       Retiraram os grossos capotes, que puseram a secar diante do fogo da lareira. Brigham usava calo de montaria complementado por um casaco sem enfeites. Mas, 
embora simples, o traje assentava sem uma ruga sobre seus ombros amplos. Os botes eram de prata, as botas de couro fino. Os abundantes cabelos negros estavam atados 
na nuca por uma fita e em seu dedo mnimo brilhavam o sinete de famlia e uma esmeralda. Esses detalhes acentuavam o belo porte que atraa os olhares dos presentes.
       - Neste buraco no esto acostumados a ver tipos como voc - observou Coll.
        vontade em seu saiote escocs, com o raminho de pinheiro de seu cl enfiado na faixa, ele devorava com apetite seu pastelo de carne.
       Brigham correu os olhos pela sala, enquanto dizia:
       - Tamanha admirao faria a alegria de meu alfaiate.
       Coll ergueu a caneca de cerveja e pensou com agrado no usque que iria tomar com seu pai, naquela noite.
       - No so apenas seus trajes. Voc pareceria um conde mesmo nos andrajos de um mendigo.
       Terminada a refeio, ele jogou algumas moedas na mesa e levantou-se.
       - Os cavalos j descansaram, portanto no vamos perder tempo. Estamos nos limites do territrio dos Campbell, inimigos de sangue da minha famlia. No quero 
correr o risco de levar um tiro pelas costas!
       Enquanto vestiam seus capotes, trs homens saram furtivamente da taverna, deixando penetrar na sala uma fria rajada de ar.
       
       Coll continha a custo a impacincia. De volta  Alta Esccia, ele no queria outra coisa seno rever seu lar, sua famlia.
       O caminho que agora seguiam conduzia a um pequeno vale, atravessado por um riacho de margens pantanosas, para logo depois penetrar na charneca, onde cresciam 
em apenas pequenos zimbros entre os mataces. Vez por outra, avistavam fileiras de chals encravados no sop das colinas mosqueadas de sol, e gado pastando no cho 
desigual. Embora tivessem ainda algumas horas de viagem pela frente, Coll podia quase sentir o aroma familiar de sua casa e da floresta que a rodeava.
       - Brig, veja que paz!
       Mas Brigham endireitara-se subitamente na sela.
       - Guarde seu flanco esquerdo - gritou ele. - Notei qualquer coisa brilhar atrs daqueles mataces.
       Nem bem acabara de falar, dois cavaleiros irromperam de trs de um grupo de rochas e galoparam contra eles. Ambos montavam animais vigorosos, pneis escoceses 
de crinas ao vento, e embora seus capotes estivessem pudos e sujos, o ao de suas lminas brilhava perigosamente ao sol da tarde. Antes que as armas de chocassem, 
espelindo fascas, Brigham teve tempo para lembrar se os vira na taverna.
       Ao lado dele, Coll puxou a espada contra outros dois e as colinas ecoaram com o tinido das armas e com o estrpito das patas dos cavalos. Sobre suas cabeas, 
uma guia dourada voava em crculos e esperava.
       Os bandidos que haviam atacado Brigham haviam subestimado seu valor. As mos dele podiam ser delicadas, o corpo esguio como o de um danarino, mas os punhos 
eram fortes e elsticos. Usando os joelhos para guiar sua montaria, ele lutava com uma espada numa das mos e a adaga na outra. As duas armas eram guarnecidas com 
lavores de ouro, porm as lminas eram feitas para matar.
       Ouvia Coll gritar e praguejar, ante a arremetida dos dois homens poderosamente armados, mas continuou a lutar em silncio. Com percia admirvel, conservava 
os antagonistas a distncia, ora voltando-se com a agilidade de um falco, ora mantendo-se fora do alcance dos golpes dos inimigos, investindo s vezes contra um, 
s vezes contra outro e distribuindo-lhes golpes formidveis sem lhes dar tempo de atacar.
       Sbito, um deles lanou um grito medonho, que no durou mais do que um segundo. Ele vacilou e caiu por terra, o sangue manchando a neve alva. Seu animal, 
assustado com o cheiro da morte, correu para as rochas arrastando as rdeas. Furioso, o outro assaltante contra-atacou com redobrada ferocidade.
       Seu ataque quase apanhou o conde fora de guarda. Ele sentiu o fio da lmina rasgar-lhe a carne do ombro, mas conseguiu devolver os golpes do adversrio com 
a mesma destreza, obrigando-o a recuar pouco a pouco para as rochas. Ento os olhos fixos no rosto do homem, visou-lhe o corao com fria preciso e trespassou-o.
       Tendo realizado essa dupla proeza, ele esporeou seu cavalo na direo de Coll. O escocs lanava por terra um dos bandidos e agora ia-se aproximando do outro 
com a espada erguida. Mas antes que pudesse baix-la, seu cavalo deslizou no solo escorregadio, e seu adversrio aproveitou a oportunidade para vibrar-lhe um golpe 
no flanco esquerdo.
       Brigham partiu como um raio em seu auxlio. Ao ver-se em situao difcil, o bandido esporeou seu pnei, e galopou para a trilha que serpeava por entre as 
rochas, desaparecendo de vista.
       - Coll! Voc est ferido?
       - Sim, por Deus! - O escocs fez fora para manter-se na sela. - Est ardendo como fogo. 
       - Deixe-me ver isso.
       - No h tempo, aquele chacal pode voltar com reforo. Vamos sair daqui. Chegaremos em casa antes do anoitecer. - Dito isto, ele lanou seu cavalo num galope 
desenfreado.
       Cavalgaram sem descanso. Brigham mantinha um olho na estrada, para evitar uma nova emboscada, e o outro em Coll. O grande escocs estava plido, mas dominava 
bem o ginete. Apenas uma vez, diante de sua insistncia, ele concordou em fazer uma parada para que seu ferimento pudesse ser convenientemente avaliado.
       Brigham no gostou do que viu. O corte era profundo e sangrava abundantemente. Obrigou-o a tomar um longo trago de aguardente e, quando seu rosto plido recobrou 
a cor, ajudou-o a montar.
       Penetraram no bosque quando nuvens de formas indistintas barravam o cu como espesso edredrom, escondendo o sol. O ar cheirava a pinho, mesclado a um leve 
odor de fumaa que vinha de um chal distante. Uma lebre cruzou a picada e desapareceu no meio das moitas. Atrs dela, como um claro de luz, seguiu um esmerilho. 
Framboesas de inverno, grossas como polegares, pendiam de arbustos espinhosos.
       - Eu costumava me esconder nestes bosques, quando era criana. Foi aqui que roubei o primeiro beijo de minha namorada - disse Coll, reminiscente. - No sei 
por que parti e deixei tudo isto.
       - Para voltar como um heri - observou Brigham.
       O escocs esboou um leve sorriso.
       - Desde que o mundo  mundo, sempre houve um MacGregor na Alta Esccia. - Ele virou-se para Brigham e disse com orgulho: - Saiba que minha linhagem  real, 
conde de Ashburn!
       - Pois est deixando seu sangue real nestas trilhas. Para casa!
       Cavalgaram lentamente. Quando passaram diante dos primeiros chals, gritos alegres elevaram-se no ar. Fora das casas, algumas feitas de pedra e madeira, outras 
de barro socado, havia gente esperando. Embora fraco, Coll parou para cumpriment-las.
       Minutos depois, transpunham, lado a lado, a colina, avistando ao mesmo tempo o solar dos MacGregor. Da ampla chamin, uma espiral de fumaa subia para o cu 
escuro. Luzes brilhavam atrs das vidraas e a ardsia azul do telhado cintilava como prata aos ltimos raios do sol poente.
       - Meu lar! - exclamou Coll, um sorriso largo, infantil. iluminando-lhe o rosto.
       Brigham olhou com agrado para a encantadora construo de quatro andares, enfeitada com torres e ameias. Embora o tamanho indicasse que o proprietrio era 
pessoa rica, a simplicidade de suas linhas revelava que fora feito principalmente para proporcionar conforto, sem a preocupao do luxo ou pompa.
       -  um lugar encantador.
       Sbito, uma jovem destacou-se do sqito que se formava atrs deles. Brigham ouviu-a gritar e virou-se na sela para olh-la. Ela vestia o manto axadrezado 
de seu cl. Trazia uma cesta numa das mos e com a outra segurava a barra da saia, proporcionando uma deliciosa viso de saiotes e de pernas bem torneadas.
       Viu-a avanar, rindo, e seus cabelos, da mesma cor dos raios do sol poente, esvoaaram atrs dela. Sua pele, clara como alabastro, estava rosada pelo frio 
e pela alegria que lhe transbordava dos olhos. Suas feies eram delicadamente esculpidas, mas a boca era cheia e sensual. Brigham contemplou-a, embevecido e pensou 
na pastora de porcelana que ele admirara e amara quando era criana.
       - Coll! - chamou ela com voz baixa mas ricamente modulada.
       Depois, sem fazer caso dos cavalos que esgaratavam o cho, impacientes, agarrou as rdeas do rapaz e levantou um rosto que fez Brigham suspirar.
       - No recebemos nenhuma carta anunciando a sua volta. No sabe mais escrever ou estava com muita preguia?
       -  desse modo que recebe seu irmo e seu convidado? O mnimo que podia fazer era mostrar-se educada com meu amigo! - Ele virou-se para Brigham. - Lorde Ashburn, 
minha irm Serena.
       Brigham inclinou a cabea.
       - Srta. MacGregor...
       Preocupada com a palidez do irmo, Serena mal dignou-se a olh-lo.
       - Que houve com voc, Coll? Est ferido?
       Em resposta ele escorregou da sela e caiu ao cho, inconsciente.
       - Oh, Senhor... O que  isto? - perguntou ela, alarmada ao ver o sangue que manchava o casaco dele.
       Brigham desmontou e ajoelhou-se ao lado do amigo.
       - Foi ferido e o corte abriu-se novamente. Vamos lev-lo para dentro de casa.
       Serena ergueu a cabea, os olhos verdes cintilando de mal contida fria.
       - Afaste-se dele, ingls! Meu irmo chega em casa quase morto e o senhor sem um arranho! No  estranho?
       "Coll subestimou sua beleza mas no seu gnio!", pensou Brigham.
       - Posso explicar isso depois que cuidarmos dele - disse, erguendo o amigo nos braos com facilidade.
       - Leve sua explicao de volta para Londres!
       Ele olhou-a com tal firmeza, que ela corou.
       - Acredite, senhora, no  essa minha inteno. Queira, por favor, tomar conta dos cavalos que eu levarei seu irmo para dentro.
       Serena abriu a boca, mas um olhar ao rosto plido de Coll foi suficiente para faz-la engolir as palavras ferinas que se haviam formado em seus lbios. Porm, 
enquanto o ingls levava seu irmo para dentro de casa, lembrou-se do que acontecera na ltima vez em que outro ingls havia transportado aquele umbral. Ento, deixou 
cair as rdeas dos dois cavalos e correu atrs dele vociferando ameaas.
       
       
       
     CAPTULO II
       
       
       Uma criada aguardava Brigham  entrada da casa dos MacGregor. Ao v-lo com seu fardo, ela levou a mo  boca e depois correu para a cozinha, gritando por 
lady MacGregor.
       Fiona chegou apressadamente, as faces coradas pelo calor do fogo. Mas,  vista de seu filho, inconsciente nos braos de um estranho, empalideceu.
       - Coll. Ele...
       - No, milady. Mas est muito ferido.
       Com mo delicada, ela tocou o rosto do filho.
       - Vamos lev-lo para o quarto. Por aqui, por favor.
       Atravessaram o hall de entrada e depois galgaram uma reluzente escada de mogno, com Fiona  frente iluminando o caminho com uma vela. Uma vez no quarto, Brigham 
carregou seu amigo at a cama e o fez deitar. Enquanto lhe afrouxava a gola da camisa, uma jovem de compleio delicada chegou correndo.
       - Mame...
       - Gwen... Graas a Deus! - suspirou Fiona. - Coll est muito ferido.
       - Acenda as velas e os candeeiros, Molly - disse a jovem  criada que a seguira. - Vou precisar de muita luz.
       Depois colocando a mo na testa do irmo, ela voltou-se para Brigham.
       - Ele est febril. Quer me ajudar a tirar-lhe as roupas?
       Brigham respondeu com um leve gesto de assentimento.
       Enquanto as roupas de Coll caam ao cho, Gwen deu breves instrues  criada para que providenciasse bacias de gua, ataduras e ungentos, e s ento inclinou-se 
para examinar o ferimento. Quando Molly voltou com o necessrio, no perdeu tempo: limpou delicadamente o corte e aplicou-lhe os medicamentos que sua experincia 
prescrevera para tais casos.
       Apesar de seus cuidados, Coll comeou a queixar-se e a gemer. Ela despejou ento um pouco de xarope de papoula numa taa de madeira, que introduziu por entre 
os lbios dele com a ajuda de Fiona. Quando o viu mergulhar em leve sonolncia, sentou-se na beirada da cama e ps-se a costurar a ferida.
       - Temos que fazer baixar a febre, mame.  perigoso, no estado dele.
       - Coll  forte como um touro - disse Fiona calmamente. - Vai resistir.
       Enquanto banhava a testa do rapaz com gua fria, ela voltou-se para Brigham e olhou-o com gratido.
       - Obrigada por t-lo trazido para casa. Pode nos contar o que aconteceu?
       - Naturalmente. Sofremos uma emboscada a algumas milhas ao sul de Glenroe. Coll acredita que os atacantes pertenam ao cl dos Campbell.
       - Ento foi isso... - Fiona contraiu os lbios, mas prosseguiu, com voz tranqila, educada: - Preciso me desculpar por no ter ainda me apresentado. Sou Fiona 
MacGregor, a me de Coll.
       - E eu Brigham Langston, grande amigo de seu filho.
       Ela esboou um leve sorriso.
       - O conde de Ashburn, naturalmente. Coll escreveu-nos a seu respeito. Por favor, d seu casaco a Molly e fique  vontade.
       - Ele  ingls! - explodiu Serena do umbral.
       Brigham virou-se para ela, surpreso. Havia desprezo em seus olhos verdes.
       - Sei disso, Serena. - Fiona voltou a sorrir para seu hspede. - Seu casaco, lorde Brigham. A jornada foi longa e acidentada. Tenho certeza de que gostaria 
de tomar uma refeio quente e de descansar um pouco.
       Quando Brigham levantou-se e tirou o grosso casaco de viagem, um grito abafado escapou dos lbios dela.
       - Mas o senhor est ferido! 
       - No  nada, senhora.
       - Um simples arranho - observou Serena com desdm e tentou aproximar-se da irm. Um olhar de Fiona deteve-a.
       - Leve nosso hspede  cozinha e cuide de seu ferimento.
       - Eu preferia cuidar de um rato! - exclamou a jovem, os olhos cintilando de dio.
       Fiona ficou a olh-la durante alguns segundos, o rosto como o de uma mscara de mrmore.
       - Voc o far. Est dito! Brigham interveio.
       - No  necessrio, lady MacGregor.
       - Desculpe, mas  necessrio. O senhor est agora sob meu teto. - Ela virou-se para a filha. - Serena?
       - Est bem, mame. Fao isso pela senhora. - A jovem curvou-se com um sorriso forado. - Queira ter a bondade de me acompanhar, lorde Brigham.
       Interessado em observ-la, Brigham pareceu no notar a ironia e seguiu-a pelo corredor, e pelos dois lances de degraus estreitos da escada de servio. A cozinha 
era aconchegante e recendia aos ricos aromas que evolavam de um caldeiro dependurado sobre o fogo e de uma assadeira cheia de tortas ainda quentes.
       Serena indicou-lhe uma cadeira.
       - Sente-se, my lord.
       Ele a obedeceu.
       - Espero que no desmaie  vista de sangue, srta. MacGregor.
       - E eu espero que o senhor no tenha um ataque de nervos, quando vir sua linda camisa arruinada!
       Era mais do que um simples arranho. Foi o que ela percebeu ao ver a mancha pegajosa a alargar-se sobre o ombro da camisa. E, embora o homem fosse ingls, 
sentiu-se um pouco envergonhada. Evidentemente, o corte abrira-se quando carregara Coll para dentro de casa.
       Cortou-lhe a camisa junto ao ombro e lavou-lhe o ferimento. A carne dele era quente e macia sob seus dedos, e ele cheirava no a perfumes e a p-de-arroz, 
como imaginava que todos os ingleses cheirassem, mas a cavalos, suor e sangue. Estranhamente, isso despertou-lhe uma certa piedade e tornou seus toques mais gentis 
do que ela pretendia.
       "Ela tem o rosto de um anjo e a alma de um demnio. Uma combinao bastante interessante", pensou Brigham, reprimindo a custo a vontade de enterrar os dedos 
naquela profuso de cabelos cor de fogo, encaracolados, que lhe desciam graciosamente pelo pescoo. " um conjunto de encantos que nada fica a dever s mais formosas 
damas de Paris."
       Sem perceber que estava sendo intensamente observada, Serena trabalhou com competncia e rapidez, limpando a ferida e aplicando-lhe um dos ungentos de ervas 
de Gwen. O odor era agradvel e a fez pensar em bosques e flores. Mal notou que havia sangue ingls em seus dedos.
       Ao alcanar as ataduras, ele ergueu a cabea. De repente, viu-se to perto dele quanto um homem e uma mulher poderiam ficar sem estar abraados. Notou que 
seus olhos eram cinzentos, mais escuros do que quando haviam pousado nela. Sua boca, de lbios bem delineados, curvara-se agora num princpio de sorriso, que transformava 
suas feies angulosas, emprestando-lhes uma inesperada luminosidade. Por um segundo, talvez dois, ficou imvel, a olh-lo.
       - Vou viver? - murmurou ele.
       A estava! A voz inglesa, zombeteira, presunosa! No precisou de outra coisa para que desfizesse o clima de encantamento que comeava a instalar-se. Sorriu 
e apertou as ataduras com tanta fora que arrancou um gemido dos lbios dele.
       - Oh! desculpe, my lord - disse ento com fingida humildade. - Magoei-o?
       Brigham cruzou calmamente as pernas, pensando que seria um prazer estrangul-la. 
       - No se importe com isso.
       - No me importarei. - Serena levantou-se para remover a bacia. -  estranho, mas nunca imaginei que o sangue ingls fosse to aguado.
       - No to aguado quanto o sangue escocs que fiz correr hoje.
       - Se era sangue dos Campbell, concordo. Mas no lhe fico grata por, isso.
       - Mylady me ofende, se pensa que  gratido que eu espero de voc.
       Sem mais uma palavra, ela virou-se e tirou do armrio uma tigela de madeira, ao invs de um prato de loua fina, encheu-a de ensopado e colocou-a com fora 
sobre a mesa. A seguir, despejou um pouco de cerveja numa caneca de estanho, e jogou algumas bolachas de aveia num pratinho.
       - Seu jantar, my lord. E tenha cuidado para no se engasgar!
       Brigham levantou-se em toda a sua estatura e, pela primeira vez, ela notou que ele era quase to alto quanto Coll, embora fosse mais esguio.
       - Seu irmo me avisou que a senhorita era geniosa.
       Serena ps as mos nos quadris e olhou-o atravs das plpebras semicerradas.
       - Sorte sua, my lord. Assim no far a tolice de me contrariar.
       Ele deu um passo na direo dela.
       - Se pretende correr atrs de mim ameaando-me com a espada de seu av, como fez com seu irmo, pense duas vezes.
       Ela apertou os lbios, como se estivesse sufocando o riso.
       - Por qu? Tem ps ligeiros; Sassenach? - perguntou, usando o termo galico para designar o odiado invasor ingls.
       Brigham sorriu e tomou-lhe a mo, levando-a aos lbios.
       - Sou-lhe grato por seus cuidados e sua hospitalidade, srta. MacGregor.
       Em resposta, Serena virou-lhe as costas e saiu da cozinha esfregando a mo na saia.
       
       Naquela noite, depois de uma ceia leve mas satisfatria, Brigham retirou-se para os aposentos que lhe haviam sido destinados. Enquanto descansava, pensou 
que seu amigo descrevera os MacGregor com admirvel exatido.
       Fiona era uma mulher encantadora, bem educada, mas de pulso firme. A jovem Gwen, to doce, discreta e envergonhada, possua, no entanto, uma extraordinria 
capacidade para atender um leito de enfermo e cuidar de ferimentos. Quanto a Serena... Coll nada dissera, mas sua irm era uma loba com um rosto que rivalizaria 
com o de Helena de Tria. Ela tinha bons motivos para no gostar dos ingleses. Achava, porm, que devia julgar os homens pelo que eles eram, no por suas nacionalidades.
       "Devo tambm julg-la pelo que ela  e no por sua beleza?", pensou. Quando ela comeara a correr na direo do irmo, os cabelos esvoaando ao vento e o 
rosto refletindo intensa emoo, ele tivera a impresso de ter sido atingido por um raio. Felizmente, no era homem de se deixar seduzir por um belo par de olhos 
e um lindo corpo. Viera  Esccia para lutar pela causa em que acreditava e no tinha que se preocupar se uma garota mal educada que o considerava como pertencente 
a uma raa infame!
       Levantou-se e, enquanto media o aposento com largas passadas, refletiu que, devido a seu alto nascimento, no tivera outro interesse na vida seno reverenciar 
o nome de sua famlia e cultuar a memria de seus antepassados.
       Desde a mais tenra idade, aprendera que ser um Langston era no s um privilgio como uma responsabilidade. No considerara nenhuma das duas coisas com leviandade. 
Se o tivesse feito, estaria agora em Paris, usufruindo dos prazeres e das extravagncias de uma sociedade elegante, e no ali, nas montanhas da Esccia, arriscando 
tudo para apoiar um jovem prncipe em sua empresa.Debatia-se ainda com esse problema, quando uma batida na porta interrompeu sua reflexes.
       - Sim? - perguntou, voltando-se.
       A jovem criada que o recebera na chegada entrou e lanou-se em profunda reverncia.
       - Queira desculpar-me, Lorde Brigham.
       Brigham suspirou, impaciente. - Posso saber do que est se desculpando?
       - Lorde MacGregor chegou e deseja v-lo. Se for de sua convenincia, senhor - disse a moa, ainda no se atrevendo a levantar a cabea da humilde postura.
       - Certamente. Descerei num minuto.
       Quando ela saiu, Brigham escovou cuidadosamente o casaco de seu nico traje formal. Trouxera consigo apenas uma muda de roupas, deixando na carruagem, que 
devia chegar a Glenroe no dia seguinte, o grosso de seus pertences.
       Mas isso no o aborreceu. E assim, minutos depois, desceu as escadas, esbelto e elegante num traje negro com botes prateados. Uma camisa branca, enfeitada 
com um jab de rendas espumosas, complementava sua indumentria. Em Paris ou Londres, seguiria a moda empoando os cabelos. Mas ali, no campo, julgara de bom-tom 
dispensar tal cuidado e os penteara para trs simplesmente.
       Lorde MacGregor esperava-o na sala de jantar, junto  lareira, cujas chamas crepitavam, altas, s suas costas. Os cabelos vermelhos, abundantes e longos, 
caam-lhe at os ombros e uma barba da mesma cor cobria-lhe as faces. Em homenagem ao ilustre hspede, ele encontrara tempo para cuidar de sua pessoa. Estava irrepreensvel 
no saiote pregueado que lhe assentava muito bem j que era to alto e forte como seu filho. Como ele, usava um gibo de pele curtida, guarnecido com um broche de 
ouro representando uma cabea de leo.
       - Lorde Ashburn! O senhor  bem-vindo  Glenroe e  casa de Ian MacGregor!
       O sorriso era cordial, os olhos desanuviados e a mo firme ao cumprimentar.
       - Obrigado por acolher-me aqui! - Brigham aceitou a cadeira e o porto que lhe eram gentilmente oferecidos. - Posso saber como est Coll?
       - Mais descansado, embora minha filha Gwen afirme que ele ter uma noite difcil.
       Ian fez uma ligeira pausa.
       - Coll escreveu-nos dizendo que o senhor  amigo dele. E mesmo que no tivesse dito, seria considerado como tal por traz-lo de volta para ns.
       - Obrigado, senhor.
       - A sua sade, my lord. - Ele sorveu um longo gole de vinho e depois continuou: - Soube que sua av era uma MacDonald.
       - Efetivamente, senhor. Uma MacDonald da ilha de Skye.
       O rosto de Ian, curtido pelo sol e pelo vento, abriu-se num largo sorriso.
       - Nesse caso,  duplamente bem-vindo. - Ele ergueu novamente a taa e olhou para seu hospede com ar interrogativo. - Ao verdadeiro rei?
       Brigham retribuiu o brinde.
       - Ao rei que est alm-mar - disse, sustentando com firmeza o olhar de Ian. - E  rebelio que vir.
       - Sim, bebamos a isso - respondeu seu anfitrio, e virou a taa de um s trago. - Agora, diga o que aconteceu ao meu rapaz.
       Brigham falou sobre a emboscada, descrevendo com pormenores os homens que os haviam atacado. Enquanto ele falava, Ian inclinou-se para a frente, no perdendo 
uma s palavra do que era dito.
       - Morte infame aos Campbell! - vociferou ele, dando um soco na mesa e fazendo os copos tilintarem.
       - Conheo um pouco da rivalidade que impera entre os cls e os feudos, lorde MacGregor. E tudo leva a crer que a emboscada foi um simples caso de vingana 
pessoal. Mas no descarto a hiptese de que fomos o alvo de uma conspirao.
       - Como assim?
       - Os rumores sobre o apoio dos jacobitas ao legtimo rei podem ter chegado at aqui.
       Ian afagou a barba, pensativo.
       - Quatro contra dois, no foi? No  to estranho assim, quando se trata dos Campbell. Disseram-me que tambm o senhor foi ferido.
       - Um arranho. - Brigham encolheu os ombros. - Quanto a Coll, foi uma infelicidade. Se o cavalo dele no tivesse escorregado, seu adversrio no o teria colhido 
fora de guarda. Seu filho  um espadachim de primeira, my lord!
       - Ele diz a mesma coisa do senhor. - Ian sorriu. No havia nada que ele mais gostasse do que uma boa luta. - No houve tambm uma escaramua a caminho de 
Calais?
       Brigham sorriu  lembrana.
       - Uma simples diverso.
       - Gostaria de ouvir toda a histria. Mas, antes, conte-me tudo a respeito do Prncipe Galante e de seus planos.
       Conversaram durante horas, enquanto as velas pingavam gotas de cera. Esvaziaram a garrafa de porto e esqueceram as formalidades. Eram apenas dois homens unidos 
pelos mesmos ideais, ambos guerreiros por bero e temperamento. Poderiam lutar por razes diferentes, um numa desesperada tentativa de preservar seu modo de vida 
e suas terras, o outro por uma simples questo de justia, mas lutariam sempre.
       Quando se separaram, Ian para ver seu filho e Brigham para tomar um pouco de ar fresco e dar uma olhada em seus cavalos, sabiam tudo o que necessitavam saber 
um do outro.
       Era tarde quando Brigham voltou da estrebaria. A casa estava silenciosa, o fogo abafado. Fora, o vento fazia estalar os galhos, lembrando o quo distante 
se encontrava de Londres e de tudo que lhe era familiar.
       Perto da porta, fora deixada uma vela acesa para gui-lo na escada. Apanhou-a e comeou a subir os degraus, embora no estivesse ainda com sono. Os MacGregor 
haviam-no interessado desde a primeira vez em que partilhara com Coll uma garrafa de vinho e a histria de suas vidas. Sabiam que eram unidos, no apenas por obrigaes 
familiares, mas por inquestionveis laos afetivos e um amor comum  terra onde haviam nascido.
       Naquela tarde, tivera ocasio de verificar isso. No houvera choros e gritos, quando ele carregava Coll para casa, nem desmaios femininos. Pelo contrrio. 
Cada um fizera a sua parte. Era desse tipo de compromisso que o prncipe Charles necessitaria nos meses que viriam.
       Ao chegar ao patamar, no topo da escada, no se dirigiu diretamente ao seu quarto, mas dobrou pelo corredor na direo do quarto de Coll. A porta estava aberta 
e as cortinas do leito corridas, deixando ver que seu amigo dormia sob o edredom de plumas. Sentada ao seu lado, Serena lia um livro  luz do castial.
       Era a primeira vez que a via fazer jus a seu nome. A suave claridade, seu rosto calmo parecia extraordinariamente encantador. Ela trocara o vestido de casa 
por um chambre verde-escuro, fechado no pescoo, que acentuava a alvura de sua tez. Enquanto a observava de longe, com olhos especulativos, viu-a inclinar-se para 
o irmo e tomar-lhe o pulso.
       - Como est ele?
       Ela sobressaltou-se e, quando ergueu os olhos, sua expresso transformou-se de sbito, dando lugar a uma atitude reservada e fria.
       - A febre est ainda alta. Mas Gwen acha que baixar pela manh.
       Brigham deu alguns passos para a frente. O cheiro de remdios, misturado ao de papoulas, competia com o odor de resina das achas que ardiam na lareira.
       - Coll me disse que ela sabe operar milagres com as ervas. J vi mdicos com mos menos firmes do que as dela, no ato de coser uma ferida.
       - Ela tem o dom de curar, alm de um corao de ouro. Teria ficado a noite toda  cabeceira de Coll, se eu no a tivesse posto para fora do quarto.
       - Ento, a senhorita pe para fora todo mundo, no apenas os estranhos? - Ele a impediu de retrucar com um gesto de mo. - Acalme-se, minha querida, ou seus 
gritos iro acordar sua irm e o resto da famlia.
       - No sou sua querida!
       - Mera forma de expresso.
       O enfermo mexeu-se no sono e Brigham perguntou:
       - Ele j voltou a si?
       - Uma ou duas vezes, mas no est ainda plenamente consciente.
       Serena umedeceu uma toalha e banhou com ela a testa febril de seu irmo.
       -  melhor o senhor se retirar. Poder v-lo amanh de manh.
       - E a senhorita?
       As mos dela eram gentis ao cuidarem do irmo, e ele imaginou como seriam acariciando-lhe o rosto.
       - O que h comigo?
       - No tem ningum que a leve para a cama?
       Ela ergueu os olhos, plenamente consciente do significado daquelas palavras. Mas limitou-se a dizer:
       - Sua vela est no fim, lorde Ashburn.
       Brigham assoprou-a, mergulhando-os na doce intimidade da luz do nico castial. 
       - Uma vela  suficiente.
       - Espero que ache o caminho para seu quarto no escuro.
       - Tenho uma vista excelente. - Com gestos lnguidos, ele apanhou o livro que ela estivera lendo. - Macbeth?
       - Est admirado? As senhoras de suas relaes no costumam ler?
       - Algumas.
       Brigham folheou rapidamente o livro, observando:
       -  uma histria de horror e de crime.
       - E de poder.  a vida, my lord. Ela pode ser terrvel, como os ingleses nos provam to freqentemente.
       - Macbeth era escocs - lembrou-a ele. - E essa histria degradante, de infortnio e desespero, nada tem a ver com a realidade!  assim que v a vida?
       - Eu a vejo como ela pode ser.
       Brigham encostou-se  mesa. O ponto de vista dela o interessava.
       - No v Macbeth como um vilo?
       - Por qu? Ele se apoderou do que, no seu entender, lhe pertencia.
       - E seus mtodos?
       - Eram rudes, brutais. Talvez os reis devam ser rudes. O prncipe Charles no conquistar o trono pedindo por favor.
       - No. - Ele fechou o livro com um golpe seco. - Mas no se pode comparar traio com uma luta leal.
       - Uma espada  uma espada, seja lanada pelas costas, seja no corao.
       Brigham fitou-a. Os olhos verdes brilhavam como chamas  luz da vela, quando ela continuou:
       - Se eu fosse homem, lutaria para vencer. E, para tal, usaria qualquer mtodo.
       - E a honra?
       - H mais honra na vitria!
       - Acredita mesmo nisso?
       - Houve uma poca em que os MacGregor eram caados como animais. E quando se  caado como um animal, aprende-se a lutar como ele. No esquecemos, lorde Ashburn. 
E no esqueceremos jamais!
       - Estamos em outra poca, Serena.
       - E ainda assim o sangue de meu irmo foi derramado!
       Num impulso, ele cobriu-lhe a mo com a dele.
       - Dentro de alguns meses, muitos iro derramar seu sangue. Infelizmente, no por justia, mas por vingana.
       - Tanto melhor, se nos for dada uma oportunidade para a desforra! O senhor pode dar-se ao luxo da justia, my lord. Ns, no!
       Coll gemeu e comeou a mexer-se e Serena voltou sua ateno para ele.
       - A ferida ir abrir-se novamente. Segure- o, por favor, my lord.
       Ela despejou um pouco de uma poo calmante e narctica numa taa de madeira e levou-a aos lbios do irmo.
       - Beba isso, querido.
       Sua mo tremia e ela no se ops, quando Brigham tirou o casaco e enrolou as mangas de punhos rendados, disposto a ajud-la. Juntos, banharam o enfermo com 
gua fria e o foraram a tomar mais um pouco da poo de Gwen. Depois, permaneceram de viglia.
       Brigham observava-a, enquanto ela se debruava sobre a cama, ajeitando a cabea ruiva de Coll nos travesseiros, ou falando-lhe em galico. Os sons, por mais 
speros que pudessem ser, tinham, vindos daquela bela jovem, um efeito romntico e agradvel. Tocavam-lhe o corao pela doura com que eram proferidos e pela expresso 
de bondade de quem os dizia.
       Serena olhava-o de quando em quando, furtivamente. Ele estava obviamente preocupado com a sade de seu irmo. Sem sua ajuda, ela seria forada a acordar sua 
irm ou a sua me. Assim, por algumas horas, procurou esquecer que lorde Ashburn representava tudo o que desprezava no mundo e aceitou sua presena no quarto.
       De vez em quando, sobre a cama ou a mesa, suas mos se roavam. Porm, ambos procuravam ignorar essa pequena intimidade. "Ele pode estar preocupado por Coll, 
mas, ainda assim,  um ingls", pensava Serena. "Ela tem mais inteligncia e coragem do que qualquer mulher que j conheci, mas  o terror dos jovens escoceses", 
pensava Brigham.
       Ao amanhecer, Coll havia superado a crise. Serena engoliu as lgrimas de alvio e ajeitou-o bem na cama.
       - A febre cedeu. Acho que o pior j passou, mas  melhor que Gwen verifique se as ligaduras esto no lugar e se os ferimentos apresentam melhoras.
       - E quase dia. Agora, ele vai dormir um sono tranqilo e reparador.
       Brigham endireitou-se. O fogo, que havia alimentado durante a noite, ainda ardia na lareira. Ele desabotoara a camisa, para seu maior conforto, e Serena teve, 
nesse instante, a viso de um peito amplo e musculoso.
       - Sim, j  dia - disse ela, caminhando para a janela a fim de esconder sua perturbao.
       Brigham voltou-se para olh-la: Os primeiros clares do amanhecer tingiam o horizonte, envolvendo-a em dourada opalescncia. Os cabelos vermelhos pareciam 
uma coroa real. O rosto, plido de cansao, era dominado pelos olhos, que pareciam maiores, mais escuros e mais misteriosos.
       "Ter conscincia da viso encantadora que proporciona?", perguntou-se.
       Serena sentiu um calor estranho invadir-lhe o corpo, enquanto ele a fitava. Queria que ele parasse com isso. Fazia-a sentir-se... fraca, vulnervel. Subitamente 
medrosa, desviou os olhos.
       - No h mais necessidade que o senhor permanea aqui.
       - No, no h.
       Ela deu-lhe as costas e Brigham tomou isso como uma ordem para que ele se retirasse. Fez uma curvatura irnica, e caminhou para a porta, mas parou no limiar, 
quando a ouviu soluar.
       - No h necessidade de lgrimas. Coll est melhor.
       Serena enxugou os olhos com a ponta dos dedos, envergonhada.
       - S percebi que estava com medo que ele fosse morrer agora que a crise passou. 
       Brigham ofereceu-lhe seu leno.
       - Enxugue as lgrimas.
       - Obrigada.
       - Melhor, agora?
       - Sim. - Ela respirou fundo. - Mas gostaria que o senhor se retirasse.
       - Para onde quer que eu v? Para o meu quarto ou para o diabo?
       Os lbios dela curvaram-se num sorriso.
       - Para onde quiser, my lord.
       Ele sentiu a tentao de beij-los e a conscincia disso espantou-o tanto quanto o sorriso dela. Queria sentir os lbios macios, entreabertos e clidos sob 
os seus! Num impulso, alcanou-a e mergulhou os dedos naqueles cabelos que pareciam feitos de luz,  claridade do sol nascente.
       - No - disse Serena, admirada de que sua negao soasse to pouco convincente.
       Ele tomou-lhe a mo e beijou-a.
       - Voc est tremendo.
       - No devia deixar que me tocasse.
       Sem foras para evitar as sensaes que a sufocavam, ela apoiou-se contra aquele peito forte e vigoroso, arquejando. Quando o viu abaixar a cabea, fechou 
os olhos e entreabriu instintivamente os lbios.
       - Serena?
       Ela virou-se abruptamente e seu rosto ardeu de vergonha ao ver-se diante de Gwen, que se debruava sobre a figura adormecida de Coll.
       - Pensei que estivesse ainda na cama - murmurou, aproximando-se. - Voc dormiu apenas algumas horas.
       - Foram suficientes? E Coll? 
       - A febre cedeu.
       - Graas a Deus!
       Envolta num chambre azul, com os cabelos dourados a lhe emoldurarem o rosto de feies delicadas, Gwen parecia realmente o anjo que Coll descrevera.
       - Ele est dormindo e vai dormir por mais algumas horas - afirmou ela, quando se certificou de que o irmo estava inteiramente livre dos sintomas febris.
       Ao erguer os olhos, viu Brigham junto  janela e surpreendeu-se.
       - Lorde Ashburn! O senhor passou a noite em claro?
       - Ele j ia se recolher - interveio Serena, nervosa.
       - O senhor precisa descansar. Lembre-se de seu ferimento.
       Brigham fez uma leve inclinao de cabea. - Eu a agradeo por seu interesse. Mas no se preocupe. Vou direto para a cama. Os olhos dele deslizaram para Serena, 
irnicos.
       - Seu criado, senhora.
       Gwen sorriu, sonhadora, quando ele desapareceu nas sombras do corredor. 
       - To bonito...
       A irm encolheu expressivamente os ombros.
       - Para um ingls...
       - Foi muita gentileza da parte dele ficar  cabeceira de Coll, no acha?
       - No! E quero que ele apodrea numa fossa!
       
       
       
     CAPTULO III
       
       
       Brigham dormiu at as primeiras horas da tarde. Quando despertou, sentia-se bem-disposto. Seu ombro ferido estava rgido, mas no o incomodava. Anotaria isso 
como crdito a favor de Serena.
       Jogou as cobertas para um lado, lanando um olhar distrado para seu casaco de montaria. Estava em pssimas condies, mas teria de vesti-lo assim mesmo, 
j que no podia usar um traje de noite quela hora do dia! At que seus bas chegassem, no havia outro jeito seno conformar-se com a situao.
       Passou a mo pelo queixo barbudo, pensando o que diria seu criado de quarto se o visse naquele estado. O caro e fiel Parkins! Ficara aborrecido ao saber que 
iria permanecer em Londres enquanto seu patro viajava para as brbaras montanhas da Esccia. Embora conhecesse o verdadeiro propsito dessa viagem, ele no se mostrara 
menos ansioso em empreend-la. Mas o que fazer com um criado de quarto em Glenroe?
       Brigham olhou-se no espelho e, com um suspiro, ps-se a escanhoar o queixo. Podia no ser capaz de dar um jeito no casaco amarrotado ou nas rendas de sua 
camisa, mas sabia barbear-se sozinho!
       Meia hora depois, banhado e reanimado, desceu para o andar trreo. Encontrou Fiona MacGregor, usando um avental sobre o simples vestido caseiro, a esper-lo 
no hall de entrada.
       - Lorde Ashburn, espero que tenha descansado bem.
       - Muito bem, lady MacGregor. Obrigado.
       - Deve estar com fome, naturalmente.
       Com um sorriso, ela colocou-lhe a mo no brao e conduziu-o  sala de jantar. Antes de entrar, fez um sinal  criada.
       - Molly, diga  cozinheira que lorde Ashburn desceu e que gostaria de almoar.
       Na sala, j havia um lugar posto  longa mesa de carvalho.
       - Prefere comer sozinho, ou gostaria que eu lhe fizesse companhia?
       - Se quiser dar-me esse prazer, madame...
       Com um sorriso Fiona aceitou a cadeira que ele lhe puxou.
       - Ainda no o agradeci como devia. Quero me desculpar por isso e dizer quanto lhe somos gratos por ter trazido nosso filho para casa.
       - Gostaria que ele tivesse chegado em melhores condies.
       - O senhor o trouxe para ns e  isso que importa.
       - Coll  meu amigo - disse Brigham com afeto.
       Fiona tomou-lhe a mo e acariciou-a de leve. - Foi o que ele me disse. Mas isso no diminui a dvida que temos para com o senhor. 
       - Como est ele?
       - Suficientemente bem para queixar-se. - O sorriso de Fiona era maternal. - Coll  como o pai, impaciente e impulsivo.
       Falaram coisas banais, enquanto a refeio, preparada com esmero, era servida. Havia um caldo espesso de hortalias enriquecido com grossas fatias de presunto, 
pores de peixe fresco com ovos, bolachas de aveia, caf e uma grande variedade de gelias.
       Brigham sentia-se confortvel,  vontade. Achava o sotaque de lady Fiona encantador e sua conversa agradvel. Esperava que ela lhe perguntasse o que havia 
discutido com seu marido na noite anterior, porm ela parecia contente com seu papel de dona de casa.
       - Se quiser, my lord, remendarei seu casaco.
       Ele olhou para a manga que a espada do bandido estraalhara e fez um pequeno gesto de pesar.
       - Acho que no tem mais conserto. 
       - Faremos o que for possvel. 
       - Obrigado.
       Continuaram nesse tom por mais cinco minutos, at que Fiona afastou a cadeira e levantou-se.
       - Poder desculpar-me, my lord? Tenho muito o que fazer at a chegada de meu marido.
       - Lorde MacGregor partiu?
       - Sim, mas voltar ao anoitecer. Tambm ele tem muito o que fazer, antes que o prncipe Charles comece a agir.
       Brigham fitou-a com admirao. Jamais conhecera uma mulher que considerasse a ameaa de uma guerra com tanta calma! Fezlhe uma reverncia corts e subiu ao 
andar superior. Do corredor, ouviu Coll resmungar:
       - No vou comer esse grude!
       - Vai comer, sim! - Era a voz de Serena. - Gwen fez isso especialmente para voc.
       - No adianta insistir. No vou comer e ponto final!
       Ficou a observ-los por um instante do limiar, depois entrou no quarto. O amigo recebeu-o com um suspiro de alvio.
       - Chegou em boa hora, Brig! Mande-a levar de volta essa papa horrvel. Eu quero comer carne. Carne! - repetiu ele com mais vigor. - E tomar usque!
       Brigham aproximou-se da cama e deu uma espiada no mingau ralo que enchia a tigela.
       - No  nada apetitoso.
       - Foi o que eu disse. - Coll apoiou a cabea no espaldar da cama e tornou a suspirar. - Ningum, a no ser uma mulher teimosa, esperaria que eu comesse esta 
lavagem. 
       - Tivemos presunto no almoo. 
       Os olhos do escocs brilharam. 
       - Presunto?
       - Cozido, no ponto certo. Cumprimente sua cozinheira por mim, srta. MacGregor.
       - Meu irmo precisa comer mingau de aveia - disse ela entre dentes -, e  isso que ele vai comer!
       Brigham deu de ombros e sentou-se na beirada da cama.
       - Isso  com voc, Coll.
       - Mande-a embora daqui!
       - Terei prazer, certamente, em fazer tudo o que estiver a meu alcance. Mas acho perigoso recorrer a mim. Sou ingls!
       Coll virou-se para a irm.
       - V para o diabo, Serena! E leve este mingau de aveia com voc!
       - Muito bonito!  assim que agradece o esforo de Gwen? Ela no s cuidou de voc, mas teve at o trabalho de lhe preparar algo com suas prprias mos. Levarei 
a bandeja para baixo, se  isso que voc quer. E direi a Gwen que prefere jejuar a comer o mingau que ela fez!
       Virou-se e caminhou para a porta. Mal havia dado dois passos, Coll a chamou:
       - Com mil demnios, Serena! Volte e me d essa bandeja!
       Ela aproximou-se dele com um sorriso e enfiou a colher no mingau.
       - Abra a boca, querido.
       - No preciso de sua ajuda. Vou comer sozinho!
       - E respingar mingau sobre os lenis limpos? Nada disso, meu irmo!
       Brigham levantou-se.
       - J vou indo, Coll. Bom apetite.
       O rapaz agarrou-lhe o pulso.
       - No me deixe sozinho. Ela... - Ele fez uma pausa, quando sua irm enfiou-lhe uma colherada de mingau na boca. Depois de engolir, continuou: - Ela  o diabo 
em pessoa, Brig!
       Brigham voltou-se para Serena.
       - Verdade?
       Ela deu de ombros, com indiferena.
       - , acho que sou.
       Coll conteve a custo o riso e perguntou em tom casual:
       - Soube que recebeu uma estocada no ombro, Brig.
       - Coisa  toa. Sua irm j cuidou disso.
       - Gwen  um anjo!
       - Ela estava muito ocupada - explicou Brigham. - Foi Serena quem tratou dos ferimentos.
       - Tratando de um ingls, irmzinha querida? - disse Coll e todo o seu rosto era um grande sorriso.
       - Farei voc engolir essa colher, Coll MacGregor! - ameaou ela.
       - E preciso mais do que o arranho de uma espada para me pr fora de combate, mocinha. Tenho ainda foras para dar-lhe umas boas palmadas no traseiro!
       Ela lhe enxugou delicadamente a boca com o guardanapo.
       - Lembra-se da ltima vez que tentou fazer isso, querido?
       Coll fez que sim com a cabea e voltou-se para Brigham.
       - A moa  valente, Brig! Ela me deu um pontap... - Ao notar o olhar furioso que a irm lhe lanava, ele concluiu, apressado: - Ela me feriu o orgulho.
       - Vou me lembrar disso, se um dia chegar a discutir com a srta. MacGregor.
       Coll recostou a cabea no travesseiro e suspirou.
       - A moa mais linda de Glenroe... Mas que gnio, Brig! To diferente daquelas lindas e doces francesinhas de cabelos dourados...
       - Tive o trazer de descobrir isso por mim mesmo, meu amigo.
       - Ela me forou a tomar essa droga...
       - Que tarefa ingrata cuidar de um irmo doente! - atalhou Serena com brandura.
       - Amo voc, Serena - murmurou ele, fechando os olhos.
       - Sei disso. E agora durma.
       Ela o aconchegou ternamente no edredrom de plumas, deixando-se ficar um momento a contempl-lo. Depois, apanhou a bandeja e fez meno de sair do quarto.
       - A senhorita dormiu bem? - perguntou Brigham, bloqueando a passagem.
       - Bem, obrigada. - Serena tentou manter o sangue-frio. - Desculpe-me, lorde Ashburn, mas tenho muito o que fazer.
       - Lorde Ashburn... Para que tanta formalidade? Afinal, passamos a noite juntos!
       Ela lanou-lhe um olhar de puro dio.
       - Por quem me toma? Por uma daquelas francesinhas da corte do rei Lus? Guarde sua intimidade para elas!
       Ele sorriu, divertido.
       - Sabe que tem os olhos mais incrveis que j vi? Quando fica zangada, eles ardem como duas chamas verdes!
       Serena corou profundamente. Sabia como lidar com a lisonja, como aceit-la, ou descart-la. Mas era difcil manter a confiana em si mesma, quando sua vontade 
estava em luta com a daquele homem forte, altivo e resoluto.
       - Deixe-me passar.
       - Logo agora que a conversa est ficando interessante?
       - Para o senhor!
       Brigham agarrou-a pelo brao.
       - Voc teria me beijado, no teria, se sua irm no tivesse aparecido?
       - Saia da minha frente!
       Nesse instante, um garoto de cerca de dez anos, cabelos ruivos e olhos verdes, chegou correndo pelo corredor e estacou  porta do quarto.
       - Malcolm! - disse Serena, levando o dedo indicador aos lbios. - No faa barulho, Coll est dormindo.
       - Que pena! Eu queria v-lo.
       - Voc pode dar uma espiada nele, mas antes vai ter que se lavar. Est parecendo um garoto de estrebaria!
       - Eu estava com a gua. Ela vai dar cria dentro de um ou dois dias. 
       - Isso no  desculpa.
       - Est bem. Voltarei mais tarde. - Antes de virar-se, o menino apontou para Brigham. -  ele o maldito ingls?
       - Malcolm! - disse Serena, escandalizada. Depois, corando, acrescentou: - Queira desculp-lo, my lord.
       Brigham lanou-lhe um olhar zombeteiro. Sabia de quem o garoto ouvira a expresso ofensiva. 
       - No quer nos apresentar? 
       - Meu irmo Malcolm, lorde Ashburn.
       - Seu criado, sr. MacGregor - disse ele, com voz calma e impessoal.
       O menino sorriu diante do tratamento formal. - Meu pai gosta do senhor - confidenciou ele. - E tambm minha me e Gwen.
       Os lbios de Brigham curvaram-se num leve sorriso.
       - Sinto-me honrado.
       - Soube que tem os melhores cavalos de Londres. Nesse caso, eu tambm vou gostar do senhor!
       Brigham desmanchou-lhe os cabelos e olhou para Serena.
       - Viu s? Outra conquista.
       Ela ergueu o queixo e ignorou-o.
       - V se lavar, Malcolm.
       - Elas esto sempre querendo que eu me lave - disse o menino com um suspiro. - E bom que haja mais homens na casa!
       
       Cerca de duas horas depois, a carruagem de lorde Ashburn chegou a Glenroe causando sensao. O conde era um homem requintado e seu aparato de viagem no constitua 
exceo. A carruagem, negra com adornos de prata, era conduzida por um cocheiro vestido de preto, com o auxlio de um jovem palafreneiro, instalado a seu lado, na 
bolia.
       - Ei, garoto!
       O cocheiro saltou ao cho e chamou um menino, que estava sentado  margem da estrada, admirando a carruagem.
       - Onde fica o solar MacGregor?
       - Siga em frente. A casa fica no alto da colina. Esta  a carruagem do lorde ingls?
       - Acertou, garoto.
       Satisfeito, o menino apontou para o alto.
       - Ele est morando l em cima.
       Brigham viu quando a carruagem parou no ptio do solar e comeou a descer as escadas de pedra.
       - Por que demoraram tanto?
       - Peo desculpas, my lord. As estradas estavam ruins.
       Ele apontou para os bas.
       - Traga-os para dentro, Wiggins. 
       - Pois no, my lord.
       - Os estbulos ficam atrs da casa, Jem. Leve os cavalos para l. Vocs j comeram?
       O jovem palafreneiro, cuja famlia servia os Langston durante trs geraes, saltou ao cho, meio tonto.
       - Apenas um bocado, milorde. Wiggins estava com pressa.
       - Tenho certeza de que encontraro uma refeio quente na cozinha. Se vocs...
       Brigham interrompeu-se quando a porta da carruagem abriu-se, e um homem, mais altivo do que um duque, ps o p no estribo.
       - Parkins!
       Seu criado de quarto inclinou respeitosamente a cabea.
       - My lord.
       Ento ao notar o estado dos trajes do patro, ele estremeceu e sua voz encheu-se de horror: 
       - Oh, my lord!
       Brigham olhava para ele, a boca entreaberta, como se estivesse vendo um fantasma. Depois de um longo silncio, explodiu:
       - Mas o que est fazendo aqui?
       - O senhor precisa de meus cuidados. Eu sabia que tinha de vir e, agora, no tenho mais dvidas a esse respeito. Vou dar ordens para que os bas sejam levados 
imediatamente para os aposentos de my lord.
       - No vai fazer coisa nenhuma! No preciso de um criado de quarto aqui no campo!
       Parkins no se deixou dispensar com tanta facilidade.
       - Faz vinte anos que sirvo  famlia Ashburn. E vou continuar a servi-la. No voltarei para Londres.
       Brigham suspirou fundo. Era difcil permanecer insensvel  lealdade e  nobre cortesia do homem.
       - Pelo inferno, entre! Aqui fora est um gelo! - disse, tomado de ligeiro desespero.
       Parkins subiu os degraus com toda a dignidade que lhe foi possvel.
       - Cuidarei imediatamente da bagagem de my lord. - Ele lanou um olhar aflito ao casaco do patro. - Se pudesse persuadi-lo a me acompanhar, eu o deixaria 
apresentvel num minuto.
       Brigham cruzou os braos sobre o peito e estudou-lhe o rosto plido e contrado. Por fim, disse, com um sorriso aberto:
       - Bem-vindo  Esccia, Parkins!
       Um ligeiro rubor animou as faces descoloridas de seu criado.
       - Obrigado, my lord.
       
       Jem conversava com Malcolm, completamente  vontade, quando Brigham empurrou a pesada porta de carvalho o entrou na estrebaria.
       - Ouviu certo, sr. MacGregor. Lord Ashburn tem, efetivamente, os melhores cavalos de Londres. E sou eu que cuido deles!
       - Gostaria que cuidasse tambm da minha gua, Jem. Ela vai dar cria em breve.
       - Com muito prazer, sr. MacGregor.
       - Jem!
       O rapaz virou a cabea. Quando viu seu patro parado  porta da estrebaria, endireitou-se.
       - Sim, senhor. Os cavalos estaro prontos num piscar de olhos.
       Malcolm voltou-se tambm.
       - O senhor tem belos cavalos, lorde Ashburn. Gostaria de conduzi-los.
       - Por que no? - Brigham tirou o capote de l e preparou-se para trabalhar. - Talvez, num dia desses voc queira me mostrar suas habilidades guiando minha 
carruagem.
       No havia meio mais rpido para conquistar o corao do menino.
       - Verdade? - disse ele, entusiasmado. - Sua carruagem  muito pesada, senhor. Temos uma carruagem leve, de duas rodas, mas minha me no permite que eu a 
guie sozinho.
       - Irei com voc, est bem?
       Brigham afagou-lhe os cabelos e depois virou-se para examinar seus cavalos.
       - Eles parecem em boa forma, Jem. V dar uma olhada na gua do sr. MacGregor.
       - No gostaria de v-la tambm, senhor? - disse Malcolm. - Ela  uma beleza!
       - Terei imenso prazer.
       O menino tomou-o pela mo e guiou-o atravs da estrebaria at uma das baias.
       - A est minha Betsy.
       Ao ouvir seu nome, a pequena gua castanha enfiou o focinho por entre as ripas do porto e fungou.
       -  uma lady encantadora.
       Brigham esfregou-lhe o focinho aveludado e ela o fitou com olhos calmos e interrogadores.
       - Betsy gostou do senhor! - disse Malcolm, exultante.
       Na baia, Jem examinava a gua, que permanecia quieta, suspirando ocasionalmente, quando seu ventre estremecia, ou agitando o rabo.
       - Ela ir dar cria logo - confirmou o cavalario. - Dentro de um ou dois dias, segundo meus clculos.
       - Eu queria dormir aqui, mas Serena no vai permitir - queixou-se Malcolm.
       - No se preocupe. Betsy est em boas mos agora.
       - Jem me avisar quando chegar o momento, senhor?
       - Claro! No se preocupe. - Brigham colocou a mo no ombro do menino. - No quer lev-lo at a cozinha? Ele ainda no almoou.
       - Oh, sim! A sra. Drummond ter imenso prazer em lhe preparar alguma coisa para comer. 
       - Boa tarde, lorde Ashburn
       - Brig, por favor - sugeriu ele.
       Malcolm sorriu e apertou a mo que lhe era oferecida. Ento, dirigiu-se para a porta, convidando o cavalario a segui-lo.
       - Jem - disse Brigham, antes que seu empregado sasse. - Lembre-se de que ele  jovem e impressionvel. No solte pragas nem maldies na frente dele, ou 
a culpa recair sobre mim.
       - Sim, milorde. Prometo que saberei me comportar.
       Brigham deixou-se ficar ali. Talvez porque o estbulo estivesse silencioso e os cavalos fossem boa companhia. Gostava deles e podia, se necessrio, arrear 
uma parelha to rapidamente quanto seu cavalario, ou ajudar uma gua no trabalho de parto. Em outra poca, acalentara o sonho de criar cavalos. Mas tivera de esquec-lo, 
quando herdara no s o ttulo como as responsabilidades que isso comportava.
       Porm, no era em cavalos ou nos sonhos perdidos que pensava agora. Era em Serena. E talvez porque seus pensamentos estivessem to concentrados nela, no 
ficou surpreso ao v-la entrar na estrebaria envolta numa grossa capa de l.
       Tambm ela estava imersa em pensamentos. No fizera outra coisa no decorrer da manh, seno pensar no homem que se hospedava em sua casa e comia em sua mesa. 
Por que permitira que ele a tocasse e a olhasse daquele modo? Lembrou-o de p junto  janela, a luz da manh envolvendo-o em seu brilho. Seus olhos haviam-se tornado 
to escuros...
       Sabia quando um homem a olhava com interesse. J havia sido cortejada por alguns, fora beijada e sentira-se at mesmo excitada. Porm nunca havia experimentado 
uma emoo to poderosa como a que ele lhe despertara.
       No entanto, estava disposta a resistir, a fazer valer sua independncia. Quando tivesse uma nova oportunidade de deparar-se com o arrogante conde Ashburn, 
saberia como trat-lo!
       Suspirou e olhou em torno da estrebaria mergulhada em obscuridade.
       - Malcolm, seu diabinho! Vou lev-lo para casa nem que seja  fora. Voc ainda no terminou suas tarefas!
       - Sinto muito, mas a senhorita ter que procur-lo na cozinha. - Brigham saiu das sombras, satisfeito em surpreend-la. - Acabei de mand-lo para l junto 
com meu cavalario.
       Ela fitou-o com altivez.
       - Com que direito? Ele no  seu criado!
       Brigham chegou mais perto e notou que as cores da capa, que lhe caa em amplas e graciosas pregas em torno do corpo esbelto, combinavam com o tom de seus 
cabelos.
       - Malcolm tomou-se de simpatia por Jem. Tambm ele, como seu irmo, tem um grande amor pelos cavalos.
       O corao de Serena enterneceu-se, como acontecia sempre que se tratava de Malcolm.
       - Ele no sai daqui. Tenho sempre quer vir busc-lo e lev-lo para casa  fora. - Ela fez uma pausa. - No permita que ele o perturbe.
       - Malcolm e eu nos entendemos muito bem.
       Brigham deu mais um passo a frente. Ela cheirava a lavanda, um aroma leve e casto que parecia fazer parte de sua personalidade.
       - Precisa descansar, Serena. Voc est dormindo em p.
       - Eu estou bem, obrigada. E estaria ainda melhor se o senhor no me tratasse com essa insolente familiaridade!
       - Gosto do seu nome. Serena...
       "Soa diferente nos lbios dele", pensou ela, perturbada.
       - O senhor impressionou meu irmo com seus cavalos, no foi isso?
       - Ele  um tipo mais acessvel do que a irm. 
       - O senhor no tem nada que possa impressionar-me, my lord.
       - No acha cansativo desprezar tudo o que  ingls?
       - No. Acho gratificante.
       Brigham sorriu.
       - Por que temos de discutir o tempo todo?
       Por um breve instante, o corao de Serena amoleceu, mas ela reagiu depressa, fazendo reavivar o dio que alimentava h tanto tempo. No podia perder a batalha!
       - Porque, para mim, o senhor  apenas um nobre ingls que quer tudo  sua maneira! Como pode estar preocupado com as condies de nosso povo se nada sabe 
a nosso respeito? Se ignora os atos de falsidade, opresso e tirania?
       - Sei muito mais do que pensa - disse ele, controlando-se.
       - Enquanto o senhor ficava ao abrigo de sua linda casa em Londres, ou de seu solar no campo, sonhando com os novos valores e as grandes mudanas sociais, 
ns tnhamos de lutar apenas para conservar o que era nosso! O que o senhor sabe sobre nossos anseios, ou sobre a frustrao de no sermos capazes de fazer outra 
coisa seno esperar?
       Brigham agarrou-a rudemente pelos ombros.
       - No me faa acreditar que compartilha da hostilidade que seu povo alimenta contra o meu! Voc me despreza, Serena?
       - Sim! - gritou ela com todas as suas foras.
       - Porque sou ingls?
       - No  uma boa razo para desprez-lo?
       - No! E vou dar-lhe outra melhor!
       "Para minha satisfao e para acalmar essa nsia que est me consumindo", pensou ele.
       Ela girou o corpo e tentou escapar, mas Brigham estava preparado para isso e agiu com rapidez. No momento em que lhe tomou a boca, ela cessou de lutar. Os 
lbios dela eram macios, suaves. Com um gemido, envolveu-a pela cintura, pressionando-lhe os seios contra o peito.
       Serena reconheceu a prpria vulnerabilidade. Dissera que o desprezava e o odiava, mas seus sentimentos, seu corao e seu corpo diziam coisas muito diferentes. 
Uma excitao febril a tomou de assalto, levando-a a abandonar-se contra aquele peito forte, correspondendo ao beijo apaixonadamente.
       Brigham sentiu-lhe a doura da lngua e a volpia dominou-o por completo. Encostou-a num pilar de pedra e tornou a cobrir-lhe a boca com beijos profundos 
e possessivos.
       - Bom Deus, onde voc aprendeu a beijar assim?
       "Aqui, nesse instante", quis dizer Serena. Mas a vergonha e a confuso fizeram-na calar-se. Ela permitira no s que ele a beijasse, mas correspondera aos 
seus beijos! Precisou de alguns segundos para recuperar o auto-domnio.
       - Deixe-me ir - murmurou ento, com voz fraca.
       - No sei se posso.
       Ele quis acariciar-lhe o rosto, mas, sabendo o que poderia ocorrer se fraquejasse de novo, Serena empurrou-o rudemente e cruzou os braos sobre o peito.
       - No!
       Brigham permaneceu onde estava e tentou recuperar o flego. Um momento antes, ela correspondera aos seus beijos como o faria uma cortes, versada na arte 
do amor. Mas, agora, a indignao estampada no rosto delicado o fez cair em si.
       Tentara seduzir a irm de seu amigo, a filha de seu anfitrio na estrebaria como se ela fosse uma mulher fcil!
       - Queira aceitar minhas profundas desculpas, srta. MacGregor. Meu comportamento foi imperdovel!
       Ela ergueu as plpebras, a revolta brilhando nos olhos.
       - Se fosse homem, eu o mataria!
       - Se a senhorita fosse homem, eu no teria do que me desculpar.
       Ele curvou-se cortesmente e saiu da estrebaria, esperando que o ar fresco pudesse desanuviar sua cabea.
       
       
       
     CAPTULO IV
       
       
       "Eu o teria matado!", pensou Serena. Com uma espada! No, a espada era muito limpa, muito civilizada para um verme ingls. A menos que a usasse para cort-lo 
em pedacinhos, ao invs de terminar sua vida intil com um nico golpe no corao! Ela sorriu, satisfeita, imaginando a cena. E ningum diria, ao v-la sentada no 
alto do tamborete batendo manteiga, o retrato da doura feminina, que pensamentos to terrveis pudessem ocupar-lhe a mente.
       "Ele no tinha o direito de me beijar, de se impor! E muito, menos de me fazer gostar disso!", tornou a refletir, apertando o pilo com mais fora. Miservel 
co ingls! E ela cuidara do atrevido com suas prprias mos e depois o servira  mesa. Devia, isso sim, ter-lhe arrancado os olhos e colocado nas rbitas ties 
ardentes!
       Parou um instante, sufocada. Se contasse a seu pai o que o conde Ashburn ousara fazer... Seu olhos cintilaram ao considerar essa possibilidade. Seu pai mandaria 
chicotear o patife sem piedade!
       A idia de um conde ingls, arrastando na lama a sua nobreza e a sua arrogncia, trouxe calma a seu corao e a fez sorrir novamente. Mas preferia manejar 
o chicote pessoalmente: faria o miservel ajoelhar-se a seus ps, implorando perdo!
       Recomeou a bater, pensando em como era triste que amasse a violncia. Isso preocupava sua me. Pena que no tivesse herdado a doura dela, ao invs do gnio 
indomvel do pai. Mas no podia mudar sua natureza. No havia dia em que no perdesse a calma, sofrendo, depois, as agruras da culpa e do remorso.
       Soltando um profundo suspiro, continuou sua montona tarefa. Sua me saberia exatamente como enfrentar lorde Ashburn e seus indesejveis avanos. Ela o poria 
imediatamente no seu lugar, tratando-o com distante altivez. E quando ele externasse suas intenes, o fitaria com tal indignao, que o canalha no teria outro 
remdio seno abaixar humildemente a cabea.
       Quanto a si prpria, confessava que no sabia lidar com os homens. Quando eles a aborreciam, o que acontecia com freqncia, fazia-os saber disso em linguagem 
audaciosa. "E por que no"?, pensou. No era pelo fato de ser mulher que devia comportar-se com brandura e pretender mostrar-se desvanecida, quando um homem tentava 
cortej-la com afetada galanteria!
       - Vai estragar a manteiga com esses olhares assassinos, querida - observou de repente a cozinheira.
       Serena encolheu os ombros.
       - Estava pensando nos homens, sra. Drummond.
       A cozinheira, uma mulher corpulenta, de cabelos grisalhos e cintilantes olhos azuis, soltou uma gostosa gargalhada.
       - A mulher deve ter um sorriso nos lbios, quando pensa nos homens. Um sorriso os atrai com mais facilidade.
       - No quero saber de homens  minha volta. Eu os detesto!
       A sra. Drummond terminou de abrir a massa da torta de ma e ento perguntou:
       - O jovem Rob MacGregor voltou a persegui-la? 
       - Ele no se atreveria!
       -  um belo rapaz - ponderou a mulher. 
       - Mas no  suficientemente bom para nenhuma de minhas moas. Quero que voc seja cortejada, desposada e levada para a cama por um homem de condio superior.
       - No quero ser cortejada e muito menos desposada ou levada para a cama!
       - Agora no, querida. Quando chegar a hora. - A sra. Drummond abriu um largo sorriso. -  um prazer ter um homem nos braos.
       - No quero me prender a um homem apenas pelos prazeres do leito conjugal!
       - No h motivo melhor para justificar o casamento! Mas desde que seja com o homem certo. O meu Duncan sabia cumprir seus deveres e houve noites em que eu 
adormecia grata por isso. - Ela suspirou fundo. - Que sua alma repouse em paz.
       - Ele fazia voc sentir-se... - Serena fez uma pausa  procura das palavras adequadas. - Como se estivesse galopando na direo de um abismo?
       A sra. Drummond olhou-a com desconfiana.
       - Rob no voltou mesmo a aborrec-la?
       - Com Rob,  como cavalgar colina acima num pnei cansado - disse Serena com malcia.
       Foi com essa expresso que Brigham a viu, quando entrou na cozinha. Os dedos longos cerrados em volta do pilo, as saias arregaadas e o rosto iluminado por 
um sorriso. Diabo de mulher! Por que no podia deixar de olh-la?
       Sua entrada foi silenciosa, mas Serena pressentiu-o e virou a cabea. Seus olhos encontraram-se brevemente, quase em desafio.
       Aquela troca de olhares durou apenas uma frao de segundo, mas no passou despercebida  sra. Drummond. E ela logo soube o que deixava Serena possessa de 
raiva. Ou melhor, "quem" era a causa de sua inquietao.
       "Ento  isso"?, pensou, divertida, e no pde sufocar um sorriso. Um choque de vontades... Era um bom modo de comear um namoro, e o conde Ashburn tinha 
qualidades, alm de um rosto e um corpo que faziam at seu corao de viva bater com mais fora.
       - Em que posso servi-lo, my lord?
       Brigham virou-se para ela.
       - Coll est com fome e a senhorita Gwen acha que um pouco de sopa lhe far bem.
       Ainda sorrindo, a sra. Drummond dirigiu-se para o caldeiro que estava sobre o fogo.
       - Vou mandar servi-lo imediatamente. Importa-se se eu lhe perguntar, my lord, como est meu rapaz?
       - Coll dormiu bem e est com uma aparncia melhor. A senhorita Gwen considera seu estado satisfatrio, embora acredite que ele deva guardar o leito por mais 
alguns dias.
       - Ela pode conseguir isso. Deus sabe que s ela e mais ningum consegue domar aquele rapaz!
       A sra. Drummond virou-se e surpreendeu Serena olhando para o conde atravs das plpebras semicerradas. Ficou a observ-la de soslaio, com olhos investigadores, 
e depois tornou, em tom natural:
       - Apreciaria um pouco de caldo, my lord? Ou um pedao de torta de carne?
       - Obrigado, mas estou de sada. Vou  estrebaria.
       - Isso  que  homem! - disse ela, entusiasmada, quando ele saiu.
       - Ele  um ingls - observou Serena, como se isso explicasse tudo.
       -  verdade. Mas um homem  um homem. De saiote ou de cales. E os dele assentam-lhe bem!
       Serena sufocou uma risadinha.
       - Uma mulher direita no notaria isso.
       - S se fosse cega!
       A sra. Drummond colocou a tigela de sopa numa bandeja, acrescentando, por conta prpria, um pratinho com um pedao de torta de framboesa e depois observou:
       - O criado de quarto que lorde Ashburn trouxe de Londres  um verdadeiro cavalheiro. Gostei do homem.
       Serena sorriu com desdm.
       - Imagine, trazer um criado s para cuidar das roupas dele!
       - Os nobres costumam fazer as coisas a seu modo - disse a cozinheira, pensativa. - Parece que esse Parkins no  casado.
       - Pobrezinho! Deve estar ocupado demais com as rendas de lorde Ashburn para ter sua prpria vida.
       "Pode ser que ele ainda no tenha encontrado a mulher que lhe fizesse valer isso", pensou a sra. Drummond e um ar de satisfao estampou-se nos olhos dela.
       - Acho que o sr. Parkins devia engordar um pouco.
       
       Nobreza, pensou Serena, horas depois, torcendo o nariz. Sangue azul no significava absolutamente nobreza! E tampouco fazia de um homem um cavalheiro. Um 
aristocrata, talvez, que no sentia a necessidade de justificar escrupulosamente a sua conduta.
       De qualquer modo, ela no ia desperdiar seu tempo pensando no conde Ashburn. Fazia dois dias que no punha o nariz para fora da porta de casa, ocupada com 
tarefas domsticas que haviam aumentado com a doena de Coll. E agora que dispunha de algum tempo livre, iria aproveitar para dar um passeio a cavalo. Sua me, provavelmente, 
no aprovaria que sasse quase na hora do jantar. E tambm no aprovaria o velho calo de montaria que estava usando. Mas tomaria cuidado e, com um pouco de sorte, 
ningum notaria sua sada furtiva.
       Cautelosa, levou sua montaria para o porto dos fundos da estrebaria e depois guiou-a a passo moderado na direo das colinas cobertas de liquens e urzes 
brancas. Mas no instante em que os bosques fecharam-se  sua volta, estimulou a gua, que passou do trote a um galope acelerado. Sua capa enfunava-se ao vento, o 
ar gelado chegava a doer-lhe nos pulmes, mas a sensao de liberdade superava qualquer incmodo.
       - Livre! Sou livre! - gritou, com o rosto a brilhar de contentamento, e sua voz ecoou no silncio do bosque.
       Por um instante ainda, permitiu-se saborear esse encantamento. Subitamente, outras lembranas afloraram-lhe  mente. Seu sorriso desvaneceu-se, e ela suspirou, 
sentindo-se estranhamente envergonhada de seu bem-estar. Provavelmente, teria que falar com seu confessor, como havia feito quando deixara a escola do convento, 
em Inverness.
       "Seis meses da minha vida jogados fora," lembrou. Seis meses longe da casa que amava para conviver com aquelas jovens afetadas que, estimuladas por suas famlias, 
haviam metido em suas cabeas ocas que iriam tornar-se damas!
       Fora um sacrifcio intil, no seu entender. Sua me j a havia ensinado a dirigir uma casa. E quanto s boas maneiras, no havia dama mais fina nas redondezas 
do que Fiona MacGregor. Filha nica de um grande proprietrio de terras, ela tivera uma educao refinada, aprimorada por temporadas em Paris e Londres.
       S era mesmo necessrio que soubesse comportar-se em sociedade, e s Deus sabia por qu, poderia aprender isso em sua prpria casa, onde a conversa no girava 
apenas em torno de vestidos, penteados e da ltima moda em Paris!
       Continuou a estimular a gua at aproximar-se do rio. A, ento, puxou suavemente as rdeas, para que a agitao do animal se abrandasse aos poucos, e respirou 
fundo o ar fresco e revigorante. Os raios do sol poente lanavam uma luz plida, que permanecia suspensa sobre os ramos quebrados e os troncos nodosos dos pinheiros 
e dos carvalhos. Seria agradvel sentar-se  beira da gua por alguns minutos. Se tivesse tempo, teria cavalgado at a charneca. Era seu lugar preferido, quando 
estava perturbada ou precisava coordenar as idias.
       "Hoje estou tranqila", pensou, enquanto desmontava. Queria apenas gozar de um instante de solido. Prendeu as rdeas do animal num galho de rvore e ento 
esticou sensualmente os braos. Um pensamento repentino e excitante fez seus olhos brilharem e seus lbios entreabrirem-se.
       - Lindos bailes em Londres... - murmurou, baixinho.
       Sua me lhe descrevera esses bailes. Os espelhos, o cho encerado, o brilho dos imensos candelabros. Lindos vestidos e jias cintilantes. E msica! Fechou 
os olhos, tentando fantasiar a cena e, acima dos sons murmurantes do regato, julgou ouvir trechos de um minueto.
       Os olhos ainda fechados, a mo estendida para um par invisvel, comeou a mover-se ao compasso da melodia imaginrias. Sorrindo, executou uma volta perfeita.
       Estaria usando um vestido de cetim verde e usaria os cabelos penteados para o alto e empoados, para que os brilhantes nele semeados cintilassem como gelo 
sobre a neve. Todos os homens presentes ficariam encantados. Danaria com todos, girando, parando e curvando-se em profundas e graciosas mesuras.
       Ele estaria l, vestido de negro e prata, como na noite em que permanecera  cabeceira de Coll, misterioso e sedutor como nunca,  luz da nica vela e do 
claro da lareira. No baile, as luzes seriam cegantes e incidiriam sobre os botes de seu traje e as fivelas de seus sapatos.
       Enquanto a msica flutuava no ar, olhariam um para o outro. Ele sorriria, fazendo seu corao disparar, e lhe estenderia a mo, que se uniria  dela, palma 
contra palma. E ento...
       Sentiu que algum lhe prendia a mo e abriu os olhos, ainda abismados no sonho. Ele estava de negro, como imaginara, mas era um simples traje de montaria, 
sem enfeites prateados ou o brilho das jias.
       - Senhora... - Sorrindo levou-lhe a mo aos lbios. - Parece que est sem par.
       - Eu estava... - Serena puxou a mo e escondeu-a atrs das costas. - O que est fazendo aqui?
       - Estava pescando com Malcolm at h poucos instantes. Ele quis voltar para dar uma espiada em Betsy.
       O rosto dela ardeu de vergonha, ao lembrar-se que devia ter parecido to ridcula como uma adolescente com a cabea cheia de sonhos romnticos, danando um 
minueto sem par!
       - Malcolm no devia ter vindo aqui. Ele tem muito o que fazer l em casa.
       - Ele me assegurou que fez tudo pela manh. Brigham sentou-se numa rocha e estudou-a atentamente.
       - Posso perguntar se costuma danar sozinha nos bosques... E de calo?
       Os olhos de Serena chamejaram.
       - O senhor no tinha o direito de ficar me espiando!
       - Eu estava sentado  margem do riacho, pensando nas trutas que iria pescar, quando vi algum chegar velozmente pelo bosque, assustando meus peixes. Fiquei 
curioso, como era natural.
       - Se soubesse que o senhor estava aqui, teria tomado outro caminho!
       - Seria uma pena. No teria o privilgio de v-la de calo.
       Em resposta, Serena virou-lhe as costas e deu dois passos na direo do cavalo.
       - Para que tanta pressa? Est com medo de mim?
       Ela voltou-se, um lampejo sbito iluminando-lhe o rosto.
       - No tenho medo de ningum!
       Brigham olhou-a com admirao. Encantadora! No havia outra palavra para descrevla. Seus olhos pareciam duas gemas e seus cabelos, que lhe caam pelos ombros, 
uma cascata de fogo. Alm do mais, conduzira o cavalo pela floresta intrincada com uma facilidade que revelava destreza no manejo do animal. No podia negar sua 
coragem e seu estilo.
       Nem negar que sua aparncia o perturbava. O calo de montaria realava com discreta sensualidade as linhas perfeitas do corpo e a blusa justa, enfiada no 
cs, quase revelava a curva dos seios ofegantes.
       - Talvez voc devesse ter medo - murmurou. - Neste momento, estou experimentando toda sorte de intenes desonestas.
       Serena sentiu um arrepio sbito percorrer-lhe a espinha, mas simulou indiferena.
       - O senhor no me assusta, lorde Ashburn. J enfrentei situaes piores!
       - Posso imaginar!
       Ele levantou-se e caminhou para ela, silencioso e ameaador.
       - Mas voc ainda no teve que se haver comigo. Duvido que consiga me dominar a tapas, como fez com os outros.
       - Farei pior do que isso, se o senhor tocar um s fio de meus cabelos!
       - Qual  o motivo dessa averso? Eu j me desculpei pelo que aconteceu na estrebaria.
       - Oh! O que aconteceu na estrebaria? No me lembro!
       Brighan chegou mais perto.
       - Nesse caso, deixe-me refrescar sua memria. Eu estava com uma mulher nos braos. No uma jovem tmida e inexperiente, mas uma mulher reclamando seu natural 
direito ao prazer.
       - Como se atreve? - explodiu ela. - Um cavalheiro no falaria comigo desse modo!
       - Talvez no. Mas uma dama no usaria calo.        
       Serena mordeu os lbios. A acusao se aproximava muito da verdade. Ela no era uma dama e jamais o seria, apesar de todos os seus esforos.
       - Seja como for, no permito que me insulte!
       - No permite, mas no faz outra coisa seno cobrir-me de injrias pelo fato de eu ser ingls e nobre!
       Deixando de lado todas as precaues, ele a agarrou pelos ombros.
       - A ironia de tudo isso  que voc se veste como um homem, fala como um homem, mas quando lhe convm, alega sua condio de mulher para exigir respeito!
       - No estou exigindo nada!
       Ela jogou a cabea para trs, parecendo uma jovem leoa, no ardor da argumentao.
       - Se eu o insultei foi porque o senhor mereceu. Vamos nos entender, lorde Ashburn. O senhor pode encantar minha famlia, mas a mim  que no engana!
       - Essa  a menor de minhas preocupaes! - murmurou Brigham por entre os dentes.
       - Parece que suas preocupaes dizem respeito apenas s rendas de seus trajes e ao brilho de suas botas! O senhor chegou em minha casa dizendo-se preocupado 
com a sorte da Esccia, mas at agora no fez coisa alguma por ns.
       - Esse  problema meu!
       - E meu tambm. H a um engano, e  isso que quero que me explique!
       - Nada tenho a discutir com voc, Serena.
       - Pelo visto, o senhor no pode mudar nada. Nada do que aconteceu antes, nada do que est ainda por vir!
       Brigham apertou-lhe o brao com mais fora.
       - No posso revelar nossos planos, mas vou lhe dizer uma coisa: quando chegar a hora, haver uma grande mudana.
       - E quem ir se beneficiar com isso?
       Ele a puxou rudemente para si.
       - O que est querendo insinuar?
       - No acredito que o senhor, ou outro nobre ingls, se interesse realmente pelo destino da Esccia. O que est fazendo aqui, lorde Ashburn? Vendo de que lado 
sopra o vento?
       Um lampejo de ira brilhou nos olhos dele.
       - Desta vez, voc foi longe demais!
       Ela estremeceu, mas no resistiu ao desejo de desafi-lo.
       - J que no quer me explicar por que motivo abraou nossa causa, eu estou livre para pensar o que quiser!
       - Pode "pensar" o que quiser, mas deve ter mais cuidado com suas palavras.
       Serena nunca o vira to zangado. No sabia que seus olhos podiam arder como duas brasas, ou que sua fisionomia pudesse endurecer-se tanto, a ponto de parecer 
esculpida em granito!
       - O que vai fazer? Atravessar-me o corao com uma espada?
       - No seria justo, voc est desarmada. Mas no nego que sinto uma vontade irresistvel de estrangul-la.
       Sem deixar de fit-la, ele envolveu-lhe o pescoo com as duas mos.
       - Voc tm um pescoo macio, Serena. Flexvel, fcil de ser partido.
       Ela arregalou os olhos e prendeu a respirao. Depois, num gesto instintivo de defesa, ps-se a esmurr-lo no peito com os punhos cerrados.
       - Solte-me!
       - Solto quando bem entender. Na estrebaria, voc no protestou quando...
       Inadvertidamente, as mos de Brigham roaram os seios dela, um contato que surpreendeu a ambos e intensificou a luta.
       - Vbora! - explodiu ele, quando recebeu um chute na canela que o fez perder o equilbrio.
       Abraados como dois amantes, rolaram sobre uma cama de agulhas de pinheiros e de folhas secas. Serena lutava como um gato selvagem e proferia improprios 
em galico. Estava assustada com a estranha reao de seu corpo. Odiava-o, porm, se ele a tocasse novamente, iria perder o autocontrole.
       O amargo reconhecimento de sua prpria vulnerabilidade a estimulou a lutar com mais ardor. Mas quando seus corpos se colaram, uma onda de calor invadiu seu 
corpo. Os msculos de seus quadris relaxaram e, por um instante, sua viso enevoou-se.
       Brigham no perdeu tempo. Agarrou-a pelos pulsos com uma nica mo e ergueu-lhe os braos acima da cabea. O rosto dela estava rosado pelo esforo e os cabelos, 
entremeados de folhas secas, caam-lhe pelas costas como fios de ouro.
       Quis falar com calma, mas ela tornou a esforar-se para escapar, e seus movimentos bruscos, sua respirao ofegante, ameaaram descontrol-lo uma vez mais.
       - Serena, pelo amor de Deus... Tenho sangue nas veias. Se continuar a debater-se, logo ir descobrir isso!
       - Largue-me - murmurou ela, arquejante.
       - Ainda no. Voc acabaria comigo.
       - Ah! Se eu tivesse um punhal...
       Brigham recobrou o flego e ps-se a olh-la.
       - Meu Deus, como voc  linda! Isso me d vontade de provoc-la sempre!
       Com a mo livre, seguiu-lhe o contorno dos lbios.
       - Simplesmente tentadores...
       Serena fez um esforo supremo e conseguiu virar o rosto, evitando o beijo. Mas quando ele comeou a acariciar-lhe o pescoo com os lbios, um gemido escapou 
de sua garganta. Num movimento instintivo, ela ergueu os quadris, ansiando por um contato mais ntimo.
       O corpo retesado num momento, flexvel e macio no outro, era uma tentao. Brigham cobriu-o com o dele e, suavemente, correu as mos pelas curvas delicadas. 
Depois, ps-se a passear a boca pelo rosto ardente. Mordiscou-lhe a orelha, desceu os lbios ao longo do queixo, e ento, lentamente, tomou-lhe os lbios entreabertos.
       Sentiu-lhe o hlito fresco, enquanto sua lngua penetrava a boca quente e adocicada. Teria ainda de lhe ensinar muita coisa. Ela no devia saber que, do contato 
de mos, bocas e corpos se desencadeava uma infinidade de sensaes deliciosas.
       Ansioso para que ela encontrasse o prazer, tocou-a em pontos sensveis, despertando-lhe desejos e deleites que at ento haviam sido ignorados.
       Serena fechou os olhos e aspirou o aroma almiscarado da pele de Brigham, flutuando num mundo sem idias, insuportavelmente excitante. Sentiu o leve fluxo 
e refluxo da respirao dele contra seus cabelos, experimentou a doce sensao de dedos gentis acariciando-lhe as faces, e depois a percepo desses mesmos dedos 
descobrindo a curva suave de seus seios.
       - Brigham... - murmurou, com voz entrecortada pela emoo.
       Incapaz de resistir, ele massageou os seios at sentir os bicos rgidos sob seus dedos. Ansiava por tom-los em sua boca para experimentar-lhes o sabor. Em 
vez disso, porm, cobriu-lhe a boca quase brutalmente, deixando, apenas por um momento, prevalecer seus impulsos.
       Serena estremeceu quando a paixo substituiu o langor, e uma sensao quase insuportvel de prazer a dominou. Mas no se rendeu e, tremendo, comeou a lutar 
contra ele, contra si mesma.
       - No. No faa isso - murmurou, agitando-se entre os braos que a enlaavam.
       Diante de suas queixas abafadas, Brigham ergueu a cabea. Nos olhos verdes havia medo e confuso, no s desejo. Endireitou-se e soltou-a bruscamente, e depois 
esperou at recuperar o prprio autocontrole.
       - No tenho desculpas - disse por fim. - Exceto que eu a desejo. E s Deus sabe por qu.
       Serena tinha vontade de chorar. Queria que ele a tomasse nos braos e a beijasse. Mas gentilmente, como fizera a princpio.
       - S os animais deixam prevalecer seus instintos, my lord!
       - Muito bem dito - murmurou ele, sabendo exatamente como ela se sentia. - Mas h alguma coisa em voc, Serena, que excita minhas emoes primitivas. Eu lhe 
asseguro, porm, que saberei control-las no futuro.
       Ela inclinou levemente a cabea. 
       -  o que eu espero.
       Depois, levantou-se e alisou as roupas. Enquanto recolhia as rdeas de sua montaria, sentiu a mo dele em seus cabelos e retesou-se.
       - Por favor, no!
       - H folhas em seus cabelos - murmurou Brigham, lutando contra o desejo de atra-la para si.
       - No tem importncia.
       - Eu a magoei?
       Ele disse isso com tanta suavidade, que a raiva de Serena quase desapareceu. E teve que lutar consigo mesma, para que sua resposta fosse seca e sua voz impassvel.
       - No me dobro facilmente, my lord.
       Recusando a mo que lhe era oferecida, ela lanou-se sobre a sela, apertou os flancos do cavalo com os calcanhares e partiu a toda brida.
       
       
       
     CAPTULO V
       
       
       - O que espera que eu faa?
       - Que fique preso a este leito, como um entrevado, enquanto voc e meu pai saem em campanha pelo prncipe?
       - Por que no? - disse Brigham.
       - Esquea-se disso!
       Coll levantou-se cambaleante da cama e ficou longo tempo parado, como se no estivesse seguro de habitar seu prprio corpo. Sua cabea girava e ele teve que 
se apoiar a uma das colunas para arrancar a camisola de dormir.
       - Onde esto as minhas roupas?
       - Como posso saber?
       - No sabe onde foram guardadas?
       - Sinto muito, mas no sei. - A voz de Brigham suavizou-se. - Vou lev-lo de volta para a cama, antes que desmaie.
       - Ainda vai chegar o dia em que ver um MacGregor perder os sentidos!
       - J aconteceu uma vez, lembra-se?
       Coll soltou uma torrente de pragas e, com esforo, caminhou at a arca das roupas.
       - Sei como se sente, meu amigo.  difcil permanecer impassvel, enquanto outros se movimentam ao nosso redor. Mas voc no est ainda em condies de suportar 
a viagem.
       - Pois eu lhe digo que estou.
       - Gwen afirma que no.
       - Que direito tem aquela garota de controlar minha vida?
       - O direito de quem o salvou.
       Coll passou a mo pela barba, que deixara crescer, e permaneceu mudo.
       - Seria uma pena ver todo o trabalho dela perdido s porque voc  orgulhoso demais para guardar o leito, at se restabelecer.
       - Maldito seja o Campbell que me impossibilitou de sair com meu pai para convocar os chefes dos cls! Estou ansioso para participar dos debates, Brig!
       - Haver tempo para isso, Coll. Estamos apenas no comeo da campanha.
       Brigham sorriu aliviado, ao perceber que a clera de seu amigo estava esfriando, e j conseguia raciocinar com clareza. Quanto ao gnio, era muito parecido 
com a irm. Pena que Serena no se acalmasse com a mesma rapidez!
       - Quero lembr-lo de que o objetivo de nossa sada  uma inocente caada na floresta.  isso, pelo menos, que queremos que os outros acreditem.
       - Compreendo. Coll sabia que no estava suficientemente forte para viajar rumo ao oeste. E, se insistisse nesse propsito, iria retardar seus companheiros.
       - Iro se encontrar com os MacDonald e os Cameron?
       - Acredito que sim. Os Drummond e os Fergusson se faro representar por seus emissrios.
       - No deixem de falar com o Camerom de Lochiel. Ele foi sempre fiel aos Stuart. E suas opinies so ouvidas e respeitadas por toda a comunidade.
       Coll correu os dedos pela farta cabeleira acobreada.
       - Com todos os diabos! Eu devia estar l, com meu pai, para mostrar a todos que estou do lado do prncipe!
       - Ningum ir duvidar disso - comeou Brigham, mas interrompeu-se quando Gwen entrou com a bandeja da refeio matinal.
       - Espero que no tenha feito arrebentar nenhum ponto - disse ela, inclinando-se para olhar o ferimento do irmo.
       Coll panhou rapidamente o lenol e cobriu-se.
       - Tenha um pouco mais de respeito, menina!
       Com um sorriso gentil, ela colocou a bandeja na mesa e depois virou-se para Brigham.
       - Bom dia, Brig.
       - Brig, hein? - murmurou Coll, olhando um e outro com olhos indagadores. - Parece que vocs dois se tornaram bastante ntimos!
       - Dispensamos todas as formalidades, enquanto estvamos  sua cabeceira.
       Brigham vestiu o capote e depois fez um gesto rpido na direo da cama.
       - Parece que seu paciente vai lhe dar um pouco de trabalho, Gwen. Ele est fora de si.
       - Coll no me d trabalho algum - respondeu ela, suavemente, enquanto afofava os travesseiros. - Venha, querido. Voc se sentir melhor depois de ter tomado 
sua refeio. Mais tarde se quiser dar um passeio pelo jardim, eu o acompanharei.
       Brigham sufocou uma risada. O pequeno anjo de Coll no tinha o domnio e altivez de sua irm mais velha, mas sabia fazer-se obedecer.
       - Voc est em boas mos. Agora posso ir embora.
       - Brig...
       Ele colocou as mos nos ombros do amigo. - Estarei de volta dentro de uma semana. Muito fraco para discutir, Coll disse apenas: 
       - Que Deus o acompanhe.
       Brigham abriu a porta e saiu para o corredor. Mas parou bruscamente ao ver Parkins  sua espera com um saco de viagem na mo. 
       - Resolveu voltar para a Inglaterra, Parkins? 
       - Pelo contrrio, my lord. Pretendo acompanh-lo em sua caada.
       - Que eu seja danado se vou permitir isso! - exclamou Brigham, com sbita ira na voz.
       Um pequeno tremor no canto da boca de Parkins foi a nica indicao de seu nervosismo.
       - Eu o acompanharei, senhor.
       - No seja teimoso, homem! Se precisasse levar algum comigo, levaria Jem. Ele, ao menos, sabe cuidar dos cavalos.
       Parkins manteve-se firme.
       - Estou convencido de que lorde Ashbun ir precisar de meus servios.
       - E eu estou convencido do contrrio! explodiu Brigham, passando por ele e dirigindo-se para a escada. 
       - Pode ir, agora.
       Seu criado no deu sinal algum de retirar-se.
       - Vou acompanh-lo, my lord.
       Lentamente, quase certo de no ter compreendido, Brigham voltou-se para ele. Sua atitude era respeitosa, mas despida de qualquer sombra de receio ou servilismo.
       - Voc est intimado a ficar aqui! - ordenou-lhe, com fria preciso.
       - Lamento profundamente contrari-lo, senhor - respondeu Parkins com voz grave. - Mas tenho conscincia de que meus servios sero necessrios.
       - Estou com uma vaga idia de despedi-lo, sabia?
       - Essa  uma prerrogativa de V. Excia. Mas eu irei assim mesmo.
       - Pois ento v! - Brigham virou-se, exasperado, e ps-se a descer a escada. 
       - Mas v por sua prpria conta. E no se preocupe com minhas botas ou minhas roupas!
       Plenamente satisfeito, Parkins sorriu. 
       - Sim, my lord.
       Brigham saiu resmungando para a estrebaria. O dia comeara mal. J havia travado duas discusses! Enfiou o grosso casaco, pensando que seria um alvio montar 
seu cavalo preferido e cavalgar para longe dali. Enquanto caminhava, lanou um olhar a uma das janelas do solar. "Longe dela", quase emendou com raiva.
       Depois daquela tarde, Serena passara a evit-lo, mal lhe dirigindo algumas palavras secas e pedantes  hora do jantar. No esperava tamanha frieza. Afinal, 
ela era a nica culpada! Atacara-o verbalmente e depois atracara-se com ele num corpo a corpo to ardente, que a situao escapara ao seu controle. A necessidade 
de quebrar-lhe a resistncia convertera-se numa obsesso. E a custo controlara a nsia de arrancar-lhe as roupas e apossar-se dela de corpo e alma.
       Ela zombava dele, provocava-o, censuravao... fascinava-o. Que fosse para o inferno!
       Chutou uma pedra e desejou poder descartar-se de Serena com a mesma facilidade. Seria timo passar uma semana longe dela. Quando voltasse, aquela loucura 
teria passado. Ento, ele a trataria com o respeito devido  irm de seu melhor amigo, mas com total desinteresse.
       No pensaria, em hiptese alguma, no modo como aquele corpo encantador reagira s suas carcias, nem lembraria o gosto daqueles lbios sfregos e macios ao 
calor de seus beijos. E preferia ser consumido lentamente nas chamas do inferno, a recordar com que doura ela dissera seu nome no instante da paixo. No, mil vezes 
no! Poderia at mat-la, se ela atravessasse novamente seu caminho.
       Ainda zangado, chegou  estrebaria. Antes que pusesse a mo na aldrava, a porta abriu-se e Serena emergiu do interior. Estava plida, com os olhos pisados 
e o corpete do vestido manchado de sangue.
       - Serena, meu amor, voc est ferida... - Segurou-a pelos ombros e puxou-a contra si. - Quem lhe fez isto?
       - O qu?
       Cansada e tensa, ela se deixou abraar e apoiou a cabea no peito dele.
       - Brig... Lorde Ashburn...
       Era difcil at pensar, quando ele a mantinha aninhada em seus braos.
       - Onde est o infame que a magoou? - perguntou Brigham, desembainhando subitamente a espada.
       Serena olhou-o com assombro.
       - A quem quer matar? E por qu?
       - Por qu? - Ele a fitou transtornado. - Voc est coberta de sangue e ainda pergunta por qu?
       Confusa, ela olhou para o prprio vestido. Depois explicou:
       - Jem e eu estivemos trabalhando a noite toda no parto de Betsy. Ela teve gmeos, e o segundo potrinho no vinha  luz to facilmente quanto o primeiro.
       - Oh...
       - O senhor no est se sentindo bem?
       Brigham deu um passo para trs.
       - Eu estou muito bem! E peo-lhe que me perdoe. No sabia a razo desse sangue em seu vestido.
       Por um instante Serena ficou sem saber o que dizer. Ele havia erguido a espada como se estivesse disposto a enfrentar um exrcito por ela. E a chamara de 
"meu amor"... Mas quando conseguiu abrir a boca, as palavras saram formais, inadequadas:
       - Preciso mudar de roupa.
       Sentindo-se um perfeito tolo, Brigham procurou mascarar sua confuso.
       - A gua e as crias esto passando bem?
       - Sim, muito bem.
       Serena tornou a olhar para o vestido e, de repente, sentiu vontade de rir. No deixava de ser engraado: Lorde Ashburn empunhando a espada, como um anjo vingador, 
para defend-la de um inimigo imaginrio!
       - Chame a isso um acidente, se quiser - disse, sem conseguir conter um riso nervoso.
       - Meu engano a diverte, senhora? - A voz dele soou fria e rspida.
       Ela suspirou.
       - Desculpe se o ofendi. Mas estou muito cansada.
       Ele fez meno de abrir a porta.
       - No quero prend-la mais.
       "No pode deix-lo ir embora zangado", desafiou-a sua conscincia. "No  justo!"
       - My lord.
       Ele virou-se, o olhar glido, a expresso indecifrvel.
       - Sim?
       As palavras custavam a vir-lhe aos lbios. No podia despedir-se dele com um simples voto de boa viagem. Outro qualquer teria se contentado com isso: mas 
no aquele ingls indomvel e altivo!
       - O senhor vai partir com meu pai e os homens da aldeia?
       - Vou.
       - Desejo-lhe boa sorte... na caada.
       Brigham ergueu as sobrancelhas. Ela tambm sabia. Mas no era to surpreendente assim, tratando-se de uma MacGregor!
       - Obrigada, senhora!
       Ela o fitou com intensidade antes de acrescentar:
       - Eu daria tudo para acompanh-lo!
       Antes que ele pudesse refazer-se da surpresa, Serena recolheu as saias e saiu correndo.
       Ele ficou parado  porta, vendo-a descer apressadamente para a casa. Era a mais terrvel das ironias: estava apaixonado por ela! Acompanhou-a com os olhos 
e suspirou fundo. Estava apaixonado por uma mulher que preferia lhe enfiar uma adaga no corao antes de entregar-lhe o seu!
       
       A jornada constituiu-se numa longa e difcil cavalgada por campos desolados, convertidos em duro gelo. O vento varria a sua superfcie, deixando expostas 
rochas nuas e arestas congeladas que se assemelhavam s guas crespas de um lago branco. No horizonte, picos cinzentos e fragas escarpadas emergiam sob o peso da 
neve.
       Cavalgaram durante horas sem ver uma nica choupana. Por fim, aps atravessarem uma ponte arruinada, avistaram uma aldeia construda na encosta de um monte. 
A chegada de um grupo de cavaleiros era um acontecimento raro naquelas paragens, e todos saram s portas de suas casas para cumpriment-los e ouvir as ltimas notcias.
       Era uma Esccia agreste, freqentemente estril, mas onde a hospitalidade imperava em toda a sua amplitude. Ao meio-dia, fizeram uma parada e foram convidados 
para almoar na cabana de turfa de um pastor. Havia uma sopa grossa feita de cevada, batatas e trigo, po zimo, morcela e cerveja. Todos fizeram honra  mesa, sabendo 
que a refeio simples constitua um festim naquelas colinas solitrias.
       - Receio que privamos o pastor e sua famlia de seu estoque de alimentos - observou Brigham, quando de novo mergulharam na desolao que reinava fora, rumando 
para o oeste.
       - O proprietrio das terras onde trabalham providenciar para que no lhes faltem nada. Essa  a lei dos cls - tranqilizou-o Ian MacGregor.
       Ele cavalgava ereto na sela e parecia infatigvel.
       - Homens como esse proprietrio acham que o prncipe Charles far a Esccia prosperar.
       - E os Cameron?
       - So tambm valentes e devotados  causa. Quando os encontrar em Glenfinnan, poder julg-los por si mesmo.
       - Os jacobitas necessitaro de bons soldados e tambm de bons generais. A rebelio s ser bem-sucedida se o prncipe cercar-se de conselheiros sbios.
       Ian lanou-lhe um olhar penetrante.
       - Voc traduziu os verdadeiros motivos de meus receios.
       Brigham olhou em torno. O solo rochoso era um campo de batalha perfeito. Os homens que integravam a comitiva, e os que ali viviam, deviam conhecer suas vantagens 
e seus pontos fracos.
       - Se travarmos batalha aqui, venceremos. E a Bretanha ser unificada.
       - E o maior desejo ver um Stuart no trono da Inglaterra - afirmou Ian. - Mas j vi outras guerras acontecerem. Em 1715 e em 1719. E vi extinguirem-se todas 
as esperanas de liberdade. No sou to velho assim para que meu sangue no se aquea  idia de lutar,  esperana de consertar os velhos erros. Mas esta ser minha 
ltima batalha.
       - Voc viver para ver outras, Ian.
       - Esta ser a ltima - tornou ele a dizer. - No para mim, mas para todos ns.
       Enquanto se aproximavam de Glenfinnan, uma rude mas imponente fortaleza, a neve comeou a descer em rajadas enceguecedoras dos altos dos picos situados a 
oeste, e o vento a soprar com fria sobre as guas revoltas do lago. A msica da gaita de fole, quebrando o silncio do cu pesado, coberto de nuvens plmbeas, anunciou 
a chegada da comitiva. E, enquanto flocos de neve molhada caam a seu redor, Brigham compreendeu por que um homem podia chorar seus mortos ou lutar ao som daquelas 
notas.
       Uma vez dentro do castelo, os criados se encarregaram da bagagem e cuidaram para que os fogos fossem alimentados. Quando o usque comeou a circular livremente, 
Donald MacDonald proferiu a saudao habitual, erguendo a taa  altura da cabea.
       - Bem-vindo a Glenfinnan, senhores. A sua sade, Ian MacGregor.
       Ian bebeu, os olhos aprovando a excelncia do usque de seu anfitrio. 
       - E  sua, Donald.
       Preenchida essa formalidade inicial, MacDonald voltou-se para Brigham.
       - Lorde Ashburn, meu velho amigo deixou-o  vontade?
       - Inteiramente, obrigado.
       - Ento o senhor  filho de Mary MacDonald, de Sleatin Skye?
       - Neto, my lord.
       - Eu me lembro de sua av, embora fosse apenas um menino naquela poca. Era uma linda moa. Foi ela que o criou?
       - Sim, depois que meus pais morreram. Eu tinha dez anos ento.
       - Parece que ela fez um bom trabalho. - MacDonald sorriu. - A ceia ser servida logo.
       - E os outros chefes? - perguntou Ian, olhando  sua volta.
       - Chegaro amanh?
       Um leve rudo de passos no corredor fez MacDonald voltar a cabea. Ento abriu um sorriso.
       - Ah! A est minha Margaret. Lembra-se dela, Ian?
       Brigham virou-se para a porta e viu uma jovem de compleio mida e cabelos escuros, vestindo um traje formal de veludo azul-escuro, que combinava perfeitamente 
com a cor de seus olhos. Ela inclinou-se numa reverncia e depois adiantou-se para Ian com as mos estendidas e um sorriso que abriu covinhas em suas faces delicadas.
       - Aqui est nossa moa!
       Ele beijou-a em ambas as faces e depois recuou para admir-la.
       - Voc cresceu, Maggie.
       - Faz dois anos que no nos vemos - disse ela com voz suave.
       - Sua filha  o retrato da me, Donald. No puxou a voc, graas ao Senhor!
       Havia orgulho na voz de MacDonald, quando ele disse:
       - Lorde Ashburn, permita que lhe apresente minha filha Margaret.
       Maggie fez outra reverncia e estendeu os dedos para Brigham.
       - My lord.
       - Srta. MacDonald...  um prazer ver um lrio-do-vale nestas rudes paragens. 
       Ela deu uma risadinha.
       - Obrigada, my lord. O senhor  grande amigo de Coll, no?
       - Sou, sim.
       - Pensei... - Os olhos dela voltaram-se para Ian. Seu filho no o acompanhou, lorde MacGregor?
       - No por vontade dele, Maggie. - Ele sorriu, paternal. 
       - H alguns anos eu era o tio Ian, lembra-se?
       Ela ergueu-se na ponta dos ps e beijou-lhe o rosto barbudo.
       - Para mim, o senhor ser sempre o tio Ian. 
       MacGregor afagou-lhe os cabelos e depois voltou-se para o seu anfitrio.
       - Coll e Brigham tiveram alguns problemas durante a viagem de Londres para c.
       - Vai ter que contar isso, Ian.
       Houve um tremor na voz de Maggie, que revelava mais do que ela teria desejado manifestar, quando perguntou:
       - Ele foi ferido?
       - J est convalescendo, querida. Mas Gwen achou que ele no estava ainda suficientemente forte para viajar.
       - Diga o que aconteceu, por favor! MacDonald sorriu para a filha.
       - Mais tarde, querida. Agora, faa com que um criado acompanhe nossos hspedes a seus quartos. Podero lavar-se e descansar um pouco antes do jantar.
       - Oh! Desculpe-me. Eu mesma lhes mostrarei o caminho.
       Graciosamente, ela recolheu as saias e guiou os visitantes pela escada em caracol. No corredor, ela estacou.
       - O jantar ser servido dentro de uma hora, se lhes convm.
       - Nada me conviria mais - disse Ian, afagando-lhe a mo. - Voc se tornou uma linda moa, Maggie. Sua me sentiria orgulho de voc. Ela o fitou com olhos 
angustiados. 
       - Tio Ian... Coll foi seriamente ferido? Ele sorriu.
       - Coll est se restabelecendo bem. No se preocupe.
       Jantaram com elegncia, sentados ao redor de uma grande mesa de carvalho, em cujo centro havia ostras enormes, salmo preparado de diversos modos, como tambm 
pato assado, aves midas regadas com molho de groselha e quartos de carneiro, acompanhados de um clarete precioso. Para finalizar, foram servidos pastis recheados 
com uvas passas, mas e amndoas, tortas, pras cozidas, confeitos.
       Maggie executava seus deveres de dona de casa com graa e competncia. Quando ela deixou a mesa, a fim de que os homens saboreassem sozinhos o porto, havia 
encantado a todos, de Ian a seu mais humilde dependente.
       A conversa girou ento sobre poltica. Enquanto os criados traziam velas e alimentavam o fogo, debateram e dissecaram as intenes do rei Lus, discutiram 
o apoio a ser dado aos jacobitas e ao prncipe Charles.
       Ali, naquela imponente sala de jantar de um castelo da Alta Esccia, havia o consenso geral de sustentar incondicionalmente o belo prncipe, acreditando que 
 gloria que ele conquistaria com seus feitos de armas se somaria a glria de um governo bem conduzido.
       Falou-se muito e era tarde quando Brigham recolheu-se a seu quarto. O fogo ardia na lareira, as pesadas cortinas abafavam os rudos exteriores. Deitado em 
sua cama, ouvindo o vento esquadrinhar os postigos das janelas, seus pensamentos, indisciplinados, voltaram-se outra vez para Serena.
       Estaria ela repousando tranqilamente, ou acordada, como ele, a mente em turbilho, o corpo tenso, a sexualidade alimentada pelas chamas do fogo noturno lutando 
para libertar-se?
       Que estranho fascnio o atraa para aquela mulher que o detestava tanto, quando havia outras mais lindas, indiscutivelmente mais doces e submissas, que o 
divertiriam na cama ou fora dela, sem se importar se ele era um lorde ingls ou um campnio francs?
       Mas por que nenhuma delas o fizera perder o sono, mergulhando-o em doces vises de mos brancas e esguias, de cabelos cor de fogo, macios como seda? Por que 
nenhuma delas o fizera inflamar-se  lembrana de um nome, de um rosto, de um bater de plpebras?
       No entanto, no havia nada comum entre eles, a no ser lealdade a uma casa real deposta. E no havia certamente motivo ou lgica para que um homem de sua 
posio entregasse o corao a uma mulher que encontrava prazer em humilh-lo!
       Mas ele a amava. E dava mais valor a esse sentimento do que  sua conscincia ou  causa jacobita!
       
       Esse pensamento o perseguiu em seu sono leve e, quando despertou, nas horas frias da madrugada, ainda o assaltava.
       J estava de p, quando os portes escancararam-se para dar passagem aos Cameron, seguidos dos MacDonald das ilhas do oeste, dos Mackintosh, dos Drummond 
e dos outros MacGregor de distritos remotos. Por volta do meio-dia, o hall transbordava de gente. A reunio tomou ares de celebrao, quando as gaitas de fole comearam 
a tocar, acompanhando as canes, as rodadas de usque, as conversas e os risos.
       Os convidados haviam trazido presentes: veados, lebres e gamos caados durante a jornada, que foram servidos ao jantar. Dessa vez, a grande sala, iluminada 
por quatro candelabros de prata, abrigava um grupo numeroso e variado: chefes de cls de nobre estirpe ou seus representantes, ricos proprietrios de terra acompanhados 
de seus filhos, rendeiros e agricultores.
       A mesa rangia ao peso das iguarias. A cabeceira, havia carne de porco, carne de veado, aves, cabritos e lebres, acompanhados de tortas, de po, compotas de 
mel e frutas, e de um fino clarete. Na parte inferior, imensas terrinas de carne temperada, tigelas de piro grosso enriquecido com folhas de couve e fatias de suculento 
toucinho, acompanhadas de cerveja. A comida era abundante e ningum parecia ofendido com a distino.
       Terminado o longo festim, ergueram-se brindes. Bebeu-se  sade do verdadeiro rei, do Prncipe Galante, de cada chefe de cl, suas esposas e filhos, dos proprietrios 
de terras, at as garrafas ficarem vazias.
       Quando, como um s homem, os convivas erguiam suas taas ao rei de alm-mar, suas aclamaes eram indubitavelmente sinceras. Mas, enquanto a conversa girava 
em torno dos Stuart e  possibilidade de guerra, Brigham descobriu que nem todos os presentes eram do mesmo parecer.
       Havia alguns, de temperamento mais exaltado, que desejavam marchar sobre Edimburgo imediatamente, com as espadas erguidas e as gaitas tocando hinos guerreiros. 
Velhos ressentimentos vieram  tona, e o veneno destilou das chagas reabertas. Banimentos, execues, casas queimadas, propriedades confiscadas, famlias inteiras 
enviadas aos campos, em amarga servido. Era algo que no podiam perdoar nem esquecer.
       Em contrapartida, havia outros pouco inclinados a colocar suas vidas e suas propriedades nas mos de um prncipe inexperiente. Eles j tinham participado 
de uma guerra e, tendo visto cair por terra seus homens e seus sonhos, mostravam-se cticos.
       Cameron de Lochiel, chefe efetivo de seu cl enquanto seu pai permanecesse no exlio, hipotecava seu corao ao prncipe, mas com reservas.
       - Se lutarmos sem o apoio das tropas francesas, os ingleses levaro a melhor. Seremos obrigados a recuar e a nos refugiar nas colinas e nas cavernas. Os Cameron 
so leais ao verdadeiro rei, mas os cls no podem enfrentar sozinhos as bem treinadas e bem armadas foras do governo. E uma derrota agora quebraria a espinha dorsal 
da Esccia.
       - Que sugere ento? - James MacGregor bateu com o punho na mesa. - Que fiquemos sentados junto ao fogo com as nossas espadas embainhadas, envelhecendo enquanto 
esperamos por uma desforra?
       - Espada embainhada no pode ser quebrada - retrucou Lochiel calmamente.
       O chefe da tribo MacLeod assentiu, enquanto tomava seu porto.
       - No  de meu gosto ficar inativo, sofrendo todos os males da conquista, mas seria loucura lutar sem a certeza da vitria. Perdemos antes e pagamos um preo 
alto demais pela derrota.
       - Os MacGregor apiam o prncipe at seu ltimo homem - disse James, determinado. - E estaremos do lado dele, quando ele se sentar no trono.
       - Sim, companheiro - disse Ian com voz controlada.
       Ele sabia que James herdara de seu pai a lealdade  causa, mas no a sua prudncia.
       - Mas Lochiel tem razo. Desta vez, devemos ponderar muito, antes de cruzar espadas com o inimigo.
       - Lutaremos como mulheres, nesse caso? - perguntou James com voz meio abafada pela ira. - Apenas com conversas!
       O usque que circulara com abundncia, comeava a produzir seus efeitos, aquecendo o sangue dos mais exaltados. As palavras de James j haviam provocado murmrios 
de reprovao. Antes que os nimos se exaltassem mais, Ian falou novamente, atraindo a ateno de todos:
       - Lutaremos como chefes de cls, como o fizeram nossos pais e avs. Eu lutei ao lado de seu pai, James, e do seu, quando ramos ambos jovens - acrescentou, 
voltando-se para Lochiel. - Sentirei orgulho de desembainhar minha espada em favor dos Stuart. Mas quando lutarmos, deveremos lutar com as cabeas frias e a mesma 
habilidade com que manejamos a espada e o arco.
       - Ainda no sabemos se o prncipe pretende lutar - observou um dos comensais. - No passado, demos apoio ao pai dele e isso resultou em nada.
       Ian fez um sinal ao criado para que enchesse novamente seu copo. Depois voltou-se para Brigham.
       - Voc passou algum tempo com o prncipe, quando esteve na Frana. Diga-nos o que ele pensa fazer.
       Fez-se silncio total, quando Brigham comeou a falar:
       - O prncipe pretende lutar por seus direitos e pelos direitos de sua casa. Disso no h a menor dvida.
       Ele fez uma pausa e lanou um olhar em torno. Todos estavam atentos a suas palavras, mas nem todos pareciam convencidos.
       - O prncipe conta com o apoio dos jacobitas, tanto aqui como na Inglaterra, e espera convencer o rei Lus a sustentar sua causa. Tendo a Frana como aliada, 
grandes sero as chances de confundirmos os inimigos e depois abat-los.
       - Os habitantes da Baixa Esccia iro engrossar as fileiras do exrcito do governo - disse Lochiel, pensando com tristeza nas mortes e na destruio que se 
seguiriam. - Como o prncipe Charles conta enfrent-los, jovem e inexperiente como ?
       Brigham assentiu, reconhecendo a justia da observao.
       - Ele ir precisar tanto de conselheiros prudentes quanto de bons soldados. Mas no duvide de suas intenes. Ele vir  Esccia, erguer seu estandarte e 
necessitar que os cls lhe jurem lealdade, oferecendo-lhe suas mos e suas espadas.
       - Ter ambas as coisas de mim - afirmou James, enchendo sua taa at a borda e erguendo-a em desafio.
       - Se  inteno do prncipe legitimar sua soberania, to grata aos coraes escoceses - disse Lochiel devagar -, os Cameron lutaro com ele e por ele.
       A discusso continuou noite adentro e nos dias que se seguiram. Alguns dentre os convivas se convenceram de que deviam se colocar  disposio do prncipe. 
Outros estavam bem longe disso.
       Quando os viajantes se despediram dos MacDonald, o cu estava to sombrio quanto os pensamentos de Brigham. Ele temia que muitos contestariam o direito do 
prncipe Charles ao trono ingls e, que, com isso, os caminhos diante e atrs dele se fechariam, extinguindo para sempre seus brilhantes projetos de unificao.
       
       
       
       
       
       
     CAPTULO VI
       
       
       Fiona penteava os longos cabelos de sua filha mais velha, sentada diante do fogo crepitante da lareira, com a paciente habilidade de suas mos delicadas. 
Era um instante precioso, que lhe trazia lembranas doces e tristes a um tempo, da infncia de Serena, quando era fcil resolver-lhe os problemas. Mas a criana 
de outrora no existia mais; tornara-se uma mulher, pronta a lutar pelo que desejava e a fazer o que lhe parecia certo.
       Inclinou-se para examinar-lhe o rosto corado pelo banho. Em geral, em momentos assim, de tranqila intimidade, sua filha tagarelava satisfeita, fazendo perguntas 
e contando pequenas histrias. Agora, no entanto, ela estava absorta em pensamentos, os olhos fixos nas chamas, as mos em repouso sobre o colo. Que estaria acontecendo?
       Soltou um leve suspiro. De seus quatro filhos, era Serena que mais a preocupava. Coll, teimoso mas auto-suficiente, no teria dificuldades em achar seu prprio 
caminho. Gwen, uma criatura doce e afvel, de corao generoso e aparncia frgil, atrairia, sem dvida, a afeio de um homem bom e honrado. Quanto a Malcolm... 
Fiona sorriu, enquanto manejava a escova. Seu filho caula era to cheio de encanto e malcia, que no haveria corao que pudesse resistir-lhe.
       Serena, porm, herdara o temperamento impetuoso dos MacGregor, alm de uma sensibilidade exagerada. Ela sabia odiar to apaixonadamente quanto amar, fazia 
perguntas que no podiam ser respondidas e... lembrava-se do que devia ser esquecido.
       Temia que aquele odioso incidente houvesse deixado marcas to profundas no corao da filha como as que deixara em seu prprio corao. Devia ser principalmente 
ali que residia a raiz do rancor que ela alimentava contra os ingleses. Um rancor que transparecia freqentemente em seus olhos, e que, s vezes, a fazia explodir 
em torrentes de injrias.
       Preocupada, ficou a olh-la, procurando inutilmente decifrar-lhe os pensamentos. Ah! Como era difcil cuidar de uma filha crescida.
       - Por que est to quieta, meu amor? Est vendo algum duende nas chamas?
       Serena sorriu levemente.
       - Voc sempre disse que poderamos v-los, se olhssemos bem.
       - Sim, mas...
       - Mas o qu, mame?
       Os olhos claros de Fiona anuviaram-se, apreensivos.
       - Voc est bem?
       - Estou tima! - Serena riu expulsando todos os receios dela. - Quando papai vai voltar?
       - Amanh. Talvez depois. Est preocupada com ele?
       - As vezes, eu me pergunto como tudo isso acabar. - Ela suspirou. - Gostaria de ser homem.
       Fiona permitiu-se, no ntimo, um pequeno sorriso.
       - Que loucura  essa?
       - Veja bem: se fosse homem, eu no seria forada a ficar aqui, de braos cruzados, sem fazer nada.
       - Se voc fosse homem, teria me roubado uma das maiores alegrias de minha vida.
       Serena voltou-se rapidamente e fitou-a.
       - No gostaria que eu fosse como voc, ou como Gwen?
       - Que absurdo, querida? Voc  como , e nada me agrada mais do que isso.
       - s vezes, sinto que est desapontada comigo.
       - Desapontada, no. Isso nunca!
       Fiona inclinou-se e beijou-lhe o alto da cabea. 
       - Agradeci a Deus quando voc nasceu. Receava no poder ter mais filhos.
       - Mas teve outros. - Serena sorriu e procurou uma posio mais confortvel na cadeira. - Lembro-me quando Malcolm nasceu. Papai foi  estrebaria e embriagou-se. 
Havia um motivo para isso?
       - Ele preferia enfrentar uma centena de drages ingleses a assistir a um parto!
       - Como voc o conheceu? - indagou ela com vivo interesse.
       Um sorriso lento aflorou ao rosto calmo de sua me.
       - Foi num baile que os MacDonald ofereceram por ocasio do aniversrio de sua filha Alice. O irmo dela, como voc sabe,  o melhor amigo de seu pai.
       - E ento?
       Fiona parou de escovar os cabelos da filha e seu rosto iluminou-se de antigas recordaes.
       - Eu estava de branco e usava as prolas de minha av. Tinha os cabelos empoados e, segundo diziam, estava muito bonita. Seu pai pediu a Donald que o apresentasse 
e tirou-me para danar.
       - Oh! mame. Nunca imaginei que papai soubesse danar!
       - Pois sabia. E ningum danava com mais graa e leveza do que ele, apesar de ser um homem to grande.
       Serena sorriu  idia de seus pais jovens e esperou, calmamente, que sua me continuasse.
       - O engraado  que Alice e eu tnhamos feito um pacto de escolher apenas os mais bonitos, os mais elegantes e os mais ricos para nossos pares.
       - Voc, mame? - indagou, fitando-a com ar escandalizado.
       - Naquela poca, eu era ftil e vaidosa. Fiona alisou os cabelos, ainda sem fios grisalhos, e prosseguiu:
       - A partir do dia do baile, seu pai comeou a fazer-me a corte. E, no final, foi ele, que no era o mais bonito, nem o mais elegante, nem o mais rico de meus 
cortejadores, que eu escolhi para marido.
       - Mas como voc teve certeza de que era ele o homem que amava? - perguntou Serena, impulsivamente.
       Fiona lanou-lhe um olhar longo, penetrante, e depois quase sorriu diante de um pensamento novo.
       "Ento  esse o problema. Minha filhinha est apaixonada! Como foi que no notei antes?"
       Rapidamente, passou em revista os nomes e os rostos dos jovens que freqentavam sua casa. No se lembrava de ter visto sua filha lanar sequer um olhar interessado 
a um deles. Pelo contrrio, ela despachava a todos com desdenhosa altivez.
       - Porque meu corao falou mais alto do que minha razo - respondeu, calma.
       Serena rejeitou enfaticamente a explicao.
       - Isso no basta! Tem que haver uma certeza, um sentido. Se papai fosse diferente, se no tivesse sua mesma formao nem seus ideais, seu corao nunca teria 
falado mais alto!
       - O amor no leva em conta as eventuais diferenas que h entre um homem e uma mulher, Serena.
       Foi ento, de sbito, que Fiona compreendeu a verdade, como um jato de gua fria que lhe batesse no rosto. Sua filha, sua orgulhosa e obstinada filha, estava 
apaixonada pelo lorde ingls!
       - Minha querida - disse, ento, com um sorriso e uma leve malcia no olhar. - O amor raramente faz sentido.
       - Eu prefiro ficar solteira a me casar com um homem que certamente me far infeliz!
       - O amor s assusta quem tenta lutar contra ele.
       Serena enterrou o rosto em seu peito.
       - Oh! Mame, por que  to difcil saber o que se quer?
       Fiona afagou-lhe os cabelos.
       - Quando chegar a hora, voc saber. E corajosa como , aceitar o seu destino.
       Um estrpito de patas de cavalos, seguidos do som de vozes e do latido dos ces, interrompeu a conversa.
       - Deve ser seu papai - disse ela, encaminhando-se para a porta. - Vou pedir  sra. Drummond que prepare uma refeio quente.
       Mal Fiona saiu do quarto, as portas da frente escancararam-se e uma animao ruidosa substituiu o silncio que imperava na casa. Serena afofou os cabelos, 
alisou o chambre verde e desceu para cumprimentar o pai. Encontrou-o na sala, o rosto ainda corado pelo exerccio, conversando animadamente com Gwen e Coll.
       Brigham estava diante da lareira, uma das mos segurando uma taa e a outra enfiada no bolso do calo. Quando a viu, no proferiu palavra, limitando-se a 
cumpriment-la com uma leve inclinao de cabea. Ela fitou-lhe o rosto moreno e bonito, iluminado pelo claro das chamas e, pelo espao de alguns segundos, no 
viu mais nada na sala.
       Nesse instante, Ian avistou-a e abriu os braos, chamando-a para si.
       - A est voc, meu pequeno gato selvagem da Alta Esccia! Veio dar um beijo em seu velho pai?
       Quando ela correu ao seu encontro, ele a ergueu do cho e a fez rodopiar no ar.
       - Aqui est uma moa de verdade. O homem que souber aparar suas garras levar para casa um prmio valioso!
       - No quero ser prmio para ningum, papai!
       - No disse a verdade, Brig? Serena no  autntica?
       Brigham moveu a cabea afirmativamente, sem uma palavra.
       - Estou com vontade de d-la a Duncan MacKinnon, como ele vem me pedindo h tempo.
       - Pode fazer isso, papai. Mas correr o risco de ver o filho de seu amigo aleijado para sempre.
       Ian riu novamente. Embora nutrisse um amor profundo a todos os seus filhos, no escondia de ningum que Serena era a sua predileta.
       - Despeje mais um pouco de usque na minha taa, e na dos outros tambm, e no se preocupe. Sei que o jovem Duncan no  preo para voc.
       Ela o obedeceu incontinenti. Mas, enquanto enchia a taa de Brigham, no resistiu  tentao de dizer como num desafio:
       - Nem Duncan nem homem nenhum, papai.
       A luva havia sido atirada e Brigham viu-se no direito de reagir  provocao.
       - Talvez no tenha ainda encontrado o homem que lhe ensinasse a recolher as garras, senhora.
       - Muitos j tentaram, my lord. Mas, at agora, ningum conseguiu.
       - E porque a senhora tem encontrado homens errados.
       Serena levantou os olhos e fitou-o frente a frente.
       - Est enganado, senhor. E volto a afirmar que no sou para homem nenhum.
       Ele sorriu, um sorriso largo.
       - Perdoe-me, madame, mas uma gua nervosa raramente compreende a necessidade da mo livre de um cavaleiro.
       Coll soltou urna gargalhada.
       -  intil, Serena. O homem poder continuar nesse tom durante horas e voc nunca o vencer. Desista e venha servir-me. Minha taa est vazia.
       - Como sua cabea!
       - Calma, moa, no me arranque a pele! Estou ainda convalescendo de uma doena sria.
       - Est mesmo? - Ela tirou-lhe bruscamente a taa da mo. - Nesse caso, vai tomar o caldo de Gwen em vez de usque!
       Sorrindo, Coll agarrou-a pela cintura e a fez sentar em seu colo.
       - Sirva-me mais bebida que eu guardarei seu segredo.
       Serena ps-se em guarda. 
       - Que segredo?
       - Os cales de montaria - murmurou ele ao seu ouvido.
       Ela o amaldioou baixinho e despejou em sua taa mais um pouco de usque.
       - Voc no estava to doente assim, se pde chegar at a janela!
       - Um homem acuado defende-se como pode! 
       - Silncio, crianas!
       Ian esperou que todos os olhos se fixassem nele e ento anunciou:
       - Encontramos os MacDonald bem de sade. Daniel, o irmo de Donald, tornou-se av pela terceira vez, o que me deixa envergonhado.
       Ele abarcou com o olhar seus dois filhos mais velhos, que sorriam inocentemente.
       - Vocs ficam sorrindo como dois bobos, sabendo muito bem que no esto cumprindo as obrigaes determinadas pelo cl. Um pai mais severo j os teria casado, 
com ou sem os seus consentimentos.
       - No h pai melhor do que o nosso - murmurou Serena com suavidade.
       O rosto de Ian distendeu-se, e ele quase sorriu.
       - Bom, vamos mudar de assunto. Convidei Maggie McDonald para passar alguns dias conosco.
       - Oh, senhor... - gemeu Coll. - Que amolao!
       - No diga isso! Maggie  a minha melhor amiga! - censurou-o Serena. - Quando ela vem, papai?
       - Na prxima semana - disse Ian, lanando um olhar duro a Coll. - Espero, meu rapaz, que no se considere dispensado das cortesias devidas  filha de meu 
melhor amigo.
       - Ela no vai me deixar em paz! - protestou o filho.
       - Maggie no  mais uma criana. Certamente encontrar distrao na companhia de Serena e Gwen.
       
       Os dias que se seguiram foram passados em febril atividade. Poliram-se os mveis e as pratarias e prepararam-se iguarias finas. Serena, habituada ao trabalho, 
achava tudo muito divertido. Alm disso, estava ansiosa para rever Maggie, sua confidente e companheira de infncia.
       Coll j se restabelecera e saa com freqncia, s vezes em companhia de Ian e Brigham, outras sozinho.  noite, participava das discusses em torno da causa 
jacobita e do prximo passo de Charles, j que corriam os mais desencontrados rumores: o prncipe estava a caminho, o prncipe encontrava-se ainda em Paris, o prncipe 
nunca viria  Esccia.
       Certo dia, chegou um mensageiro com um despacho para Brigham. O homem foi introduzido na sala de visitas, que permaneceu de portas fechadas durante horas. 
Quando ele partiu, as notcias no foram transmitidas s mulheres da casa, fato que indignou Serena.
       Ela trabalhava na cozinha, onde o fogo estava aceso, preferindo lavar as roupas de cama na grande tina de madeira, a mergulhar as mos na cera de polir. Com 
a saia erguida, vadeava na gua que lhe chegava at os tornozelos, deliciando-se com seu trabalho tanto quanto com a paz quase domingueira da cozinha. Enquanto colocava 
as roupas de molho, pensou se Brigham achara Maggie MacDonald bonita e se lhe beijara a mo do mesmo modo como, certa vez, beijara a sua.
       "Por que estou pensando nisso?", disse de repente a si mesma, e comeou a pisotear a roupa com vigor. O homem no lhe lanara um olhar desde que chegara!
       Queria que ele fosse embora para Londres ou para o diabo, pouco lhe importava! Ou que casse no rio e apanhasse uma pneumonia e ento morresse lentamente. 
Melhor ainda, queria que ele tombasse de joelhos a seus ps e lhe implorasse um sorriso. Riria na sua cara e...
       Brigham abriu a porta da cozinha e sua irritao cresceu. Fazia dois dias que evitava Serena, e agora encontrava-a ali, sozinha, o rosto corado pelo calor 
do fogo, os cabelos escapando dos grampos e a saia... Santo Deus!
       Sem querer, viu-se com os olhos cravados naquelas pernas deliciosamente bem torneadas, e sua pulsao acelerou-se.
       -  uma cena domstica inesperada... e encantadora - disse com estudada calma.
       Serena olhou-o com frieza.
       - Que veio fazer na cozinha, lorde Ashburn? Aqui no  seu lugar!
       - Seu pai quis que eu voltasse antes para comer alguma coisa. E assim, pensei em vir at aqui e pedir um prato de sopa  sra. Drummond.
       - H sopa no caldeiro. Sirva-se e v comer em outro lugar. Estou muito ocupada.
       - Estou vendo. - Ele chegou mais perto. - E lhe asseguro que no vou dormir em paz, sabendo de que modo foram lavados os lenis de minha cama!
       Serena sufocou uma risadinha.
       - Pode acreditar, Sassenach. Esse mtodo d timos resultados.
       Sbito, sob a inspirao do demnio, ela comeou a patinhar, na gua, espirrando gua no calo dele. Depois, simulou um pesar que estava longe de sentir.
       - Queira me desculpar, my lord.
       Brigham olhou para o calo e perguntou, bem-humorado:
       - Quer lav-los tambm?
       - Jogue-os na tina! - desafiou-o Serena. 
       - Est falando srio? - Ele abaixou os suspensrios e teve a satisfao de v-la arregalar os olhos.
       - Brigham... por favor - murmurou ela, recuando, e quase perdendo o equilbrio.
       Ele a amparou a tempo, passando-lhe o brao pela cintura.
       - Eu sabia que voc iria tornar a diz-lo. 
       - Dizer o qu?
       - Meu nome. Diga-o novamente.
       Ela umedeceu com a lngua os lbios subitamente secos.
       - No. E no precisa ficar me segurando. 
       - Preciso, sim.
       Ele falava e ao mesmo tempo acariciava-lhe os cabelos, os ombros, as costas, num movimento incessante.
       - Preciso e estou vendo essa mesma vontade em seus olhos.
       Ela sentiu uma onda de desejo agitar-lhe o corpo, numa emoo nova e balbuciou, confusa: 
       - Pois eu lhe digo que no est vendo nada.
       Sem tomar conhecimento de suas palavras, Brigham inclinou-se para aspirar-lhe o aroma dos cabelos.
       - To cheiroso como uma manh de chuva na primavera.
       - Pare, por favor! No quero ouvir mais nada.
       - Porqu? Por que sou ingls?
       - No... no sei. Sei apenas que no quero me sentir do jeito que voc me faz sentir.
       Ele a puxou para si, apertando-a de encontro ao peito.
       - Como eu a fao sentir-se, Serena?
       Ela fechou os olhos, com vontade de fugir dele e ocultar-se em seu quarto. Mas respondeu:
       - Fraca, trmula, com raiva de mim mesma. No, no faa isso - acrescentou num frgil murmrio, quando ele fez meno de tomar-lhe os lbios. - No me beije.
       - Ento beije-me voc.
       - No quero.
       Seguro de si, Brigham ps-se a passear a boca sobre o rosto ardente, cobrindo-o com beijos leves.
       - Sim, voc quer.
       Os joelhos de Serena fraquejaram e ela oscilou, como um arbusto ao sabor de um vento forte. Ento, deixando que seu corao falasse mais alto, jogou a cabea 
para trs e entreabriu os lbios trmulos de emoo e desejo.
       Com um murmrio de jbilo, ele a ergueu da tina e a manteve abraada por um momento. Ento, lentamente, deixou-a deslizar ao longo de seu corpo, at que os 
ps dela tocassem o cho.
       Serena sentiu que no podia... no queria resistir ao anseio incontrolvel de abandonar-se quelas carcias. Com um suspiro, colou-se a ele sem reservas, 
deixando-o sentir a maciez de seus seios, sob o casaco aberto.
       Brigham percebeu-a despertar para a volpia e, embora excitado, soube que devia parar antes que a situao fugisse ao seu controle.
       - Precisamos conversar, Serena - disse, tomando-lhe ambas as mos e afastando-a delicadamente de si.
       - Para qu?
       - Para que eu no abuse da confiana que seu pai e seu irmo depositaram em mim.
       Sbito, Serena compreendeu o que acontecia sempre que ele a tomava nos braos e a beijava: ela se rendia, em submisso ao prprio desejo. Ao se dar conta 
disso, o sangue gelou em suas veias.
       - No quero conversar. Quero que v embora! 
       - Mas  necessrio, no v? 
       - No.
       Ele a fitou com desalento.
       - Serena, no podemos continuar a fingir, nem pretender que nada acontea entre ns quando estamos juntos.
       Ela engoliu o n que se formou em sua garganta e disse lacnica:
       - Os desejos morrem.
       Uma sombra de tristeza velou os olhos cinzentos de Brigham.
       - Que palavras to frias!
       - Deixe-me em paz, est bem? Eu era feliz, antes que voc chegasse. E voltarei a s-lo, quando voc for embora.
       - No acredito. Se eu fosse embora, voc iria chorar.
       - Eu nunca derramaria uma lgrima por voc. Por que deveria? Voc no  o primeiro homem que me beijou e no ser o ltimo!
       Ele estreitou os olhos, irritado.
       - Voc diz coisas perigosas, Serena.
       - Digo o que me agrada. Agora, deixe-me!
       Envolvendo-a pela cintura, Brigham tomoulhe os lbios e beijou-a at faz-la render-se por completo.
       - Os outros fizeram-na sentir-se assim, lnguida, quase desfalecida? Voc os olhou como est me olhando agora, com os olhos enevoados de desejo?
       Ela virou o rosto, fugindo dos penetrantes olhos cinzentos, mas ele pegou seu queixo e obrigou-a a encar-lo.
       - Sim ou no?
       - No.
       - Ah...
       Nesse instante, Gwen abriu a porta e, ao ver sua irm abraada ao lorde ingls, ficou parada no limiar, sem saber o que fazer.
       - Queiram me desculpar - disse por fim, sentindo uma sbita vergonha de estar ali.
       Serena deu um passo para trs e alisou os cabelos, num gesto nervoso.
       - Lorde Ashburn estava justamente...
       - Beijando sua irm - completou ele friamente.
       Gwen baixou os olhos e sufocou uma risadinha maliciosa.
       - Desculpem-me - tornou a dizer, pensando se no era melhor deixar os dois sozinhos.
       - No h necessidade de se desculpar - interveio Serena. - Lorde Ashburn veio pedir-me um prato de sopa.
       Brigham lanou-lhe um olhar irnico.
       - Era essa a minha inteno, mas perdi o apetite.
       
       
       
     CAPTULO VII
       
       
       - O rei Lus no ir intervir na sucesso - disse Brigham.
       Ele estava de p diante da lareira, com as mos cruzadas s costas. Embora sua voz estivesse calma e controlada, graves preocupaes pareciam agitar-lhe o 
esprito.
       - A medida que o tempo passa, torna-se cada vez mais evidente que ele no por seus homens nem seu ouro a servio do prncipe.
       Coll jogou sobre a mesa a carta trazida havia pouco por um mensageiro e comeou a andar de um lado para o outro da sala.
       - H um ano, Lus parecia disposto a sustentar a causa dos Stuart. Mais do que isso. Estava ansioso!
       - H um ano - observou Brigham -, Lus acreditava que Charles pudesse lhe ser til. Mas desde maro, quando a idia de invaso da Inglaterra foi abandonada, 
o prncipe passou a ser ignorado pela corte francesa.
       - Ento, iremos  luta sem os franceses!
       Coll fitou o pai, ansioso. 
       - Nosso povo dar a vida pelos Stuart.
       - Pode ser - concordou Ian, a expresso carregada. - Precisamos de unio. Para vencer, os cls devero lutar unidos sob uma s bandeira.
       - Como lutamos antes! - disse seu filho exaltado. - No pode haver dvida alguma sob que partido os chefes se uniro.
       - Gostaria que fosse verdade - tornou Ian, pensativo. - No podemos pretender que cada chefe proteste lealdade e dedicao ao verdadeiro rei, ou leve seu 
cl a cerrar fileiras em torno do prncipe. Temo que muitos erguero seus braos contra ns, unindo-se s foras do governo.
       Brigham apanhou a carta e leu-a mais uma vez. Depois rasgou-a muito devagar e atirou-a ao fogo. Enquanto a via arder lentamente, disse:
       - Espero a qualquer momento notcias de meu contato em Londres. Se forem as que imagino, a nossa empresa mudar completamente de aspecto.
       Coll voltou-se para ele.
       - Quanto tempo ainda teremos que esperar? Quantos meses, quantos anos teremos que ficar aqui, enquanto o usurpador permanece sentado no trono?
       - Acho que a hora da rebelio chegar mais cedo do que imagina. O prncipe est impaciente.
       - Os chefes da Alta Esccia vo se unir novamente - anunciou Ian. - Eles temem que uma ao prematura ou mal planejada possa causar grave dano e debilitar 
a f dos escoceses numa causa que reivindica para si o direito ao trono ingls. Mas temos que tomar cuidado com essas reunies para no despertar a suspeita dos 
"Black Watch".
       - Malditos sejam - rosnou Coll entre dentes,  meno dos escoceses colaboracionistas.
       - Outra caada? - perguntou Brigham, imperturbvel.
       - Tenho em mente algo um pouco diferente.
       Ao som de uma carruagem que se aproximava, Ian sorriu e guardou o cachimbo.
       - Um baile, rapazes!  hora de oferecermos algum entretenimento aos nossos vizinhos. E a jovem que vem nos visitar , a meu ver, um lindo pretexto.
       Brigham aproximou-se da janela e levantou a ponta da cortina a tempo de ver Serena descer correndo a escadaria de pedra. Quase ao mesmo tempo, uma jovem de 
cabelos escuros saltou da carruagem e atirou-se em seus braos.
       - Maggie MacDonald.
       - Exatamente. Ela est em idade de se casar, assim como minha filha mais velha.
       Brigham sorriu, pouco  vontade, e murmurou uma observao banal.
       Ian pousou os olhos nele, pensativo.
       "Eu teria que ser cego para no ver que h algo entre esse lorde ingls e Serena."
       - Nada mais razovel do que oferecer um baile para apresent-las aos jovens dndis das redondezas, no acha?
       - Muito bem pensado.
       - O diabo me carregue se eu permitir que essa moa me distraia, enquanto estivermos afiando nossas espadas - disse Coll com mau humor. - No vou lev-la para 
cavalgar nem ficar ouvindo suas conversas fteis!
       Ian caminhou para a porta, dizendo por cima do ombro:
       - No se preocupe. Serena e Gwen iro cuidar bem de nossa hspede.
       No instante em que as portas do salo foram abertas, o som de vozes e de risos femininos invadiu a sala. Ian adiantou-se, a voz retumbante ecoando no hall:
       - Venha dar um beijo em seu velho tio, mocinha!
       Ao voltar para o salo, acompanhado por Maggie, Coll levantou-se, mas foi incapaz de proferir uma palavra. Ela parecia uma boneca, ao lado de seu pai, uma 
viso de sonhos vestida de veludo azul. Os cabelos, escuros como a noite, caam-lhe graciosamente at os ombros, formando um belo contraste com a tez delicadamente 
alva. Os olhos, profundos, pareciam capazes de inflamar e enternecer, de ordenar e suplicar. Ficou a contempl-la, boquiaberto, pensando que jamais vira beleza to 
viva e dominadora.
       Maggie sorriu-lhe e ento voltou-se para cortejar Brigham.
       - Lorde Ashburn...
       - E um prazer tornar a v-la, srta. MacDonald. - Ele tomou-lhe a mo e levou-a aos lbios. - Fez boa viagem?
       - Muito boa, obrigada.
       Serena adiantou-se e empurrou-a na direo do irmo.
       - Voc se lembra de Coll, no , Maggie?
       - Claro que me lembro!
       Maggie ergueu os olhos e sentiu o corao bater descompassado. Ele era muito mais bonito do que ela se lembrava: mais alto, mais charmoso...
       - E muito bom ver voc, Coll. Espero que seu ferimento j tenha cicatrizado.
       - Que ferimento?
       - Seu pai nos contou que houve uma emboscada, durante sua viagem de volta de Londres.
       - Oh... no foi nada.
       - Tenho certeza de que foi coisa sria, mas estou contente de v-lo em boa forma. 
       -  maravilhoso estar em Glenroe novamente! Tio Ian... tia Fiona, agradeo a ambos pelo convite.
       Nesse instante, a criada chegou com a bandeja do ch e todos se acomodaram diante da lareira. Ao invs de se retirar, como havia anunciado, Coll viu-se disputando 
a cadeira mais prxima de Maggie. Brigham aproveitou o instante de confuso e inclinou-se para Serena com o pretexto de passar-lhe um prato de bolinhos.
       - Voc est me evitando, Serena. 
       - Absurdo!
       - Estou plenamente de acordo. Seria um absurdo.
       - O senhor se tem em altssima conta, Sassenach!
       -  gratificante ver como eu a deixo nervosa. Ele sorriu, satisfeito, e depois voltou-se para os outros.
       - Gwen, voc fica encantadora de rosa.
       "Ele nunca me disse que sou encantadora", pensou Serena, olhando o fogo que agonizava. "Nunca me fez reverncias nem disse frases galantes. Comigo so apenas 
farpas e ironias. E beijos", lembrou-se, com um estremecimento involuntrio. "Beijos profundos, possessivos..."
       Faria melhor no pensando nisso... ou nele. Fora criada na Alta Esccia, mas no era nenhuma tola. Estava ciente da liberdade de costumes que imperava na 
aristocracia inglesa. E Brigham no podia ser diferente de seus pares.
       No capitularia diante das emoes poderosas e irresistveis que ele lhe despertava, entregando-se levianamente. No queria um mero prazer, passageiro e febril. 
Queria um sentimento profundo o duradouro, e isso era algo que Brigham no seria capaz de lhe oferecer.
       - Sonhando de olhos abertos, meu amor? - murmurou ele, de sbito, com voz sedutora.
       - Espero que seja comigo.
       Libertando-se a custo da melanclica magia das brasas e das cinzas, respondeu-lhe com sarcasmo:
       - Estava pensando nas vacas que devem ser ordenhadas.
       Brigham riu e depois observou com uma ponta de ironia:
       - Pelo jeito, Coll no est se aborrecendo com a srta. MacDonald.
       Serena olhou para o irmo. Ele estava corado e alegre.
       - Coll d a impresso de algum que foi atingido por um raio!
       - Ou no corao, por uma flecha de Cupido. Quem acreditaria numa coisa dessas? Acha que ele chegar ao ponto de dizer versos  sua amada?
       Brigham suspirou fundo, com simulada resignao.
       - Os homens fazem as coisas mais insensatas, quando amam.
       - H alguns anos, ele no podia nem ouvir falar em Maggie.
       - Agora ela no  mais uma criana.  mulher feita e muito bonita, por sinal. Serena sentiu um aperto no corao.
       - Sim, muito bonita. Parece que ela fascinou a todos.
       Ele ergueu um pouco as sobrancelhas escuras e depois sorriu.
       - Quanto a mim, prefiro uma jovem de olhos verdes e lngua afiada.
       - No estou habituada aos flertes de salo, my lord.
       - Essa  outra coisa que eu preciso lhe ensinar.
       Ela percebeu que estava em desvantagem e decidiu-se por uma retirada estratgica.
       - Venha, Maggie - disse, levantando-se. - Vou lhe mostrar seus aposentos.
       
       Serena no se surpreendia de que sua amiga estivesse ainda apaixonada por Coll. O que a deixava cada vez mais perplexa,  medida que os dias iam passando, 
era o fato de que seu irmo parecia retribuir esse sentimento com igual intensidade. Isso era algo quase inacreditvel. Mas no podia negar o que estava acontecendo 
debaixo de seus prprios olhos. Ele que, dois anos antes arrumava sempre uma poro de pretextos para evit-la, agora procurava outros tantos para ficar na companhia 
dela!
       Maggie, por sua vez, parecia aceitar a situao com naturalidade, o que, no fundo, Serena admitia lhe causar um pouco de inveja. Por que o amor fazia sua 
amiga to feliz, enquanto ela se sentia insatisfeita e at amedrontada?
       
       O tempo continuava frio, as brumas elevavam-se das speras encostas para logo, envolvidas nos turbilhes do vento cortante de maro, desfazer-se em flocos 
e desaparecer. Mas o inverno chegava ao fim. "Dentro de um ms, as rvores estaro cobertas de folhas novas e as primeiras flores silvestres se abriro ao sol", 
pensou Serena. J se ouviam pios de aves e houve um fugaz brilho de asas, quando os cavalos perturbaram a quietude do bosque.
       Cavalgavam a passo moderado e isso a impacientava. Sabia que Maggie era uma exmia cavaleira, mas sua amiga preferia retardar-se na trilha, ao lado de Coll, 
do que lanar-se num galope estimulante.
       - Quer apostar uma corrida? - perguntou-lhe Brigham, colocando-se ao lado dela.
       - Bom... sim.
       - O que estamos esperando, ento? Vamos! Eles nos alcanaro mais tarde.
       Serena hesitou. Sua me no aprovaria que cavalgassem aos pares, ao invs de num nico grupo.
       - No ficaria bem.
       - Est com medo de no poder me acompanhar?
       Ela o fitou, com os olhos faiscantes.
       - Ingls nenhum  preo para uma MacGregor!
       - Prove isso, Serena - disse ele brandamente. - O lago fica a menos de uma milha daqui.
       Um desafio era um desafio. Sem refletir, Serena inclinou-se sobre seu cavalo e pressionou-lhe os flancos com os calcanhares, estimulando-o a lanar-se para 
a frente. Com mo leve e evitando os ramos baixos, guiou-o atravs de curvas e desvios, fazendo-o saltar sobre eventuais troncos cados.
       A senda que seguiam era to estreita que mal dava lugar para os dois animais, mas nenhum deles queria ceder seu espao ao outro, de modo que cavalgavam quase 
ombro a ombro. Ela olhou rapidamente para seu companheiro, o rosto moreno aberto num sorriso, e tornou a esporear sua montaria. A floresta ecoou com sua risada clara, 
quando tomou a dianteira.
       Seus olhos brilhavam, seus lbios entreabriam-se. Experimentava uma sensao de bem-estar, de leveza do corao, que vinha sobretudo da companhia de Brigham. 
Essa emoo persistia, fazendo-a desejar que o lago estivesse a dez milhas de distncia, para que eles continuassem a cavalgar cada vez mais velozmente sob os raios 
do sol, que iluminavam, em remendos resplandecentes, a trilha pela qual abriam caminho.
       Brigham olhou-a com admirao. Ela cavalgava como uma deusa. Elegantemente e com uma confiana inabalvel. Se estivesse em companhia de outra mulher, teria 
contido o cavalo, receoso pela segurana dela. Mas, com Serena, sentia-se estimulado a prosseguir com mais ardor, pelo puro prazer de v-la voar ao longo do rstico 
atalho, a capa enfunada sobre o traje cinzento de montaria.
       "Voc no vai ganhar", disse a si mesmo, ao ver a superfcie azul do lago brilhar por entre os troncos nodosos dos carvalhos.
       Impeliu o cavalo para a frente e logo estavam galopando lado a lado, colina abaixo. Alcanaram a margem juntos, mas Serena esperou at o ltimo instante para 
refrear o cavalo, que estacou com um sonoro relincho de protesto. Ela ria, os olhos verdes espelhando triunfo. Se j no estivesse apaixonado, ficaria naquele instante, 
to irremediavelmente quanto um homem fulminado por um raio.
       - Venci, Sassenach!
       - Engana-se. Fui eu que venci e por uma cabea de vantagem.
       - Dane-se a cabea de vantagem! Eu venci, mas voc no  homem para admitir isso!
       Serena inspirou fundo e continuou, tomada por uma estranha sensao de desafio:
       - Se estivesse usando calo, ao invs deste traje, eu o teria deixado para trs, a comer a poeira da estrada!
       Brigham no esboou reao alguma. Ficou mudo, enfeitiado por aqueles olhos verdes, cujo brilho era atenuado pelos clios longos e sedosos.
       - Mas voc no tem do que se envergonhar.  um bom cavaleiro. Quase to bom quanto um escocs estropiado e cego de um olho - acrescentou ela com uma risada.
       - Seus elogios me desvanecem, embora a senhora parea no levar em conta que venci a corrida. My lady  muito presunosa... ou muito obstinada para admiti-lo.
       Serena lanou a cabea para trs. O chapu caiu-lhe e os cabelos se espalharam, numa massa de cachos acobreados.
       - Fui eu que venci. E um cavalheiro teria a fineza de me conceder a vitria.
       - Uma verdadeira dama nunca teria disputado uma corrida.
       - Oh!
       Ela no se importava de ser chamada de presunosa ou obstinada, mas ressentia-se quando lhe diziam que no era uma dama.
       - A idia da corrida foi sua! Se eu tivesse recusado, voc me chamaria de covarde. Mas eu aceitei e venci, e ento voc se vinga, dizendo que no sou uma 
dama!
       - Aceitou e perdeu - corrigiu-a Brigham, gostando do modo como suas faces ficavam coradas no calor da discusso. - Comigo, voc no precisa portar-se como 
uma dama. Gosto de voc assim como .
       - Ou seja...
       - Uma deliciosa gata selvagem que usa cales e sabe lutar como um homem.
       Ela o encarou, possessa de raiva e, num impulso, deu uma palmada na anca da montaria dele, fazendo o animal pular para a frente. Se Brigham no reagisse prontamente, 
puxando as rdeas, teria sido lanado de ponta-cabea nas guas geladas do lago.
       - Megera - murmurou ele, num misto de perplexidade e admirao. - Est querendo me afogar?
       Ela deu de ombros, com indiferena, e ps-se a contemplar o lago. Raios oblquos de sol refletiam-se nas guas claras, brincavam no contnuo enovelar-se das 
ondas. Liblulas azuis pairavam sobre a superfcie, lutando contra sbitas lufadas de ar ainda mido e frio. Tudo era to calmo e bonito, que ela sentiu seu aborrecimento 
esvaecer-se como por encanto.
       - Proponho uma trgua.
       - Posso saber por qu?
       - No teria ningum com quem conversar, enquanto Maggie e Coll namoram.
       Brigham saltou agilmente ao cho e colocou-se ao lado dela.
       - A senhora aquece meu corao.
       Serena sorriu e estendeu-lhe as mos, para que ele a ajudasse a descer. Mas, antes que percebesse suas intenes, ele a agarrou pela cintura e a jogou rudemente 
sobre os ombros.
       - Est ficando louco? Ponha-me j no cho! - gritou ela, esperneando.
       Sem fazer-lhe caso, ele caminhou at a margem.
       - No quer experimentar as guas do lago? 
       - Voc no se atreveria! - Havia uma nota de pnico na voz dela.
       - Minha querida, j lhe disse que um Langston nunca se omite diante de um desafio. Sabe nadar?
       - Melhor do que voc, Sassenach! Mas se no me largar...
       Ele ameaou atir-la na gua e ela soltou um grito de terror.
       - No faa isso, as guas esto geladas! Depois, ps-se a rir e a dar-lhe pontaps ao mesmo tempo.
       - Juro que o matarei, quando recuperar a liberdade.
       - Isso no me anima a solt-la. Porm, se voc admitir que eu venci a competio... 
       - Nunca!
       - Nesse caso...
       Ele deu mais um passo para a frente, mas Serena esmurrou-lhe as costas com tanta fora que o fez cambalear e tropear numa raiz.
       Quase em seguida, os dois foram ao cho, numa confuso de saiotes e maldies.
       - Olhe s o estado de minha saia! - queixou-se ela.
       - A culpa  toda sua! Voc me fez perder o equilbrio.
       - Foi mesmo? Tomarei mais cuidado na prxima vez. - Serena sorriu, satisfeita, e examinou-lhe o calo sujo de terra.
       - Parkins vai repreend-lo, quando vir o estado desse lindo traje de montaria.
       - Meu criado  uma prola e no vai dizer palavra.
       - Que juzo voc faz do carter desse Parkins?
       - Ele  correto, leal, mas um tanto teimoso. Por qu?
       - A sra. Drummond acha que ele daria um bom marido.
       - A sra. Drummond? - Brigham fitou-a, incrdulo. - A "sua" sra. Drummond e... Parkins?
       - Por que no? A sra. Drummond  uma tima pessoa.
       - No duvido disso. Mas... Parkins?
       Brigham ps-se a rir. No podia imaginar seu criado fazendo par com a corpulenta cozinheira dos MacGregor.
       - Ele est ao par das intenes dela?
       - Ainda no. A sra. Drummond pretende convenc-lo com suas tortas e seus molhos, exatamente como Maggie est encantando Coll com sua beleza e seu sorriso 
tmido.
       Brigham lanou-lhe um olhar perscrutador. 
       - Isso a incomoda?
       - Oh, no! Gostaria muito que eles se casassem. Mas..
       - Mas...
       - Vendo-os juntos, no posso deixar de pensar que depois do degelo, quando romper a primavera, o pas estar em guerra.
       - Preferia que no houvesse guerra?
       Ela suspirou e ficou olhando as nuvens, que corriam rpidas no cu azul.
       - Sinto-me dividida. Gostaria de lutar, mas tambm de ficar esperando a renovao da primavera.
       Ele tomou-lhe a mo. Era frgil demais para empunhar a espada.
       - Haver outras primaveras. E outras floraes.
       Ela o fitou, dominada pelo magnetismo dos olhos cinzentos. Sentia-se bem a seu lado, ouvindo-o, enquanto pssaros invisveis cantavam em meio  espessura 
das rvores e o perfume da terra evolava-se ao calor do sol.
       Seus dedos entrelaaram-se aos dele, num gesto to instintivo que no soube o que havia feito at no perceber a mudana que houve na expresso de Brigham: 
o sbito escurecimento das pupilas, a intensidade do olhar. Era como se o mundo  sua volta houvesse desaparecido, e s eles estivessem ali, as mos unidas, os olhos 
nos olhos.
       Sbito, num instinto de defesa, retraiu-se.
       - No!
       Brigham envolveu-a pela cintura, rpido.
       - Eu poderia deix-la ir embora, Serena. Mas isso no mudaria o que h entre ns.
       - No h nada entre ns.
       - Obstinada... - Ele traou-lhe o contorno dos lbios com a ponta do dedo. - Voluntariosa... linda!
       - No sou nada disso.
       - Voc  tudo isso! - Ele mordiscou-lhe de leve o queixo e depois o lbulo da orelha, fazendo-a estremecer de prazer.
       - No faa isso!
       - Esperei muito tempo para ficar a ss com voc e fazer exatamente isso.
       Ele a apertou nos braos e, rosto contra rosto, murmurou:
       - Diga que ser minha. Diga!
       Ela desprendeu-se sem violncia e respondeu numa voz fraca e lenta:
       - No posso. No posso.
       Brigham guardou silncio por alguns momentos. Quando falou de novo, sua voz era suave e terna:
       - s vezes acontece algo especial entre um homem e uma mulher. Algo que queima como uma chama eterna, embora ambos tentem ignorar o fato e lutem contra seus 
prprios sentimentos. Voc quer me odiar, mas no pode.
       - No diga mais nada! No consigo pensar direito.
       - No pense. - Ele a agarrou pelos ombros e pressionou o corpo contra o dela. - Sinta, apenas.
       A presso clida daquela boca sensual, Serena sentiu-se dominada pela paixo e um frmito de desejo subiu por seu corpo, deixando-o indolente e submisso. 
Ele tinha razo! Havia entre eles uma atrao que fazia o sangue de ambos fervilhar, seus sentidos despertarem com intensidade. Incapaz de resistir, correspondeu 
ao beijo com total abandono.
       - Quero que seja minha - murmurou ele, aninhando-lhe a cabea no peito vigoroso.
       - Preciso de tempo para pensar - murmurou ela, perturbada e fraca.
       - Precisamos apenas conversar. Quero que voc entenda o que eu sinto por voc.
       Serena compreendeu que ele queria torn-la sua amante e, como tal, lhe tornaria a vida amvel, diferente, colorida, toda nova. Se cedesse, porm, iria sentir-se 
a mais indigna das criaturas. Por outro lado, se encontrasse foras para recus-lo, conservando intacto o seu orgulho, se sentiria completamente infeliz.
       - Preciso pensar - tornou a dizer, confusa.
       Curvado sobre ela, Brigham a fitava com ar interrogativo.
       - Voc me ama, Serena?
       Ela olhou-o um momento, hesitou e disse muito baixo:
       - Que importncia pode ter isso?
       Ele endireitou-se e suspirou resignado.
       - Compreendo. Eu sou ainda o ingls que veio de Londres. E voc jamais esquecer isso, no importa o que sinta por mim, no importa o que possamos significar 
um para o outro!
       - No posso esquecer quem voc , nem quem eu sou. - Bruscamente ele se desvencilhou dela.
       - Est bem. Voc ter tempo para pensar. Mas lembre-se: no vou implorar por seu amor.
       
       
       
     CAPTULO VIII
       
       
       Maggie equilibrou-se no degrau da escada de mo e poliu o canto superior do espelho. Depois voltou-se para Serena, entusiasmada.
       - Ser um lindo baile, perfeito em seus mnimos detalhes! A msica, as luzes...
       - E Coll - acrescentou Serena.
       Sua amiga no se deixou, de modo algum, perturbar e respondeu, com seu divino e suave sorriso:
       - Sim, Coll. Ele me pediu que eu lhe reservasse a primeira dana, sabia? 
       - Isso no  surpresa.
       - Estava to carinhoso quando me disse isso... Tive vontade de responder que lhe reservaria todas as danas se ele quisesse. Mas achei que iria deix-lo sem 
jeito.
       - Seria a primeira vez que algum consegue tal proeza!
       - No  maravilhoso? - suspirou Maggie, deliciada.
       - Ele est apaixonado por voc e isso  a melhor coisa que poderia lhe acontecer.
       - Est dizendo isso porque  minha amiga?
       - No s por isso. Coll irradia felicidade, quando voc est presente.
       Maggie sentiu as lgrimas aflorarem-lhe aos olhos.
       - Lembra-se de que alguns anos atrs prometemos uma  outra que seramos irms um dia?
       - Voc se casaria com meu irmo e eu com um de seus primos - confirmou Serena. - Coll j fez o pedido?
       - Ainda no. Mas o far. Eu o amo tanto...
       - Tem certeza? ramos crianas, quando fizemos essa promessa. Agora voc  mulher feita.
       -  um sentimento diferente, Serena. Quando ramos crianas, eu o julgava um prncipe!
       - Coll?
       - Ele era to alto e bonito... Eu o imaginava batendo-se em duelo por mim e depois levando-me para bem longe num corcel ricamente enfeitado.
       Maggie riu e desceu um degrau.
       - Hoje eu sei que ele no  nenhum prncipe. A convivncia me fez v-lo sob um novo aspecto: o de um homem equilibrado e gentil, que, s vezes, pode perder 
a calma e tornar-se ousado e at imprudente. Mas eu o amo de todo o meu corao.
       - Ele j beijou voc? - perguntou Serena, o rosto revelando maior interesse.
       - No, mas gostaria que me beijasse.
       Ela viu o maravilhoso sorriso e a expresso dos belos olhos azuis e comoveu-se.
       - Nunca vi Coll com esse ar to sonhador. Quando ele olha para voc, fica plido e depois enrubesce.
       - Oh! Mas  to tmido... Se ele no se declarar logo, tomarei a iniciativa! Serena olhou-a com curiosidade. 
       - Como?
       - Bem, eu...
       Maggie interrompeu-se, ao ouvir um rudo de passos que se aproximavam. Sua pulsao acelerou-se, dando-lhe a certeza de que era Coll, antes mesmo que ele 
entrasse na sala. Ento, entregando-se sem constrangimento aos impulsos de seu corao, deixou o p resvalar pelo degrau da escada e caiu docemente ao cho.
       Coll alcanou-a com duas passadas e passou-lhe o brao pela cintura.
       - Voc se machucou?
       - Sou mesmo desajeitada - murmurou ela, enquanto fitava o rosto querido a um palmo do seu.
       - Uma jovem to frgil como voc no devia arriscar-se tanto.
       Ele a ajudou a levantar-se, mas no instante em que a ouviu soltar um grito abafado de dor, tornou a sustent-la pela cintura.
       - Quer que eu chame Gwen? - perguntou, aflito. 
       - Ela pode dar um jeito nisso.
       - Oh, no! Se eu pudesse sentar-me apenas um momento...
       De pronto, Coll ergueu-a nos braos e a depositou na cadeira mais prxima, como se ela fosse um objeto frgil e precioso.
       - Voc est plida, Maggie. Vou buscar um copo de gua.
       Ele endireitou-se e saiu, antes que ela pudesse pensar numa desculpa qualquer para ret-lo.
       - Est doendo muito? - perguntou Serena, ajoelhando-se aos ps dela. - Oh! Maggie... Seria uma pena se voc no pudesse danar amanh.
       - Mas eu vou danar! E danarei a noite toda com Coll.
       - E o tornozelo?
       - No seja boba, no h nada em meu tornozelo! - Para provar o que dizia, Maggie levantou-se e ensaiou uma passo de dana.
       - Voc mentiu para Coll, Margaret MacDonald!
       - Nada disso! - disse ela com audcia e tornou a sentar-se. - Ele sups que eu tivesse torcido o p, mas eu no disse absolutamente nada!
       - Mas voc caiu da escada de propsito!
       - Sim, e no me arrependo.
       Depois de um momento de silncio, Serena respondeu, magoada:
       - Foi um estratagema indigno de voc.
       - No foi um estratagema e no h nada de indigno nisso.
       Maggie sentiu as faces arderem e tornou logo, com calor:
       - Foi a nica maneira de faz-lo perceber que eu preciso de seus cuidados. Os homens no se apaixonam por mulheres auto-suficientes, Serena. Se ele acha que 
eu sou frgil e indefesa, que, mal h nisso?
       Serena lembrou-se do dia em que Brigham empunhara a espada por ela. Se tivesse se mostrado um pouco mais frgil... No! Isso era para Maggie, no para ela.
       - Nenhum, suponho.
       - Um homem tmido precisa de um pequeno empurro. - Maggie ergueu os olhos e fitou-a com ar suplicante. - Voc nos deixaria a ss por um momento?
       - Bem... sim.
       Quando Coll entrou com o copo de gua, Serena levantou-se.
       - Vou ver se Gwen precisa de ajuda.
       Assim que a irm saiu, Coll tomou as mos de Maggie entre as dele. Eram to suaves, to macias...
       - Est doendo muito?
       - No - murmurou ela, saboreando, de plpebras semicerradas, a doura daquele momento. - No precisa se preocupar comigo.
       Ele a devorou com os olhos. Ela lhe lembrava uma linda boneca de porcelana que vira na Itlia. Tinha vontade de toc-la, acaricila, mas temia que suas mos, 
grande e rudes, pudessem machuc-la.
       - Se eu tivesse sido mais rpido...
       Os dedos esguios de Maggie entrelaaram-se ternamente aos dele.
       - Eu era to aborrecida e inspida anos atrs! Sou ainda?
       - No - murmurou Coll roucamente. - Voc  a moa mais linda da Esccia e eu...
       - E voc?
       Ele fitou-lhe os olhos azuis como a noite e, ardente, cingiu-a nos braos.
       - Quer se casar comigo, Maggie?
       - Querido...  o que eu mais quero! - Ela ergueu o rosto para que ele a beijasse. - Voc  tudo para mim.
       E foi assim que Fiona os encontrou, ao entrar no salo, um nos braos do outro, num abandono completo.
       - Coll! Como se atreve?
       Ele voltou-se para ela, irradiando felicidade.
       - Maggie concordou em ser minha esposa! No  maravilhoso, mame?
       Fiona fitou um e outro com os olhos cheios de espanto, e ento suspirou.
       - No posso dizer que seja propriamente uma novidade, mas... acho que  melhor voc no ficar a ss com ela at o dia do casamento.
       - Mame...
       - Largue essa moa, Coll.
       Assim que ele a obedeceu, Fiona estendeu os braos para Maggie, que se encolhera toda diante de seu ar severo.
       - Bem-vinda  famlia, minha querida. Finalmente, meu filho mostrou ter um pouco de bom senso.
       Enquanto terminava de ordenhar, Serena pensou na alegria de Maggie, ao anunciar que ela e Coll iam se casar.
       - Que pensa disso? - perguntou  vaca que ruminava tranqilamente na baia.
       A notcia no era ainda oficial. Sua me insistira para que Coll fizesse antes o pedido a lorde MacDonald, como era de praxe. Mas ningum duvidava que o velho 
lorde, que ia chegar dentro de algumas horas, com outros convidados, concordasse com os esponsais. Maggie estava quase delirante  idia de que o anncio do noivado 
seria feito durante o baile daquela noite.
       Serena sorriu, enquanto erguia os dois baldes. Estava feliz pelos dois. Sua amiga seria uma boa esposa: saberia refrear os impulsos mais exaltados do marido 
e ficaria satisfeita de fiar e coser para um bando de pirralhos. Coll, por sua vez, seria como seu pai: um homem devotado  famlia.
       Quanto a ela prpria, estava mais decidida do que nunca a no se casar. Seria uma pssima esposa. No por ser seca de ternura, ou por no querer filhos. Mas 
porque no via com bons olhos a perspectiva de viver em perptua submisso a um marido autoritrio.
       "E depois, como posso me casar com um homem qualquer, quando estou apaixonada por Brigham?", perguntou-se, enquanto saa da baia. Mesmo sabendo que nunca 
poderia tornar-se parte da vida dele, ou ele parte da sua, isso no mudava o que estava nas profundezas de seu corao.
       Equilibrou os dois baldes e comeou a galgar a costa. O sol comeava a brilhar, derretendo as ltimas neves do inverno. A trilha estava escorregadia, mas 
transitvel para quem, como ela, fazia esse caminho diariamente. Contudo, ia sem pressa. No por precauo, mas porque sua mente estava longe dali.
       No invejava a felicidade de Coll e Maggie. Seria mesquinhez, sem contar que ela os amava demais. Porm, o modo pelo qual sua amiga conseguira realizar seus 
anseios afetivos, simplesmente fazendo-se de frgil, dava-lhe o que pensar.
       Um rudo de botas pisando o solo rochoso interrompeu-lhe os pensamentos. Ergueu os olhos: era Brigham que se dirigia para a estrebaria. Sem pensar, mudou 
de rumo, de modo que seus caminhos se cruzassem. Depois, murmurando um perdo silencioso pelo leite que ia ser derramado, deixou-se escorregar pelo declive lamacento.
       Brigham correu para ela com o rosto fechado.
       - Machucou-se?
       Era uma acusao, no uma pergunta que traduzisse cuidados. Serena ferveu de raiva por dentro, mas procurou representar bem seu papel.
       - No tenho certeza, mas acho que torci o tornozelo.
       - Por que diabo voc tem que andar por a com esses baldes de leite? - Ainda nervoso, ele inclinou-se para examinar-lhe o tornozelo. - Onde est Malcolm, 
ou a desmiolada da Molly?
       - Ordenhar no  tarefa de Malcolm. E Molly est ocupada com os preparativos do baile.
       Sbito, Serena desistiu de parecer frgil ou feminina. O seu amor no deveria depender de tal estratagema.
       - No  nenhuma vergonha ordenhar, lorde Ashburn! Talvez as delicadas damas inglesas de seu crculo social no saibam distinguir o bere de uma vaca de...
       - Isso no tem nada a ver com minhas damas inglesas! As trilhas esto escorregadias e os baldes so pesados demais. Voc est fazendo um trabalho que est 
acima de sua foras.
       Ela empurrou a mo dele com rudeza.
       - Sou to forte quanto o senhor e talvez mais! E  a primeira vez que escorrego nesta trilha!
       Ele olhou-a fixamente e depois balanou a cabea.
       - Teimosa como uma mula!
       Serena sentiu o sangue subir-lhe  cabea.
       Sem uma palavra, apanhou um balde de leite que estava pela metade e lanou-lhe o contedo no rosto. Depois levantou-se, os olhos fuzilando.
       - No h nada melhor para uma delicada pele inglesa do que um pouco de leite morno, my lord!
       Brigham enxugou o leite que lhe escorria do rosto moreno e vociferou:
       - Eu deveria dar-lhe uma surra, sua pirralha malcriada!
       - No quer tentar, Sassenach ?- provocou ela, sem nenhuma ponta de remorso.
       - Serena!
       Seu ar desafiador transformou-se numa expresso submissa, quando o chamado peremptrio de seu pai cortou o ar ainda mido da manh. No havia outra coisa 
a fazer seno abaixar a cabea e esperar o pior.
       - Voc perdeu o juzo? - trovejou Ian, possesso de raiva, quando os alcanou.
       Ela suspirou, resignada.
       - Sim, pai.
       - Foi um acidente - comeou Brigham, conciliador. - Serena escorregou como os dois baldes e...
       - No foi um acidente - retrucou ela, fria e composta. - Eu despejei o balde de leite em lorde Ashburn deliberadamente.
       - Foi o que imaginei! - As feies de Ian pareciam esculpidas em pedras. - Vou me desculpar com lorde Ashburn por seu comportamento deplorvel e prometer-lhe 
que ser castigada. J para casa, moa!
       - Sim, pai.
       Brigham colocou a mo no ombro dela.
       - No posso permitir que Serena leve toda a culpa. Eu a provoquei, tambm deliberadamente. Chamei-a de mula. O insulto foi to infeliz quanto o incidente 
e igualmente explorvel. Voc me faria um favor Ian, se deixasse o assunto morrer.
       MacGregor permaneceu em silncio por um segundo. Depois ordenou, brusco:
       - Leve esse balde de leite para casa, Serena! 
       - Sim, papai.
       Ela lanou um olhar rpido a Brigham, um misto de gratido e frustrao, e ento ps-se a subir a colina.
       - Ela merecia ser castigada por isso - comentou Ian, embora soubesse que, mais tarde, iria rir  lembrana de sua garotinha despejando um balde de leite na 
cabea do jovem ingls.
       - Foi o que eu pensei a princpio. Infelizmente, tenho que admitir que a provoquei. - Brigham soltou um suspiro. - Parece que sua filha e eu somos incapazes 
de manter um convvio civilizado.
       - Era o que eu imaginava.
       - Ela  teimosa, tem um lngua afiada e um temperamento explosivo.
       Ian afagou a barba e sorriu.
       - Serena  uma cruz em meus ombros, Brigham.
       - Seria para qualquer homem, Ian. s vezes, chego a pensar se ela no apareceu em meu caminho para complicar minha vida, ao invs de ilumin-la.
       - Que est querendo dizer?
       Foi somente ento que Brigham percebeu que exprimira seus pensamentos em voz alta.
       - Pretendo casar-me com ela. Com sua permisso, naturalmente.
       Ian sufocou um sorriso.
       - E se eu no der permisso?
       - Eu me casarei com Serena de qualquer modo.
       Era a resposta que Ian esperava, mas, ainda assim, ele hesitou. Queria saber qual era a opinio de sua filha, antes de dar uma resposta.
       - Vou pensar nisso, Brigham. Quando vai partir?
       - Dentro de alguns dias.
       Brigham pensou na carta que recebera de Londres.
       - Lorde George Murray acredita que tenho elementos para convencer os jacobitas ingleses que ainda relutam em dar seu apoio ao prncipe.
       - Pois ter minha resposta quando voltar. No vou negar que ficaria muito feliz em dar-lhe a mo de minha filha. Mas ela tem que estar de acordo. E isso, 
meu rapaz, eu no posso prometer.
       Uma sombra velou os olhos cinzentos de Brigham.
       - Por que sou ingls?
       - Sim, certas feridas demoram muito para cicatrizar.
       Ian sorriu e bateu-lhe amavelmente nas costas. 
       - Voc a chamou de mula, no foi? 
       - Sim, mas devia ter-me afastado depois de provoc-la.
       Ian soltou uma risada sonora e deu-lhe outro tapinha nas costas.
       - Se quer mesmo casar-se com Serena,  melhor que aprenda a esquivar-se!
       Serena estava sentada diante do toucador, onde se enfileiravam os produtos de toalete, tendo atrs de si Maggie que lhe penteava os cabelos.
       - Seus cabelos j so naturalmente encaracolados - observou a amiga, enquanto manejava os ferros de frisar. - Voc nunca vai precisar dormir com papelotes.
       - Eu nunca faria isso. No vejo por que uma mulher deva enfeitar-se tanto para um homem.
       Maggie esboou o sorriso sbio de um mulher apaixonada.
       - Que outros motivos poderia ter uma mulher para enfeitar-se?
       Gwen chegou mais perto, para se mirar no espelho, e depois ensaiou alguns passos de dana, exultante. Seria seu primeiro vestido de gala.
       - Acha que algum vai me tirar para danar, Maggie?
       - Todos os rapazes iro disputar esse privilgio, querida.
       - Talvez algum tente beijar-me...
       - Ter que se haver comigo! - disse Serena com severidade.
       - Voc parece mame! - Gwen riu e afofou os saiotes. - No vou permitir que ningum me beije,  claro. Mas seria maravilhoso se algum tentasse.
       - Continue a dizer bobagens, mocinha, e papai a far esperar mais um ano pelo baile!
       - Gwen est entusiasmada e  natural, sendo o seu primeiro baile - interveio Maggie enquanto, com mos experientes, tranava uma fita verde por entre os cabelos 
da amiga. 
       - Eu tambm estou.
       Ela deu um passo para trs e estudou seu trabalho.
       - Voc est linda, Serena. E ficar ainda mais, se sorrir.
       Serena mostrou os dentes, numa careta.
       - Desse modo, voc vai espantar os rapazes!
       - Tanto melhor. Prefiro v-los pelas costas.        
       - Brigham no teria medo - observou Gwen, com uma ponta de malcia. 
       Serena ergueu o vestido de baile, que estava estendido sobre a cama, e deu de ombros. 
       - No me interessa o que lorde Ashburn possa pensar.
       - Ele  bonito, para quem gosta de homens morenos. - Comentou Maggie. - Mas um tanto cheio de si, no acha?
       - Brigham no  cheio de si - disse Serena com calor. - Ele ...
       Ao ouvir a risadinha de Gwen ela se reprimiu e completou:
       - Ele  grosseiro, aborrecido.. e ingls! Sua irm, porm, no se conteve.
       - Outro dia eu o surpreendi beijando Serena na cozinha.
       Os olhos de Maggie arredondaram-se de espanto.
       - O qu?
       - Gwen! - explodiu Serena, escandalizada. 
       - Podemos confiar em Maggie, no podemos? - A voz de Gwen adquiriu um petulante tom infantil: - Mas como eu ia dizendo, ele estava beijando Serena. Foi to 
romntico... 
       - J chega! No foi romntico, foi...
       Ela quis dizer desagradvel, mas como no sabia mentir, rompeu num lamento quase furioso:
       - Oh! Quem me dera ele me deixasse em paz! Maggie ergueu uma sobrancelha. 
       - Se foi assim to terrvel, por que voc guardou segredo?
       Serena enrubesceu e gaguejou:
       - Porque... no dei nenhuma importncia ao fato.
       Sua amiga reprimiu um sorriso.
       - No se aborrea, Serena. Meu primo Jamie vai estar presente ao baile. Talvez ele lhe agrade mais do que lorde Ashburn.
       
       Quando Brigham conseguiu escapar dos cuidados perfeccionistas de Parkins, estava irritadio, mal-humorado e pouco disposto ao convvio social. Os rumores 
que corriam no s na Inglaterra como na Esccia eram alarmantes, dando conta de que o apoio que o prncipe esperava de seus simpatizantes ingleses no fora irrestrito 
e total, como se esperava.
       Havia ainda a esperana de que, usando de sua prpria influncia, pudesse convencer os indecisos a aderirem  faco dos Stuart. Seria, porm, um misso perigosa. 
No podia prever se teria sucesso ou, caso fosse descoberto, o que seria feito de suas propriedades e de seu ttulo.
       Naquela noite, dezenas de chefes de cls se reuniriam no solar dos MacGregor. As lealdades seriam testadas, os juramentos confirmados. O que veria e ouviria 
ali seria cuidadosamente exposto no clube dos jacobitas, em Londres, com o fato de estimular o esprito combativo dos ingleses leais ao prncipe. Era uma guerra 
que se baseava sobretudo em dis- cursos, em palavras. E, a exemplo de Coll, estava comeando a ficar cansado disso.
       Ao descer a escada, no entanto, era a imagem perfeita de um elegante aristocrata ingls. Nada em seu aspecto, ou em sua expresso, traa as opressivas preocupaes 
que lhe agitavam o esprito.
       - Lorde Ashburn...
       Fiona fez uma reverncia, quando ele entrou no salo. Ela j tomara conhecimento dos sentimentos que o conde nutria por sua filha mais velha. E, mais sensvel 
do que o marido, entendia as desencontradas emoes que Serena devia estar experimentando.
       - Lady MacGregor... A senhora est encantadora.
       Ela sorriu, no deixando de observar que os olhos dele perscrutavam, ansiosos, o salo.
       - Obrigada, my lord. Espero que se divirta esta noite.
       - Posso pedir que me reserve uma dana?
       - Ser um prazer. Mas, antes, permita que eu o apresente aos nossos convidados.
       Fiona pousou a mo no brao dele e deixou que ele a conduzisse pelo salo que, pouco a pouco, enchia-se de uma multido elegantemente trajada. Os homens, 
em sua maioria, usavam saiotes e mantos com as cores de seus cls, formando um belo contraste com os vestidos mais alegres e luxuosos das damas. A doce claridade 
das velas brilhava em brocados de ouro e prata, em veludos preciosos de um azul desmaiado, cor-de-rosa, verde-mar, e incidia sobre os ombros nus, acariciados pela 
brisa dos leques de pluma. Jias cintilavam.
       Era evidente que, naquele canto remoto da Alta Esccia, observava-se a moda francesa to estritamente quanto nos sales de Paris e Londres.
       Brigham foi conduzido de grupo em grupo e apresentado a todos, indistintamente. Mas, enquanto ele sorria para as pessoas, murmurando algumas palavras de cumprimento, 
continuava a esquadrinhar o salo  procura de Serena. Estava determinado a convid-la para a primeira dana e para quantas mais pudesse conseguir.
       - A pequena Mackintosh tem a graa de um elefante - confidenciou-lhe ao ouvido Coll, que chegava sem ser pressentido. - Fique longe dela.
       Brigham arrastou-o para um lado e perguntou-lhe, sorridente:
       - Voc parece bastante satisfeito. Posso saber se sua entrevista com o sr. MacDonald transcorreu como desejava?
       - Pode dar como certo que Maggie e eu estamos casados em maio.
       - Meus cumprimentos! Vou ter que encontrar outro companheiro de noitada.
       Coll apertou-lhe afetuosamente o brao.
       - Gostaria de poder ir a Londres com voc.
       - Seu lugar  aqui. Alm do mais, ser um viagem breve. Voltarei dentro de algumas semanas.
       - Com notcias boas, espero. Quanto a ns, continuaremos a trabalhar pelo prncipe. Mas no esta noite. Esta noite  para celebrar!
       Ele bateu no ombro de Brigham, orgulhoso.
       - A vem a minha Maggie. Se voc quiser danar com algum leve como uma pluma, convide Serena. Ela tem um gnio terrvel, mas sabe danar como ningum.
       Brigham apenas assentiu, enquanto Coll ia ao encontro de sua prometida. Ao lado da frgil e doce Maggie MacDonald, Serena parecia dotada de uma beleza excitante. 
Os cabelos estavam penteados para cima, deixando-lhe a nuca a descoberto, e o vestido verde, de decote quadrado, expunha-lhe a curva delicada dos seios que um colar 
de prolas, com um pendente de esmeraldas, tornava, por esse motivo, ainda mais visvel.
       Envolveu-a num olhar demorado e, quando os acordes de um minueto flutuaram no ar, moveu-se inconscientemente na direo dela.
       - Srta. MacGregor... - murmurou, com uma elegante curvatura. - Pode me conceder a honra desta dana?
       Ela, que tinha vontade de recus-lo, viu-se, sem saber como, estendendo-lhe a mo e, numa espcie de torpor, deslizando para o meio do salo. Sbito, ficou 
com medo de ter esquecido at os passos mais simples. Porm, quando ele sorriu e inclinou-se novamente, ps-se a execut-los com graa cativante, seus ps mal parecendo 
tocar o cho.
       Sonhara com isso certa vez, na clareira do bosque. Agora, seu sonho se transformava em realidade. Efetuou todos os movimentos com tal leveza, que os lbios 
dele entreabriram-se num sorriso de aprovao, quando ela curvou-se at o cho, na reverncia final.
       - Obrigado. - Ele no largou-lhe a mo, como ambos sabiam que era apropriado. - Estava querendo danar com voc desde o instante em que a vi  beira do rio. 
E quando penso nisso, no sei dizer se voc estava mais encantadora de calo ou nesse lindo traje verde.
       - O vestido  de mame - explicou ela e acrescentou: - Quero me desculpar pelo... incidente desta manh.
       Audaciosamente, ele beijou-lhe a mo.
       - No  preciso se desculpar. Voc fez o que achou que devia fazer.
       - Desculpar-me  o mnimo que posso fazer, depois que my lord me salvou da ameaa de um surra.
       - Apenas ameaa?
       - Sim, papai s faz ameaar. Ele nunca ergueu a mo contra mim. Talvez por isso eu seja to impossvel.
       - Esta noite, minha querida, voc  apenas uma mulher bonita.
       Serena corou e abaixou os olhos.
       - No sei o que dizer quando my lord fala desse modo.
       - Oh! Serena...
       - Srta. MacGregor?
       Os dois voltaram-se ao mesmo tempo para o intruso, o jovem filho de um proprietrio de terras das vizinhanas.
       - Quer me dar a honra? - Ele curvou-se, elegante e polido.
       Serena teria preferido esquivar-se, para evitar o tdio que previa, mas sabia quais eram seus deveres. Esboando um sorriso formal, estendeu-lhe graciosamente 
a mo, pensando, cheia de ansiedade, quando voltaria a danar com Brigham.
       Ele no podia manter os olhos longe dela. Sentia uma clera fria, irracional, ao v-la nos braos de outro. Por que sua me permitira que ela usasse um traje 
que a tornava to... deleitvel? E seu pai, como no via que aquele jovem devasso murmurava bobagens encantadoras ao ouvido da filha?
       Imprecou por entre os dentes e recebeu um olhar espantado de Gwen, com quem acabara de danar.
       - Que disse, Brig?
       - Oh... nada. - Ele sorriu e procurou falar com naturalidade. - Est se divertindo?
       Gwen retribuiu o sorriso, desejando secretamente que ele a tirasse novamente para danar.
       - Muito. E voc, Brig, aprecia os bailes e as festas?
       - Em Londres, durante a temporada, no passava dia sem que houvesse algum tipo de entretenimento a que eu era obrigado a comparecer.
       - Eu adoraria conhecer Londres e Paris.
       - Algum dia, algum a levar para conhec-las.
       Ela riu, delicada.
       - Acha mesmo?
       - Sem dvida nenhuma.
       Oferecendo-lhe o brao, Brigham levou-a de novo para o centro do salo. Mas, mesmo ento, seus olhos continuavam fixos em Serena e seu par. Quando a dana 
terminou, quis saber:
       - Quem  esse rapaz que est falando com Serena?
       -  Rob, um dos admiradores dela.
       - Admirador...
       Brigham sentiu como um choque no peito. Tentou falar, sorrir, mas a cena continuava diante de seus olhos. Ento, sem refletir, atravessou o salo com largas 
passadas.
       - Srta. MacGregor... posso falar com a senhora?
       Serena voltou-se para ele, surpresa.
       - Lorde Ashburn! Permita que lhe apresente Rob MacGregor.
       - Seu criado - disse ele, formal. Depois, tomando Serena pelo brao, levou-a sem cerimnia para a alcova mais prxima.
       Com medo de provocar um escndalo, ela no teve outra alternativa seno segui-lo.
       - Por que me trouxe aqui? No v que est chamando a ateno de todos?
       - Pouco importa! Por que permitiu que aquele janota segurasse sua mo?
       - Rob Mac Gregor  um jovem de tima famlia!
       - Que o diabo o leve! - Brigham respirava com tanta dificuldade, que ela pde ouvir um leve sibilar. - Por que ele estava segurando sua mo?
       - Porque eu permiti.
       - Ele no tem nenhum direito a isso, compreendeu?
       - Entenda de uma vez por todas que sou livre de dar a minha mo a quem eu quiser!
       Ele fuzilou-a com o olhar.
       - Pois no torne a fazer isso, se quiser que esse jovem de boa famlia continue a viver!
       Serena tremia da cabea aos ps, mas fez esforo para falar com calma:
       - Vamos acabar com essa conversa. Quero voltar para o meio dos convidados para no ser obrigada a essa troca intil de palavras.
       - Vai voltar para a companhia dele?
       - Se eu quiser.
       - Pois no vai, no - declarou ele, em tom frio e autoritrio. - Esta dana  minha.
       - Quero lembr-lo, lorde Ashburn, que s meu pai pode me dar ordens.
       - Isso vai mudar! - Os dedos dele cerraram-se em torno dos pulsos frgeis. - Quando eu voltar de Londres...
       - Vai a Londres? - A raiva de Serena esvaiu-se no mesmo instante, substituda pela aflio. - Quando?
       - Dentro de dois dias. Tenho que resolver alguns negcios pendentes.
       - E quando pretendia contar-me?
       - Recebi uma mensagem poucos momentos antes do baile. - A voz dele suavizou-se. - Importa-se que eu v?
       - Por que deveria importar-me? - disse ela, num sussurro cansado.
       Ele acariciou-lhe o rosto com ternura.
       - Mas voc est se importando. Leio isso em seus olhos.
       - Engana-se. Para mim, tanto faz que v ou fique!
       - Vou para fortalecer uma aliana de interesses em favor do prncipe.
       - Nesse caso, boa viagem.
       - Eu voltarei, Serena.
       - Voltar, my lord? - Havia um tremor involuntrio na voz de Serena, quase um soluo. - Pois eu duvido!
       Antes que ele pudesse impedi-la, ela afastou-se rapidamente, abrindo caminho por entre os grupos de convidados.
       
       
       
     CAPTULO IX
       
       
       Serena nunca havia se sentido to infeliz em toda a sua vida. "Nem to impaciente e mal-humorada", reconheceu ela, enquanto levava sua gua a pleno galope. 
Como chegara a acreditar, ainda que por um momento mas contra a sua razo, que Brigham pudesse dedicar-lhe um sentimento profundo e duradouro, algo de que se sentisse 
enfim segura?
       Ele estava voltando a Londres, onde residia, para reunir e articular os membros da cabala do prncipe. No duvidava mais que o conde de Ashburn fosse sinceramente 
devotado  causa e que lutaria por isso. Mas lutaria na Inglaterra e pela Inglaterra. E uma vez em seu prprio mundo, no lhe dedicaria um nico pensamento!
       Essa manh, ele fora com seu pai para encontrar-se com outros chefes, no intuito de reanimar os desalentados e encorajar os hesitantes, como tambm presidir 
os arranjos gerais tendentes a colocar a coroa na cabea do pai do prncipe Charles.
       No inverno passado, Lus XV planejara invadir a Inglaterra. Mas a esquadra fora colhida por uma tempestade e a idia de invaso abandonada. De qualquer forma, 
tornara-se claro, desde ento, que o rei apoiaria o prncipe porque desejava ver no trono ingls um monarca que dependesse da Frana. Como era claro que Charles 
se valeria de todo o apoio dele, ou de outro grupo qualquer, para conquistar o lugar que era seu por direito.
       Brigham ia voltar a Londres e mover cus e terra pelo jovem prncipe. Fazia-se necessrio, agora mais do que nunca, arregimentar os jacobitas ingleses para 
a campanha dos Stuart. Charles no era como James, seu pai. No ficaria satisfeito em passar sua juventude nas cortes estrangeiras.
       Quando chegasse o momento da rebelio, Brigham lutaria ao lado dele. Mas voltaria para a Alta Esccia? E, sobretudo, voltaria para ela? No acreditava. Um 
homem no deixava seu lar, seu pas, por sua amada. Ele a desejava, mas ela j sabia como eram instveis os desejos de um homem.
       Para ela, no entanto, no era apenas desejo, era amor. Seu primeiro, seu nico amor. No amava seno a ele. Nunca amaria seno a ele. Mas, agora, esse a quem 
daria toda a sua alma preparava-se para partir.
       Se ficasse, no entanto, que diferena faria? Os livros haviam lhe ensinado que o amor no representava necessariamente tudo. Romeu e Julieta. Tristo e Isolda. 
Lancelote e Guinevra. Serena MacGregor no era fraca como a rainha da Tvola Redonda nem doce e romntica como Julieta. Ela era uma escocesa de sangue quente e esprito 
indomvel!
       Alm disso, havia um fato que no podia ignorar, agora ou jamais. Brigham estaria sempre ligado  Inglaterra e ela  Esccia. Assim, era melhor que ele fosse 
embora. Para nunca mais voltar!
       - Serena!
       Ela voltou a cabea e o viu chegar a toda velocidade. Amaldioando o destino, esporeou os flancos de sua montaria e a impeliu para o lago, esperando deix-lo 
para trs. Contava ladear a margem, tomar o caminho das colinas e penetrar no campo agreste, onde Brigham nunca seria capaz de alcan-la. Mas ele conseguiu colocar-se 
a seu lado e agarrar-lhe a gua pelas rdeas, obrigando-a diminuir a velocidade.
       - Calma, mulher! Que bicho a mordeu? 
       - Eu o odeio e quero que v para o diabo! 
       - No me importo com isso.
       Enquanto governava o cavalo com a graa e a desenvoltura que lhe eram habituais, ele estudou-lhe o rosto.
       - Voc est chorando. Algum a magoou? 
       - V embora! Eu vim aqui para ficar sozinha. 
       Ela estava chorando, embora negasse o fato. Brigham queria tom-la nos braos e confort-la, mas sabia qual seria sua reao.
       - Vou partir amanh ao amanhecer, Serena. E h coisas que quero contar a voc em primeiro lugar.
       - Diga, ento. E depois v para Londres ou para o inferno!
       A fisionomia de Brigham no se alterou.
       - Vamos desmontar?
       - Faa o que quiser!
       Ele saltou ao cho e, depois de amarrar os dois cavalos numa rvore, estendeu os braos para ajud-la.
       - No quero sua ajuda!
       - Pois eu lhe digo que vai querer.
       - Ser um ato de violncia!
       - Verdade?
       Ato contnuo, ele arrancou-a da sela  fora e a colocou no cho.
       - Sente-se.
       - No!
       - Sente-se! - repetiu ele, comeando a perder a pacincia.
       - Est bem. Sobre o que quer conversar, my lord?
       - Voc torna tudo to difcil... Tenho vontade de estrangul-la!
       Ela sorriu, irnica.
       - Devo lhe dizer, lorde Ashburn, que depois que chegou a minha casa fiquei conhecendo melhor as maneiras inglesas.
       - No h limites para a sua insolncia, no ? - Brigham fixou-a com uma frieza que a gelou. - Sou ingls e no me envergonho disso!
       Ele fez um esforo sobre-humano para controlar-se.
       - Agora oua. No h nada em minha linhagem que me faa corar. Pelo contrrio, os Langston so uma antiga e respeitvel famlia e eu me orgulho muito dela. 
Portanto, pare com seus insultos e ironias!
       - No era sua famlia que eu pretendia insultar, my lord.
       - Era a mim, ento? Ou talvez a toda a Inglaterra?
       Ela fez meno de falar, mas Brigham agarrou-a pelos ombros com ar to ameaador que a obrigou a manter silncio.
       - Sei o que seu cl sofreu. Sei que o nome MacGregor ainda est proscrito e que muitos de vocs so obrigados a adotar outros.  uma crueldade que perdurou 
tempo demais. Mas no fui eu que os persegui nem a maioria dos ingleses - concluiu ele, apertando-lhe ainda mais os ombros.
       - Que pensa que eu sou? - queixou-se ela. - Est me machucando!
       Ele a largou de repente e disse com voz fria: - Perdo, madame.
       Serena, subitamente, caiu em si. Havia apenas uma coisa a fazer: apresentar desculpas pela sua grosseria.
       - Sou eu que lhe devo desculpas. Voc tem razo. No  justo culp-lo pelas coisas que aconteceram antes que tivssemos nascido. No  justo culp-lo porque 
alguns drages ingleses abusaram de minha me, ou porque jogaram meu pai numa priso durante um ano, para que a desonra no fosse vingada.
       Ela fez uma pausa e depois acrescentou, baixando os olhos.
       - Sei que no tem culpa de nada, mas  que... estou com medo.
       - Do qu? - perguntou Brigham em tom mais brando.
       Ela retraiu-se, mas ele a obrigou a encar-lo.
       - Fale!
       - Deixe-me ficar sozinha, my lord.
       - Quero uma resposta, Serena. Do que voc tem medo?
       Ela hesitou um instante, antes de responder:
       - De esquecer quem voc .
       - Isso importa?
       Pela expresso de Brigham, ela percebeu que, fosse qual fosse a resposta, seu destino estava selado.
       - Sim, importa.
       - Pois eu acho que no.
       Antes que Serena pudesse retrucar, ele a puxou para si, abraando-a com fora. Ela debateu-se furiosamente, at que os lbios dele encontraram os seus. A 
partir da, uma grande sensao de abandono invadiu-a, anulando qualquer possibilidade de resistncia. Com um gemido sufocado, moldou o corpo ao dele e correspondeu-lhe 
aos beijos com uma lentido deliciosa. 
       - Oh, Brig, no quero que v embora! 
       Ele se afastou um pouco para olh-la. 
       - Eu voltarei. Trs semanas, quatro no mximo, e estarei de volta. 
       - Voltar?
       - Sim, voltarei. No acredita em mim?
       Serena acariciou-lhe ternamente o rosto. Se isso era amor, por que doa tanto? Por que no lhe trazia a felicidade e a alegria que vira nos olhos de Maggie?
       - No acredito que voltar para mim. Mas no quero falar sobre isso agora.
       - Ento vamos falar de outras coisas.
       - No, no falaremos nada. - Devagar, ela comeou a desabotoar o casaco. 
       - Que est fazendo?
       Em resposta, ela deixou o casaco escorregar pelos ombros, pondo  mostra o fino corpete rseo, sob o qual se desenhavam os seios pequenos e redondos.
       - O que ns dois queremos.
       Ele juntou-lhe as mos e olhou-a com infinita tristeza.
       - No assim, Serena. No  justo para voc. 
       - Por que no? - ela perguntou ofegante. 
       - H coisas que no precisam ser ditas. 
       - Quero que me tome nos braos e que me faa sonhar. Voc no quer?
       Ele a abraou docemente e, procurando-lhe os lbios, deu-lhe um longo beijo na boca.
       - No h nada no mundo que eu queira mais. 
       - Ento me faa sua. D-me algo de si mesmo, antes de ir embora.
       Ela lhe tomou a mo e pressionou os lbios quentes e macios na palma.
       - Mostre-me o que  ser amada, Brigham. 
       - Serena... No sei o que dizer. 
       Ela exasperou-se.
       - Voc vai embora amanh!
       - Eu no iria, se tivesse o poder da deciso. 
       - Mas ir! E eu quero ser sua antes disso. 
       Brigham ergueu-lhe o rosto e fitou-a nos olhos. 
       - Tem certeza?
       Ela esboou um sorriso e colocou-lhe a mo sobre seu corao.
       - Sinta como ele bate depressa.  sempre assim, quando estou perto de voc.
       - Voc est gelada - disse ele, aconchegando-a nos braos.
       - Pegue a manta de meu cavalo. Podemos estend-la ao sol. Ficaremos bem aquecidos.
       Ele a apertou nos braos e cobriu-lhe as plpebras de beijos.
       - No tenha receio. No vou mago-la.
       Serena confiava nele. Tinha certeza de que seria gentil e cuidadoso. Estava escrito em seus olhos, enquanto a fitavam com ternura e em seus lbios, enquanto 
deslizavam sobre seus ombros nus. E em suas mos, enquanto se punham a acarici-la, transmitindo calor e um desvelo infinito.
       Por um momento sem fim, abandonou-se, enlanguescida, s sensaes provocadas por aquele contato mgico. Depois, adquirindo confiana, devolveu-lhe as carcias, 
correndo os dedos pelo contorno daquela boca sensual, que tinha tanto poder sobre os seus sentidos.
       Quando se ajoelharam um diante do outro, com o sol a aquec-los, soube que se entregava no cegamente, mas com a confiante certeza de que quando se separassem, 
teriam a alma cheia de recordaes.
       Brigham olhou-a, deslumbrado. Ela nunca lhe parecera to linda, com os olhos brilhantes sob as plpebras e as faces coradas pelo prazer. Sentiu um assomo 
de ternura. Seria delicado com ela.
       Embora dispusesse de pouco tempo, agiu como se aquele instante fosse durar para sempre. Acariciou-a lenta, suavemente, sentindo que aos poucos a paixo se 
apoderava do corpo delicado.
       Quando Serena deslizou as palmas macias para dentro de seu colete, os dedos tmidos lutando com os botes da camisa, acompanhou-lhe os gestos, achando insuportavelmente 
excitante ser despido por mos to inexperientes. Era quase uma tortura, mas tinha de se controlar. E no apenas por causa da inocncia de Serena, mas por si prprio. 
Queria gravar na memria cada instante, cada carcia que compartilhavam. Para sempre.
       Ainda ajoelhada, Serena tirou-lhe a camisa e depois seguiu o contorno da cintura quase medrosamente. O corpo dele era to moreno quanto seu rosto, um corpo 
musculoso, forte e firme, em perfeita harmonia com sua personalidade altiva e resoluta. No teria imaginado que um homem pudesse ser to bonito!
       Quando ele lhe beijou os seios, ela fechou os olhos e caiu arquejante sobre a manta, perdida na tenso sensual que fazia todos os seus nervos vibrarem em 
sucessivas ondas de prazer.
       Brigham enlaou-a e deslizou a mo pelo ventre liso de Serena at alcanar os plos dourados entre as coxas. Ento, com o cuidado de um homem experiente, 
curvou-se para beijar-lhe delicadamente o sexo.
       Quando a sentiu despertar para a volpia, teve que lutar consigo mesmo para no possu-la nesse instante. Porm, era preciso inici-la para o amor de modo 
correto e satisfatrio, continuando a excit-la e fazendo-a chegar  beira do xtase, antes de torn-la sua.
       - Sonhei tanto com esse instante, querida!
       - Quero voc, Brigham.
       - Voc me ter, amor. No seu devido momento. Antes disso, quero oferecer-lhe muito mais.
       Ela quis dizer que era impossvel. Seu corpo parecia saciado. Mas quando ele tornou a beij-la, sentiu-se arrebatada por uma onda de volpia to intensa, 
que pensou que iria desfalecer. Abandonando-se por completo quele apelo ardente, mergulhou com ele num mundo de puro prazer.
       Ao perceber que Serena estava  beira do xtase, Brigham apartou-lhe as coxas e, com cuidado, penetrou-a. Ao ouvi-la soltar um grito abafado, selou-lhe a 
boca com um beijo profundo e demorado. Quando a sentiu mais descontrada, soergueu o corpo e comeou a movimentar-se lenta e compassadamente.
       Serena tinha a impresso de que as emoes iriam lev-la ao desvario. Instintivamente, ergueu-se um pouco para amoldar-se melhor a ele, e o acompanhou em 
seu ardor.
       No pensou mais em nada, abandonando-se completamente  torrente de paixo que a conduziu a um mundo de indizvel prazer.
       Quando abriu os olhos, as sombras alongavam-se, a luz era menos intensa e o azul do cu mais profundo. Perdera toda a noo de tempo. Sabia apenas que o sol 
comeava a declinar no horizonte e que os pssaros silenciavam, recolhidos a seus abrigos no bosque.
       Porm, experimentava tal sensao de conforto nos braos de Brigham, que preferiu prolongar um pouco mais aquele instante de encantamento. Era quase impossvel 
acreditar, se tornasse a fechar os olhos e no pensasse em nada, que a poltica ou a guerra no iria separ-los jamais.
       - Eu te amo, Serena.
       Ela o fitou e sorriu.
       - Eu tambm te amo. E gostaria que pudssemos ficar juntos para sempre.
       - Ser assim. Em breve.
       Ela ergueu-se para apanhar o corpete e nada disse.
       - Duvida?
       - Eu sei que voc me ama e que gostaria que fosse assim. E sei tambm que o amor que me deu esta tarde nunca ser compartilhado com mais ningum.
       - Mas no acredita que voltarei,  isso? - perguntou ele, amargo, enquanto comeava a vestir-se.
       Serena tomou-lhe a mo. Ela no estava arrependida de nada e queria que ele soubesse disso.
       - Acho que se voltar, voltar pelo bem do prncipe. E  justo que seja assim.
       Brigham olhou-a com uma profunda tristeza.
       - Ser que no me conhece? Acha que o que aconteceu entre ns j estar esquecido quando eu chegar a Londres?
       - No. Acredito que esses momentos sero lembrados para sempre. Quando formos velhos...
       Essa resposta enfureceu-o.
       - No h meio de faz-la compreender que disse a verdade?
       Ela fez meno de falar, mas ele a impediu com um gesto.
       - Voltarei a Esccia e por sua causa. No se esquea disso. E quando a guerra terminar, eu a levarei comigo para Londres.
       - Seria impossvel! No pensa na vergonha que se abateria sobre minha famlia se...
       Ele a interrompeu:
       - No entendo por que o fato de levar minha esposa a Londres possa envergonhar sua famlia!
       - Sua... esposa? - Ela o fitou, boquiaberta.
       - Est falando em... casamento?
       - Casamento, sim! Que estava pensando? 
       Ento, ele compreendeu o motivo da insegurana dela e a clera transformou-se em piedade.
       - Foi por isso que pediu tempo para pensar, na ltima vez que estivemos juntos? - A risada dele foi sem alegria. - Que belo julgamento voc faz de mim, Serena!
       - Eu... - Ela deixou-se cair sentada numa rocha. - Eu pensei... Os homens preferem ter amantes a...
       - S uma pequena doida poderia supor que eu estava lhe oferecendo outra coisa, a no ser meu corao e meu nome!
       - Como poderia saber que estava falando de casamento? Voc nunca me disse nada!
       - J falei a esse respeito com seu pai.
       - Falou com meu pai? - disse ela, medindo cada palavra. - Falou com meu pai sem ao menos me consultar?
       - Nesses casos, a etiqueta exige que se pea a permisso dos pais.
       - Para o inferno as formalidades! - Ela apanhou a manta e dobrou-a. - Voc no tinha o direito de tomar a iniciativa sem antes falar comigo.
       Ele o olhou com intensidade.
       - Acho que lhe disse mais de uma vez que te amo, Serena.
       Ela corou e foi jogar a manta sobre o dorso do cavalo.
       - No sou to ingnua a ponto de no perceber que, depois do que aconteceu entre ns, dificilmente haver casamento.
       Ele a agarrou pelo brao e a fez voltar-se.
       - Acha ento que sou um vil sedutor, que adapta seus projetos s circunstncias e trama de acordo com os acontecimentos? E minha promessa de casamento? Foi 
igualmente calculada?
       - No sei o que se passa em sua cabea.
       - Pois ento saiba que eu quero que seja minha esposa!
       - O senhor" quer. Mas quem lhe disse que eu quero? No estamos na Inglaterra, my lord!
       - Mentiu, quando disse que me ama?
       - No, mas...
       Ele a trouxe para mais perto de si e cobriu-lhe os lbios com um beijo que sufocou-lhe os protestos. Depois disse:
       - Ento voc mente, quando afirma que no quer ser minha esposa!
       - Como posso deixar a Esccia para acompanh-lo  Inglaterra? - ela perguntou desesperada.
       - Ento  isso...
       - Precisa compreender que eu no quero tornar-me a esposa de um conde!
       - De um conde ingls - corrigiu ele. - Afinal, voc  filha de um lorde.
       - Isso no  suficiente. Voc mesmo me disse, e mais de uma vez, que no sou uma dama.
       - Quero que seja minha esposa, no uma dama!
       - No!
       - No ter outra escolha, quando eu disser a seu pai que a comprometi.
       Serena ficou transtornada. - Voc no se atreveria!
       - Sim, eu me atreveria - disse ele tristemente. 
       - Eu o mataria!
       - Acredito que seu pai no seja to sedento de sangue quanto voc.
       Antes que ela pudesse retrucar, ele a ergueu do cho e colocou  fora sobre  garupa do cavalo.
       - J que se recusa a casar comigo porque me ama, ento ir casar-se comigo porque ser obrigada a isso!
       - Preferia casar-me com uma mula de duas cabeas!
       Ele montou seu cavalo e fez meia volta. 
       - Mas se casar comigo, querida. De bom ou mau grado. Durante minha ausncia, ter tempo para pensar sobre o assunto. Quando voltar, eu falarei com seu pai 
e tomarei as necessrias providncias.
       Serena lanou-lhe um olhar furioso e esporeou o cavalo. Esperava que ele quebrasse o pescoo, durante essa viagem a Londres!
       Mas no dia seguinte,  hora de sua partida, ela virou-se de bruos na cama e, abraando o travesseiro, chorou at esgotar todas as lgrimas.
       
       
       
     CAPTULO X
       
       
       De p junto  janela, Brigham olhava para a elegante multido que transitava pela avenida. Fazia seis semanas que se encontrava em Londres. A primavera estava 
agora no auge e seu jardim, um dos mais lindos da cidade, exibia impecveis gramados e canteiros repletos de flores fragrantes.
       A chuva amena, que cara quase incessantemente desde o princpio de abril, havia sido substituda pelos ventos vindos do sul. Os dias eram dourados, estimulando 
as mulheres bonitas a usarem leves vestidos de seda e chapus emplumados, e a passearem nos parques. Diariamente, havia bailes e reunies, jogos de cartas e recepes 
matinais. Um homem, de boa condio social e que dispusesse de uma bolsa recheada de ouro, poderia desfrutar de uma vida confortvel, com poucos inconvenientes e 
muitas satisfaes.
       Gostava da atmosfera suave de Londres, cidade onde nascera e se criara, e onde tudo lhe era familiar. Apesar disso, sentia que seu corao no estava mais 
ali, mas na Esccia. E perguntava-se como seria a primavera em Glenroe e se Serena estaria sentindo sua falta.
       Se dependesse dele, j teria voltado para l. Mas seu trabalho em favor de Charles estava tomando mais tempo do que o previsto. As coisas no estavam marchando 
como imaginara. Os jacobitas ingleses eram numerosos, mas poucos dentre eles se animavam a erguer a espada por um prncipe inexperiente.
       A conselho de lorde George, falara com vrios grupos influentes, no s para dar-lhes uma idia da disposio de nimo dos cls da Alta Esccia, mas tambm 
para transmitir-lhe todas as informaes que recebia do prprio prncipe.
       Fora a Manchester e mantivera conluios secretos com membros de sua faco poltica. Mas era arriscado. O governo estava alerta agora que os rumores de uma 
guerra com a Frana corriam soltos pelo pas. Os simpatizantes dos Stuart e seus partidrios ativos seriam acusados de traio e encarcerados, se descobertos. Isso 
na melhor das hipteses. Lembranas de execues pblicas e deportaes permaneciam frescas na memria de todos.
       Aps seis semanas, tinha a esperana, mas apenas isso, de que se o prncipe Charles pudesse agir rapidamente e dar incio  sua campanha, seus seguidores 
ingleses cerrariam fileiras em torno dele. Pedir que lutassem por algo to vago quanto uma causa, quando isso significava arriscar nome, fortuna e tambm a vida, 
no os comoveria de modo algum.
       Voltando-se da janela, ele estudou o retrato da av. Sua deciso j estava tomada havia anos, quando era ainda um menino e ouvia histrias de reis exilados 
e de lutas por justia. No trocaria por outros os ideais que herdara de seus antepassados.
       Mas no tinha remdio seno partir, e sem alcanar coisa alguma. O governo tinha meios de descobrir quem conspirava contra o rei da Inglaterra. At aquele 
momento, seu nome o mantivera acima de qualquer suspeita. Porm, isso podia no durar para sempre. Principalmente agora que a guerra com a Frana parecia outra vez 
inevitvel, assim como uma nova revolta jacobita.
       " mais prudente desaparecer de cena", pensou, enquanto revolvia os carves do fogo que se extinguia. Partiria sozinho, encoberto pelas sombras da noite. 
Quando voltasse a Londres, traria Serena consigo. Juntos se estabeleceriam no solar de seus ancestrais, brindando ao legtimo rei e a seu regente.
       Iria voltar  Esccia pelo prncipe, como ela dissera. Mas tambm para reivindicar o que era seu. Ali, teria que travar outra batalha, talvez mais importante 
do que aquela pela causa dos Stuart. E estava determinado a vencer.
       
       Horas depois, naquela mesma tarde, enquanto se preparava para outra noitada no clube, seu velho mordomo bateu-lhe  porta dos aposentos.
       - Sim?
       - Queira me desculpar, my lord. O conde de Whitesmouth quer falar com o senhor. Parece que  um assunto, de certa urgncia.
       - Nesse caso, mande-o subir.
       Segundos depois, o conde de Whitesmouth, um homem baixo, de rosto redondo e juvenil aparecia no limiar.
       - Brig...
       Brigham fez um sinal a Parkins.
       - Pode ir, agora.
       Depois que o criado se retirou, ele caminhou para uma mesa e encheu duas taas de vinho.
       - Entre, Johnny, e diga-me o que aconteceu.
       Seu amigo aceitou a taa que ele lhe oferecia e esvaziou o contedo de um trago.
       - Temos problemas - disse ento, deixando-se cair numa cadeira.
       - De que natureza?
       - Miltway, aquele cabea oca, embriagou-se na casa de sua amante e falou demais.
       - Ele citou nomes?
       - No temos certeza, mas parece que sim. E, nessas circunstncias, o seu  o mais bvio.
       Nenhuma emoo se revelou nos olhos calmos de Brigham.
       - A amante dele no  aquela danarina ruiva?
       - Ela sabe um bocado de coisas, Brig. Aquele jovem idiota tem mais dinheiro do que crebro!
       - Ela ficar de boca fechada se lhe dermos uma boa recompensa?
       - Tarde demais. Foi por isso que vim at aqui. Ela j passou algumas informaes a nossos inimigos. Suficientes para que Miltway fosse preso.
       - Pobre imbecil!
       - Nossos companheiros acham que voc ser interrogado, Brig. E se descobrirem algo que o incrimine...
       - No sou to tolo quanto Miltway. 
       - Brigham fez uma pausa. 
       - E voc, Johnny, tem a necessria cobertura?
       - Negcios urgentes exigem minha presena no campo. 
       - O conde de Whitesmouth sorriu. 
       - Para todos os efeitos, j estou a caminho de minha propriedade.
       - timo.
       O jovem conde serviu-se de mais vinho.
       - O que pretende fazer?
       - Vou partir para a Esccia esta noite. 
       - Essa partida sbita pode parecer suspeita. Est pronto para justific-la? 
       - Estou cansado de simular.
       - Nesse caso, desejo-lhe uma boa viagem.
       Brigham sentiu-se tocado com a sua nobre cortesia.
       - Voc se arriscou muito, vindo avisar-me. Fico-lhe grato por isso.
       - Obrigado, mas no perca tempo.
       - Apenas o suficiente para me preparar. Voc falou com mais algum sobre a indiscrio de Miltway?
       - No. Achei que seria melhor vir diretamente a sua casa.
       Brigham assentiu.
       - Fez bem. Passarei algumas horas no clube, como tinha planejado, para saber se os rumores j comearam a circular. Quanto a voc, far melhor saindo de Londres 
antes que algum perceba que no est a caminho de sua propriedade.
       Whitesmouth levantou-se e pegou o chapu.
       - Um conselho, Brig. No subestime Cumberland, o filho do Prncipe-Eleitor. Ele  jovem, mas extremamente ambicioso.
       
       No clube, Brigham foi calorosamente cumprimentado e convidado a reunir-se aos jogadores de cartas ou dados. Com o pretexto de tomar uma taa de vinho em companhia 
do visconde Leighton, ele desculpou-se polidamente e dirigiu-se para junto da lareira, onde seu amigo o aguardava.
       - No quer tentar a sorte, Ashburn?
       - No nas cartas, Leighton. E no esta noite, perfeita para uma viagem ao campo.
       Leighton manteve os olhos estudadamente fixos no borgonha.
       - H notcias de tempestade ao norte.
       - Tenho pressentimento de que, breve, haver uma tempestade aqui.
       Brigham aproveitou o instante em que as vozes dos jogadores tornaram-se mais altas e inclinou-se para frente.
       - Miltway fez confidncias comprometedoras  sua amante e foi preso.
       Leighton imprecou algo entre os dentes e depois levantou os olhos.
       - Ele falou muito?
       - Ningum tem certeza, mas precisamos avisar alguns companheiros.
       O rosto astuto do visconde abriu-se num sorriso irnico.
       - Considere essa misso cumprida, meu caro. Deseja companhia, para a viagem?
       Brigham ficou tentado a dizer sim. O visconde Leighton, com seus coletes de brocado cor-de-rosa e mos perfumadas, dava a impresso de um perfeito dndi. 
Mas no havia outro companheiro de armas melhor do que ele.
       - No momento, no. Obrigado.
       - Nesse caso, vamos brindar a dias melhores. Enquanto erguia a taa, Leighton lanou um olhar aborrecido  mesa mais prxima.
       - Temos que mudar de clube, meu caro Ashburn. Este estabelecimento est abrindo suas portas a pessoas de todas as categorias.
       Brigham olhou para o grupo de jogadores, reconhecendo o homem que estava  banca e boa parte dos outros. Mas havia um homem magro debruado sobre a mesa que 
parecia no estar aceitando sua m sorte de maneira polida, como convinha a um cavalheiro.
       - No o conheo - disse, tomando um gole de vinho.
       - Eu j tive esse duvidoso prazer. O sujeito  um oficial que, em breve, ir terar armas com os franceses. Parece, no entanto, que ele no  mais o favorito 
de nossas damas, apesar da imagem romntica que procura passar de si mesmo.
       Brigham riu e preparou-se para partir.
       - Devido, talvez,  sua falta de educao.
       - Devido ao tratamento que ele dispensou a Alice Beesley, quando essa jovem teve a infeliz idia de tornar-se sua amante.
       - A encantadora sra. Beesley no se distingue pela inteligncia mas, pelo que me disseram,  uma mulher bastante amvel.
       - Evidentemente, Standish no a achou to amvel, pois a fez experimentar a fora de seu chicote.
       Brigham no conseguiu evitar a expresso de profunda indignao.
       - O homem deve ser um louco ou... - Ele interrompeu-se bruscamente. 
       - Voc disse... Standish?
       - Sim. Coronel, acredito. Ele granjeou uma pssima reputao durante o escndalo que envolveu Porteous, em 1735. Parece que ele sentia prazer em saquear e 
queimar aldeias e que isso valeu-lhe uma promoo.
       - Ele devia ser capito em 1735 - observou Brigham, pensativo.
       - Possivelmente. - Um brilho de interesse iluminou os olhos de Leighton. - Voc o conhece, afinal?
       - De nome... e a fama - murmurou Brigham, lembrando-se de ter ouvido Coll dizer que o capito Standish era responsvel pela violao de sua me, pelas casas 
queimadas e pela morte dos seareiros indefesos. 
       - Acho que chegou a hora de nos conhecermos melhor. Sabe, Leighton, vou tentar a sorte, como voc me sugeriu.
       - Est ficando tarde, Ashburn. Brigham sorriu.
       - Algumas horas a mais no faro diferena.
       No lhe foi difcil entrar no jogo. Menos de vinte minutos depois, ajudado por sua boa sorte, ele j comprara a banca, ao passo que o coronel amargava uma 
perda considervel. Por volta da meia-noite, quando havia apenas trs jogadores  mesa, fez um sinal ao criado que servisse mais vinho e, deliberadamente, acompanhou 
Standish na bebida. Pretendia matar o homem em igualdade de condies.
       - Parece que os dados no o esto favorecendo, coronel.
       - Ou o esto favorecendo demais!
       As palavras de Standish eram ditadas no s por influncia da bebida, mas tambm da amargura. Tudo conspirava para exclu-lo das mais simples e das mais necessrias 
dentre todas as satisfaes da existncia. Estava a zero... falido mesmo de esperana. Contava obter os favores de uma jovem dama, coisa que lhe permitia alimentar 
seu gosto pelo jogo e conquistar um lugar na sociedade, mas essa confiana morrera naquela tarde. Estava certo de que fora obra de Beesley, aquela vagabunda!
       Sacudindo raivosamente a caixa de couro, Standish atirou os dados e tornou a perder.
       -  uma pena. - Brigham sorriu e tomou mais um gole de vinho.
       - No me importo de perder - resmungou o oficial.
       - Espero que no considere falta de patriotismo de minha parte vencer um drago do rei. Mas, aqui, somos apenas homens comuns.
       - E estamos aqui para jogar, no para falar! - completou Standish com rudeza.
       - Num clube de "cavalheiros", fazemos ambas as coisas. Mas, talvez, o coronel no tenha tempo para freqent-los.
       O rosto de Standish ficou rubro. Ele no tinha certeza, mas achava que havia sido insultado.
       - Passo a maior parte de meu tempo lutando pelo rei, no vadiando nos clubes!
       - Naturalmente. - Brigham jogou e venceu. - Isso explica por que o senhor no tem traquejo para os jogos de azar.
       - O senhor parece ter traquejo demais, my lord. Os dados favoreceram-no desde o instante em que sentou-se a esta mesa.
       - Verdade? - Brigham lanou um olhar de cumplicidade a Leighton, postado a seu lado. - No reparei.
       - O senhor reparou, sim! E isso est me parecendo mais do que sorte!
       Um silncio tenso seguiu-se a essa observao.
       - Talvez o senhor queira se explicar melhor - disse Brigham, depois de alguns segundos.
       Standish perdera e bebera alm da conta. Olhou para Brigham e odiou-o por ser o que ele no era: nobre e rico. Perdendo toda a prudncia, disse em alto e 
bom som:
       - Prove-me que esses dados no esto viciados!
       O silncio transformou-se em murmrios. Algum disse:
       - No lhe d ateno, Ashburn. Ele est embriagado.
       Brigham inclinou-se para a frente, sorrindo. 
       - Est embriagado, Standish?
       O coronel lanou um olhar  sua volta. Todos estavam contra ele porque chicoteara uma vagabunda. "Gostaria de chicotear a todos"!, pensou, esvaziando o copo.
       - Estou suficientemente sbrio para saber que os dados no podem cair sempre a favor de um nico homem!
       - Pois vamos quebr-los! - Brigham fez um sinal ao proprietrio do clube. - Traga um martelo, por favor.
       Houve um coro de protestos. Brigham ignorou-os e conservou os olhos cravados em Standish. E gostou de ver que a testa do coronel estava perlada de suor.
       O proprietrio do clube voltou com o martelo, como lhe fora ordenado, desmanchandose em mesuras:
       - My lord, eu o imploro para no agir impulsivamente. No  necessrio.
       - Pois eu lhe asseguro que  necessrio. Quebre os dados.
       Segundos depois, Standish olhava para os fragmentos que estavam sobre o pano verde. "Foi um estratagema", pensou, empalidecendo. De algum modo, aqueles bastardos 
o haviam logrado. Queria v-los todos mortos, esses aristocratas de maneiras delicadas e vozes suaves!
       - O senhor est embriagado, coronel - disse Brigham, lanando-lhe ao rosto o contedo de seu copo.
       Standish levantou-se da mesa, o vinho escorrendo-lhe do rosto magro. A bebida e a humilhao haviam feito seu trabalho. Ele teria arrancado a espada da bainha 
ali mesmo, se os outros no o tivessem segurado pelo brao.
       - Eu o espero  entrada da cidade, entre quatro e cinco horas da manh! Veremos, ento, se sabe manejar to bem a espada quanto os dados!
       - Como quiser, senhor. - Brigham virou-se para o visconde. - Meu caro Leighton, peolhe que seja meu padrinho.
       
       Um pouco antes do amanhecer, um grupo de homens de negro encontrava-se no descampado que orlava a cidade. A nvoa se desprendia do cho, aumentando o ar de 
abandono do lugar ermo sob a luz fria e distante da estrela matutina.
       Leighton deixou escapar um suspiro, enquanto observava o amigo.
       - Suponho que voc tenha suas razes para essa loucura.
       - Sim, tenho.
       O visconde olhou para o cu, que o sol nascente tingia de rosa, e franziu os cenhos.
       - Fortes suficientes para atrasar sua viagem?
       Brigham pensou em Serena e na expresso de seu lindo rosto, enquanto falava do abuso que sua me sofrera. Pensou em Fiona, to frgil e delicada, e confirmou:
       - Sim, muito fortes.
       - O homem  um canalha. Mas isso no me parece uma razo para estarmos aqui, a estas horas da manh. Porm, se acha que  seu dever, estou do seu lado. Pretende 
mat-lo?
       - Sim, pretendo.
       - Seja rpido, ento. No quero me atrasar para o caf da manh.
       Dito isto, Leighton foi conferenciar com o padrinho de Standish, um jovem oficial que estava plido e excitado  idia de assistir a um duelo.
       Depois que as armas foram examinadas e julgadas aceitveis, Brigham apanhou uma delas e sopesou-a cuidadosamente. Standish, de sua parte, estava pronto e 
quase ansioso. No tinha dvida de que acabaria com o jovem pedante, e que voltaria para a caserna em triunfo!
       Cumprimentaram-se como era de praxe, tocando as lminas. Depois, tomaram posio, rompendo a quietude do campo com o retinido das armas. Brigham mediu cuidadosamente 
seu adversrio e, afastando Serena da mente, enfrentou-o com habilidade e preciso de gestos. O homem tinha experincia e sabia guardar-se, mas seu estilo era agressivo 
demais.
       - O senhor  hbil no manejo da espada, coronel. Meus cumprimentos.
       - Hbil suficiente para espetar seu corao, Ashburn!
       - Veremos - As lminas tocaram-se uma, duas, trs vezes. - Mas o senhor no precisou de uma espada para violentar lady MacGregor.
       Estas palavras romperam a concentrao de Standish. Mas anos de treinamento somados a um forte instinto de conservao levaram a melhor, fazendo-o neutralizar 
o arremesso de Brigham antes que sua espada encontrasse o alvo.
       - No se viola uma prostituta - disse entre dentes, percebendo que fora levado ao duelo como um carneiro ao matadouro. - O que essa vagabunda escocesa representa 
para o senhor?
       - Vai morrer pensando nisso, coronel.
       Continuaram a esgrimar em silncio; Brigham frio e impassvel, enquanto o coronel ardia de raiva e humilhao. As espadas se chocavam agora com mais vigor, 
competindo com o som de suas respiraes ofegantes e silenciando at os pssaros.
       Sbito, num ousado ecart, Standish simulou um ataque pela direita, que confundiu seu adversrio, obrigando-o a guardar-se. Depois retesou os msculos e vibrou-lhe 
um golpe, atingindo-o no ombro. Uma cabea mais fria teria tirado vantagem disso. Mas o coronel via apenas o sangue e, com ele, sentiu o sabor da vitria. Julgando-se 
a um passo dela, atacou com redobrado furor.
       Brigham aparava um golpe atrs do outro, tomando tempo, sem se importar com o sangue que lhe escorria ao longo do brao. Recuou, e, durante uma frao de 
segundo seu peito ficou a descoberto. A luz da vitria j iluminava as feies de seu opositor, que se lanou para frente, visando-lhe o corao.
       Furtou agilmente o corpo e desviou-lhe a arma um momento antes que ela o atingisse. Girando ento com rapidez vertiginosa, fez sua espada descrever uma curva 
ampla e mergulhou-a no peito dele. Quando retraiu a lmina manchada de sangue, o coronel j estava morto.
       Leighton examinou o corpo junto com o oficial de rosto plido e anunciou:
       - Voc o matou, Ashburn.  melhor que tome seu caminho sem demora. Eu darei um jeito nessa confuso.
       - Obrigado.
       - Deixe-me cuidar de seu ferimento.
       Brigham entregou-lhe a espada e mostrou, com um gesto cansado, o inestimvel Parkins que o esperava a alguns metros de distncia.
       - Meu criado far isso.
       
       Serena despertou pouco antes do nascer do sol, banhada em suor. A lembrana do sonho permanecia, com menos nitidez, um tanto desconexo, mas ainda oprimindo 
seu corao. Um sonho impregnado de horror, que aumentava o sofrimento em que vivia desde o dia em que Brigham partira.
       "E loucura", pensou sentando-se na cama. "Ele est em Londres, a salvo."
       Por um certo tempo, permitira-se acreditar que ele voltaria, como havia prometido. Mas, a vspera do casamento de Coll e Maggie, sentia-se insegura. Se Brigham 
no voltara para o casamento de seu melhor amigo, era porque no voltaria nunca mais.
       Confusa e amargurada, conclura que seu amor no havia sido mais do que um interldio em suas vidas to diferentes. Um delicioso fogo de amor, mas fora da 
realidade. Agora, restavam-lhe apenas as lembranas.
       Viu no espelho o seu rosto alterar-se de sbito e as lgrimas subirem-lhe aos olhos, transbordando. Longos soluos abafados sacudiram-na to profundamente 
que, por um momento, julgou estar gritando. Afinal, esgotada a emoo, lamentou aquela fraqueza to contrria ao domnio que tinha de si mesma.
       Retomando a posse da vontade, desceu para tomar caf com sua famlia. Depois, mergulhou de corpo e alma no trabalho. E sempre que ameaava cair em depresso, 
tentava convencer-se que os momentos de encantamento que tivera dariam para preencher uma vida.
       O crepsculo j esfumava as formas, quando saiu furtivamente da casa, vergando os cales de montaria. Sua me e Maggie escolhiam os fios para tecer e Gwen 
estava visitando um dos doentes da aldeia. Ningum notaria sua ausncia.
       Sombras espessas, no bosque de pinheiros que ela atravessava inclinavam-se e afastavam-se  sua passagem.
       Quando alcanou a orla, puxou suavemente as rdeas do cavalo e desmontou.
       A relva, junto  margem, era brilhante e fresca e entremeada de flores brancas e amarelas. Colheu um punhado delas, enfiou-as nos cabelos, e depois deitou-se 
de costas, com s mos cruzadas sob a nuca.
       Fechou os olhos e no resistiu  recordao de Brigham, deixando que as imagens que visualizava a acalmassem ao invs de atorment-la.
       Ao sentir um leve toque, como se um inseto tivesse pousado em sua face, ergueu a mo para afast-lo, mas no abriu os olhos. Queria permanecer mais um pouco 
a sonhar com o que poderia ser seu futuro. "Brigham", pensou, "como eu queria que me beijasse." Sorriu levemente ao sentir um toque suave nos lbios.
       - Olhe para mim, Serena.
       Ela obedeceu automaticamente, ainda imersa em seu devaneio. Quando encontrou um par de olhos cinzentos fixos nela, experimentou uma felicidade to grande, 
que permaneceu muda, sem saber o que dizer.
       Ele viu as feies delicadas resplandecerem de ternura, de agradvel surpresa. Puxou-a para si, pressionando os lbios contra os dela. 
       - Como senti sua falta, querida! 
       Podia ser verdade? A mente de Serena girava em turbilho, enquanto ela o envolvia em seus braos.
       - Brigham...  mesmo voc? Parece uma coisa irreal v-lo aqui agora - disse, temendo que ele desaparecesse de repente. - Beije-me outra vez!
       Ele a beijou outra vez, querendo transmitir o que sentira ao v-la adormecida no mesmo lugar em que haviam feito amor. Logo despiam-se com urgncia, na nsia 
de saciar a paixo que a saudade fizera crescer.
       Serena o abraou com fora, as mos deslizando pelo corpo forte de Brigham, acariciando-o, tocando-o sem a timidez do primeiro encontro, mas com a desenvoltura 
de uma mulher que reencontrara o homem amado.
       A noite j cobria Glenroe. Entregues ao doce langor que se seguiu aos momentos de xtase, eles continuaram abraados, desfrutando a felicidade de estarem 
juntos.
       - Mal consigo acreditar que voc est aqui... - ela falou, olhando-o nos olhos.
       - Ora, menina, eu no disse que voltaria? - Ele curvou-se para beij-la. - Eu te amo, Serena. Nada poderia me impedir de voltar para voc.
       - Esteve fora durante tanto tempo e no me escreveu uma s vez.
       - Seria arriscado. Daqui a pouco vai comear a batalha, Serena.
       - Ento... - Ela interrompeu-se, ao ver seus dedos manchados de sangue. - Brig, voc est ferido!
       Sobressaltada, examinou a faixa que lhe rodeava o ombro. Estava ensopada de sangue.
       - Foi atacado novamente? Os Campbell!
       - No. Foi um pequeno ajuste de contas em Londres.
       - Como assim?
       - No vamos falar sobre isso agora, querida. J anoiteceu e devemos voltar para casa.
       Ela rasgou a camisa dele para fazer uma nova faixa.
       - Como foi que voc me encontrou aqui?
       - Eu poderia dizer que apenas segui os impulsos de meu corao. Mas a verdade  que recebi a informao de Malcolm. Ele a viu sair em disparada. - Fitou-a 
embevecido e ento pediu: - Por favor, Serena, diga o que estou ansioso por ouvir.
       - Eu te amo, querido. Mais do que jamais imaginei que seria capaz.
       - E ir se casar comigo?
       Quando ela baixou os olhos, contrafeita, ele explodiu:
       - Voc diz que me ama, mas quando eu falo em casamento, parece que estou lhe propondo ir  forca!
       - J lhe disse que no posso ser sua esposa.
       - Pois eu lhe digo que pode. - Arrancou-lhe a camisa das mos e vestiu-a. - Vou falar com seu pai.
       - No, no faa isso!
       - Voc no me deixa outra alternativa. Eu te amo, Serena e no quero passar mais uma s noite na agonia da dvida.
       Ela suspirou.
       - Quando a guerra comear, voc partir e eu ficarei  espera. Vamos nos dar tempo para enfrentar o que est para acontecer.
       - Pois fique sabendo que, no final, eu no lhe darei outra escolha.
       
       
       
     CAPTULO XI
       
       
       Dias aps a chegada de Brigham a Glenroe, os franceses impuseram uma humilhante derrota aos ingleses em Fontenoy. Apesar disso, Lus XV ainda hesitava em 
conceder seu apoio aos rebeldes. E Charles, na expectativa de que a vitria da Frana desse o to necessrio impulso  sua causa, foi uma vez mais abandonado  sua 
prpria sorte.
       Mas, dessa vez, ele no permaneceu de braos cruzados  espera do auxlio que no achava em parte alguma. Com o dinheiro que conseguiu empenhando os famosos 
rubis de sua me, equipou e armou a fragata Doutelle e um navio de linha regular, o Elizabeth. Ento, deixando a seus seguidores a tarefa de continuar a presso, 
visando uma nova aliana de interesses, o Prncipe Galante zarpou de Nantes, rumo  Esccia e ao seu destino.
       Era pleno vero; quando a notcia chegou a Glenroe. Soube-se ento que o Elizabeth, com seu precioso carregamento de homens e armas, fora perseguido por seus 
inimigos britnicos e obrigado a voltar ao porto. Em compensao a Doutelle, com Charles a bordo, continuava a navegar na direo da costa escocesa, onde se formaria 
um exrcito leal aos Stuart.
       - Meu pai acha que eu sou muito jovem para combater - disse Malcolm com tristeza. - Mas eu no concordo com isso.
       Brigham olhou para o garoto que acabara de completar onze anos e reprimiu um sorriso.
       - Coll e eu lutaremos em seu lugar - retrucou, enquanto lhe desmanchava os cabelos com o jeito paternal com que o tratava.
       Malcolm suspirou.
       - No me conformo de ser tratado como uma criana.
       - Acha que seu pai confiaria seu lar e sua famlia a uma criana? Quando ele partir com seus homens, no haver nenhum MacGregor no solar, alm de voc. Quem 
proteger as mulheres, se vier conosco?
       - Serena - disse o menino, sem hesitar.
       - Deixaria  sua irm o encargo de proteger o nome e a honra de sua famlia?
       Malcolm refletiu um minuto.
       - Ela sabe atirar melhor do que eu ou Coll, embora meu irmo no queira admitir. Mas eu sou melhor com o arco e a flecha.
       - Se voc estiver aqui, no precisaremos nos preocupar com a segurana das mulheres.
       Brigham sentou-se a seu lado e pousou-lhe a mo no ombro.
       - Vou lhe dizer uma coisa, Malcolm. Um homem no vai com prazer  guerra, mas ir com o corao mais leve, se souber que suas mulheres esto protegidas.
       - No vou permitir que nada lhes acontea.
       - Sei disso e seu pai tambm. E se acontecer que Glenroe no oferea mais segurana, peo-lhe que as leve para as colinas.
       - Vou procurar um bom abrigo para elas. Especialmente por causa de Maggie.
       - Por que especialmente para ela?
       - Por causa do beb que vai nascer. No sabia?
       Brigham fitou-o, espantado. Depois soltou uma risada.
       - No. E voc, como soube?
       - Ouvi a sra. Drummond falar sobre isso. Ela disse que tem certeza de que haver um beb no solar na prxima primavera.
       - Nesse caso deve ser verdade!
       Malcolm sorriu com malcia.
       - Esto dizendo tambm que voc vai se casar com Serena. Vai mesmo, Brig?
       - Vou, mas ela ainda no sabe.
       - Ento, voc se tornar um MacGregor.
       - Por extenso. Assim como Serena se tornar uma Langston.
       - Uma Langston. Ser que ela vai gostar disso?
       O sorriso deixou os lbios de Brigham.
       - Serena ter que se acostumar com a idia. Bom, se ainda quer dar um passeio a cavalo  melhor irmos andando.
       Malcolm levantou-se de um salto.
       - Sabe que Parkins est cortejando a sra. Drummond?
       Brigham estacou, boquiaberto. 
       - E verdade?
       - Juro que !
       Da janela da sala de visitas, Serena viu-os partir para o campo aberto rindo alto. Brigham parecia to alto, to bonito! Ela debruou-se  janela e seguiu-os 
com o olhar at v-los desaparecer de vista. Ele no iria esperar muito... era o que havia dito da ltima vez que se encontraram, perto do lago. Queria torn-la 
lady Ashburn, do Solar Ashburn. Lady Ashburn, da alta sociedade de Londres. Essa idia era simplesmente aterradora!
       Olhou para seu vestido caseiro, de algodo azul, e para os seus ps nus, algo que sua me teria reprovado. Lady Ashburn nunca mais correria pelas charnecas 
ou pelos bosques de ps descalos. Examinou as mos com ar crtico. Macias porque a me obrigava-a a esfreg-las com loo todas as noites. Mas no eram as mos 
de uma lady.
       Amava-o, porm, e entendia agora que o corao podia falar mais alto do que a razo.
       Ingls ou no, seria dele! Preferia trocar sua amada Esccia pela Inglaterra a viver sem ele!
       - Serena.
       Ela virou-se rapidamente e viu sua me parada no corredor.
       - J terminei minhas tarefas, mame.
       Fiona entrou na sala e fechou a porta atrs de si.
       - Sente-se, Serena. Preciso falar com voc.
       Fiona raramente usava esse tom grave. Em geral, isso significava que ela estava preocupada ou aborrecida.
       - Fiz alguma coisa que a aborrecesse, mame?
       - Voc est perturbada - comeou Fiona. - Pensei que estivesse sentindo falta de Brigham. Mas ele voltou h vrias semanas e voc continua perturbada.
       - No estou perturbada. Estava pensando no que acontecer quando o prncipe chegar.
       "Deve ser verdade", pensou Fiona. "Mas no inteiramente."
       - Em outras pocas, voc teria se aberto comigo, Serena.
       - No sei o que dizer.
       Gentilmente, Fiona tomou-lhe a mo entre as suas.
       - Diga o que est em seu corao.
       - Eu o amo - confessou ela, por fim, deitando a cabea no colo da me. - Eu o amo e isso di terrivelmente.
       - Sei disso, querida. O amor traz grandes alegrias mas tambm grandes sofrimentos. 
       - No devia fazer sofrer!
       - Quando abrimos nosso corao, ficamos muito sensveis, querida.
       - Eu no queria am-lo. Agora, no posso fazer mais nada.
       - Ele a ama?
       - Sim, ama.
       - Sabe que ele a pediu em casamento? 
       - Sei.
       - E sabe que seu pai, depois de uma longa reflexo, deu seu consentimento?
       Isso, Serena no sabia. Ela endireitou-se bruscamente e voltou o rosto plido para a me.
       - Mas eu no posso me casar com ele, mame. No posso!
       Fiona olhou-a com ateno.
       - Seu pai nunca a obrigaria a casar-se contra a vontade. Mas voc mesma acabou de dizer que o ama e que esse amor  retribudo!
       - Eu o amo e gostaria muito de me casar com ele. Mas isso me assusta.
       Fiona comeou a compreend-la melhor.
       - Pobre menina! Voc no  a primeira jovem a ter esses receios, nem ser a ltima.
       - No quero me tornar lady Ashburn!
       - Por qu? - perguntou Fiona, surpreendendo-se com a veemncia da filha. -  uma famlia muito honrada.
       - No quero ser condessa, mame. Lady Ashburn teria que viver na Inglaterra, em grande estilo. Teria de se vestir com elegncia, comportar-se como uma dama, 
oferecer jantares magnficos!
       - Nunca pensei ver minha filha acuada num canto, como uma gata medrosa!
       Serena enrubesceu.
       - No tenho medo apenas por mim. Eu estaria disposta a ser uma esposa perfeita, uma digna lady Ashburn. Mas...
       Ela fez uma pausa,  procura de palavras que traduzissem sua apreenso.
       - Brigham me ama pelo que eu sou. Mas amaria a mulher que eu teria de me tornar para ser sua esposa?
       Fiona guardou silncio por um momento.
       -  isso que a atormenta?
       - Sim. No fiz outra coisa, nestas ltimas semanas, seno pensar nisso.
       - Se ele a ama de verdade, no ir pretender que voc se torne o que no .
       - Prefiro perd-lo a envergonh-lo!
       - Isso no ir acontecer. - Fiona tomou-lhe as mos entre as suas. - Querida, h uma coisa que voc precisa saber.
       - O qu?
       - Eu estava trabalhando na horta, quando ouvi Parkins e a sra. Drummond conversarem na cozinha. Brigham...
       - Sim, mame?
       - Parece que antes de deixar Londres, Brigham bateu-se em duelo com um oficial do exrcito do governo. O coronel Standish.
       Toda a cor abandonou o rosto de Serena.
       - Standish... - disse ela num sussurro, revendo-o como o vira dez anos antes, esbofeteando sua me. - Como isso foi acontecer? Por qu?
       - No sei. Sei apenas que houve um duelo e que Standish morreu. - Fiona juntou fervorosamente as mos. - Que Deus me perdoe, mas estou contente. O homem que 
voc ama vingou minha honra e eu nunca vou esquecer isso!
       
       Essa noite, Serena foi ter com ele. Era tarde e a casa estava havia muito em silncio. Abriu a porta do quarto e o viu sentado  mesa, escrevendo. A luz do 
castial incidia sobre seu rosto, acentuando os contornos perfeitos.
       Brigham ergueu a cabea e fitou-a espantado. No percebera nenhum rudo de passos nem da porta sendo aberta.
       Deps a pena sobre a mesa e levantou-se.
       - Serena.
       - Eu queria ficar a ss com voc.
       - No devia ter vindo aqui e muito menos vestida desse jeito!
       - Tentei dormir, mas foi impossvel. - Ela umedeceu os lbios. - Amanh, a esta hora, voc j ter partido.
       Ele a abraou, beijando-lhe a testa.
       - Meu amor,  necessrio que lhe diga outra vez que voltarei?
       Ela ergueu os olhos brilhantes de lgrimas.
       - Eu queria lhe dizer que sentir orgulho de sua futura esposa, quando voltar.
       Por um momento, ele no disse nada, apenas a fitou.
       - Esposa... Foi seu pai que lhe ordenou que se casasse comigo?
       - No. A deciso  minha.
       Era a resposta que ele queria ouvir. Gentilmente, beijou-lhe a mo.
       - Eu a farei feliz, Serena. Juro pela minha honra!
       - E eu serei a mulher que voc merece. Eu lhe prometo.
       - Voc  a mulher que eu preciso, meu amor.
       Ele tirou o anel de esmeralda do dedo e colocou-o em Serena.
       - Esse anel pertence aos Langston h mais de cem anos. Peo-lhe que o use at minha volta. A, se Deus permitir, eu lhe darei outro.
       Serena atirou-se nos braos de Brigham chorosa.
       - Se eu o perder, Brig, que ser de mim?
       - No quero que se preocupe comigo, amor. - Ele ergueu-lhe o rosto e beijou-lhe os lbios. - Nunca.
       - Se deixar que o matem, eu o odiarei pelo resto de minha vida.
       - Nesse caso, vou tomar muito cuidado. Agora v, antes que voc me faa sentir vivo demais!
       - No. S depois que me fizer sentir assim.
       Uniram os lbios. Tinham pela frente a noite toda, antes que a manh viesse a sussurrar de encontro s janelas.
       Serena acordou e sorriu ao ver que Brigham a observava com imensa ternura.
       - Eu estou to feliz. Gostaria que fosse sempre assim - continuou a fit-la, fascinado. Ela era linda at mesmo ao despertar, com os cabelos revoltos e os 
olhos um pouco inchados.
       - Ser sempre assim conosco.
       Ele puxou-a para si e aconchegou-a em seus braos.
       - Um dia, eu a levarei para o Solar Ashburn.  lindo, Serena, com seus telhados vermelhos e seus imensos jardins.
       - Ento nosso filho nascer l. Oh, Brig, no vejo a hora de termos um filho!
       - Para que tanta pressa? Mais tarde, se voc quiser, teremos uma dzia. Com a esperana de que no sejam geniosos como a me!
       - Ou arrogantes como o pai?
       Serena apoiou-se nele. O tempo estava passando depressa. A luminosidade do amanhecer j se insinuava por entre a fenda das cortinas. Apesar disso hesitava, 
sem saber como formular uma pergunta que poderia aborrec-lo. Comeou:
       - Brigham...
       - Sim?
       - Soube que lutou com um oficial chamado Standish. Por qu?
       Ele a fitou intrigado, mas logo compreendeu. Parkins devia ter batido com a lngua nos dentes.
       - Por uma questo de honra. Ele me acusou de estar trapaceando no jogo de dados.
       Ela ficou em silncio alguns instantes.
       - Por que est mentindo?
       - No  mentira. O coronel perdeu muito dinheiro e achou que devia haver outro motivo para isso, que no sua falta de sorte.
       - Est querendo dizer que no sabia quem era ele?
       Brigham suspirou.
       - Sabia, sim. E digamos que o encorajei a me desafiar para um duelo.
       - Por qu?
       - Por outra questo de honra.
       Serena tomou-lhe a mo e beijou-a.
       - Obrigada.
       - Foi por isso que veio aqui esta noite e concordou em ser minha esposa?
       - Sim.
       Ele balanou a cabea decepcionado antes de se afastar bruscamente. Mas Serena o reteve, atraindo-o de volta a seus braos.
       - No foi por me sentir grata, embora seu gesto tenha pesado muito em minha deciso.
       - Voc no me deve nada - murmurou ele, ainda ressentido.
       - Devo-lhe muito - ela retrucou com veemncia. - Agora, quando me lembrar daquela noite terrvel, saberei que o infeliz est morto e que morreu por suas mos.
       - Quero muito que seja minha esposa, Serena. Mas por amor, no por gratido.
       - E voc tem alguma dvida sobre o meu amor?
       Ele hesitou apenas um instante. 
       - No.
       - Eu j o amava, Brigham. J sabia que no amaria nenhum outro a no ser voc. E foi isto que eu vim lhe dizer esta noite: se permitir, quero honrar o seu 
nome como voc honrou o meu.
       Ele a beijou, emocionado.
       - Vou deixar meu corao com voc, Serena. Quando voltar, eu lhe darei tambm o meu nome.
       
       
       
     CAPTULO XII 
       
       
       Quando o prncipe Charles desembarcou na ilha de Eriskay, o sol se punha no horizonte emprestando um colorido espetacular  paisagem. Mas sua chegada no 
foi triunfal, como ele e os que lhe eram dedicados esperavam.
       MacDonald de Boisdale, em dvida quanto ao destino da Esccia, avisou-o:
       - Alteza, esta  uma terra spera, com uma histria sangrenta e gente que j viu demasiado libertadores. Sua lealdade  para com os fortes.
       A resposta do prncipe foi elegante e concisa:
       - Estou voltando para casa. Para mim, isso  suficiente.
       De Eriskay, ele e sua comitiva de sete homens, que agora lhe formavam a corte e a guarda, seguiram para o continente. Tambm l os jacobitas mostraram-se 
mais preocupados do que entusiasmados. Mas Charles no se desesperou. Enviou cartas aos chefes de cls da Alta Esccia, conclamando-os. De Cameron de Lochiel, recebeu 
um apio relutante mas precioso.
       E assim, a 19 de agosto de 1745, diante de cerca de novecentos homens leais, o estandarte dos Stuart tremulou na torre de Glenfinnan, anunciando que Charles 
fora proclamado prncipe regente e que iria governar em lugar de seu pai, James VIII da Esccia e III da Inglaterra.
       Esse pequeno exrcito marchou em seguida na direo do leste, recebendo adeses durante sua caminhada. Os cls reagruparam-se, os homens deram adeus s suas 
mulheres e uniram-se s foras do novo rei. Formando uma coluna, avanaram por estradas acidentadas, transpuseram colinas ngremes e conseguiram evitar as guarnies 
do governo aquarteladas no Forte William e no Forte Augustus.
       Os nimos estavam fortalecidos. Como Brigham previra, haviam sido necessrios apenas a energia e o carisma do prncipe para unir os escoceses sob uma nica 
bandeira. Quando os homens pensavam nas batalhas que iriam travar, pensavam no na glria pessoal, mas na vitria da justia que lhes fora negada por tanto tempo.
       Alguns dentre eles eram jovens. Brigham podia ver a esperana espelhada em seus rostos redondos, pelo modo como riam e aplaudiam aquele prncipe que usava 
tambm o kilt, o saiote dos escoceses. Outros eram velhos e representavam o passado, as batalhas perdidas ou vencidas. Eles olhavam para o prncipe, em cujas veias 
corria o sangue dos Stuart, como quem olha para o homem que no s manteria os cls em unio absoluta, mas que os libertaria dos grilhes de um governo desptico.
       Porm, velhos ou jovens, ansiosos ou desanimados, Charles mantinha-os unidos unicamente com a fora de sua personalidade, de sua alegria contagiante, de sua 
confiana sem temor.
       O tempo continuava bom, parecia que o prprio Deus abenoava a rebelio. As brisas eram clidas e frescas as guas que desciam da montanha. A noite, as turfeiras 
pontilhavam-se de fogueiras. E, enquanto as chamas ardiam alto, soltando centelhas que subiam como vagalumes na escurido, e os bardos tiravam de suas gaitas de 
fole melodias inspiradas, os homens bebiam usque, riam e gracejavam. Contudo, estavam prontos a trocar rapidamente o festim por uma batalha.
       Foi Brigham o primeiro a saber que um exrcito do governo, liderado pelo general sir John Cope, havia sido despachado para o norte. Ele recebeu a notcia 
do prprio prncipe, no instante em que os homens levantavam acampamento e preparavam-se para reiniciar a jornada.
       - Vamos lutar, meu amigo!
       - Parece que sim, Alteza.
       A manh estava quente e a suave claridade do cu da Esccia derramava-se, sobre os campos. No ar, pairava o odor acre das fumaradas, misturado ao cheiro dos 
cavalos e do suor dos soldados.
       - Parece um bom dia para lutar - tornou Charles, estudando o rosto de seu sdito leal. - Ou acha que devemos esperar por lorde George?
       - Lorde George  um excelente marechal-de-campo, Alteza - disse Brigham, cauteloso.
       - Tem razo. Mas podemos contar com O'Sullivan. - Charles apontou para o soldado irlands que estava organizando os homens para a jornada.
       Brigham tinha suas dvidas. Ele no questionava a lealdade do irlands, mas sentia que havia nele mais entusiasmo do que a prudncia permitia. Porm, sabendo 
muito bem que seria intil opor-se ao prncipe, disse respeitosamente:
       - Sabemos o que devemos ao nosso rei, como seus sditos. Lutaremos.
       - Eu estou aqui para isso!
       Charles acariciou o punho de sua espada, enquanto olhava em torno. Experimentava um amor sincero e profundo por essa terra. Quando fosse rei, faria de tudo 
para que a Esccia e seu povo fossem recompensados.
       - Ser uma longa jornada, Brigham, que nos distanciar cada vez mais do rei Lus e de sua corte.
       - Sem dvida, Alteza. Mas valer a pena empreend-la.
       - Sabe que havia lgrimas nos olhos de algumas daquelas lindas damas, quando voc partiu? Teve tempo de arrasar coraes tambm na Esccia?
       - H apenas uma mulher para mim, sir. E um corao que tomarei cuidado de no partir.
       Os olhos negros do prncipe cintilaram de prazer.
       - Muito bem! Parece que o disputado lorde Ashburn caiu de amores por uma jovem escocesa. Diga, mon ami, ela  to bonita quanto a sensual Anne-Marie?
       Brigham esboou um leve sorriso.
       - Eu pediria a Vossa Alteza que no fizesse comparaes, especialmente na presena da jovem em questo. Ela  muito temperamental!
       -  mesmo? - Charles riu, deliciado. - Estou curioso. Quero conhecer a mulher que conquistou o corao do homem mais cobiado pelas damas francesas!
       
       As tropas de Cope no apareceram. A estrada para Edimburgo estava aberta aos rebeldes. Com trs mil homens a mais, eles capturaram Perth, depois de uma batalha 
breve mas fulminante. Vitorioso, continuaram sua marcha para o sul, enfrentando, com sucesso, dois regimentos de drages.
       A luta parecia aquecer seus nimos. Ali havia ao, em vez de conversa, fatos em vez de planos quimricos. Com a espada e as gaitas de fole, escudos e achas 
de combate, eles eram invencveis. Os que no caam sob o jugo de suas armas, contariam depois histrias fantsticas sobre sua habilidade e seu destemor.
       Sob a liderana de lorde George Murray, que os alcanou em Perth, assediaram Edimburgo com o fito de ali se instalarem. Os habitantes entraram em pnico. 
Corriam rumores terrveis acerca de atos de barbrie, canibalismo e chacina praticados pelos invasores. A guarda fugiu, apavorada e, enquanto Edimburgo dormia, a 
faco dos Cameron investiu contra as sentinelas e assumiu o controle da cidade.
       Ningum poderia imaginar que apenas um ms depois de sua chegada, o mais jovem descendente dos Stuart entraria como um cavaleiro eleito pela porta do castelo 
de seus ancestrais e dele tomaria posse!
       Coll estava ao lado de Brigham, quando o prncipe, conduzindo um ginete cinzento, de arreios ricamente adornados, rumou para Holyrood Park. A multido que 
se acotovelava nas ruas ergueu entusisticos gritos de aclamao, ao v-lo com a tnica de l axadrezada da Alta Esccia e a boina azul com penacho branco. Talvez 
ele no fosse ainda o prncipe da Inglaterra, mas era certamente um deles!
       - Oua-os,  emocionante - disse Coll, sorrindo. -  a nossa primeira vitria real!
       Brigham moderou a marcha de sua montaria, guiando-a com cuidado atravs das ruas estreitas.
       - Eu juraria que, agora, ele pode gui-los at Londres com uma nica palavra. S espero que os suprimentos e os homens que precisamos cheguem a tempo!
       - Poderemos ser vitoriosos mesmo inferiores em nmero. Seria como foi em Perth e em Coltbridge. - Coll torceu o nariz. - Este lugar est cheio demais. Prefiro 
os campos abertos e as colinas da Alta Esccia. Como um homem pode respirar, se o ar no circula?
       Edimburgo era um amontoado confuso de construes de fachadas srdidas, em sua maioria de pau-a-pique. Os edifcios de pedra, freqentemente com mais de nove 
ou dez andares, estavam espremidos de encontro a colinas perigosamente abruptas.
       - Pior do que Paris - observou Brigham.
       As ruelas e os becos exalavam um forte mau cheiro, e o lixo e os detritos obstruam as alamedas. Mas o povo, na nsia de aplaudir o prncipe, parecia no 
se importar com isso, e o seguia com entusiasmo.
       Muito alm dos cortios e das vielas, sobre uma colina que ascendia do rio, erguia-se o Castelo Real de Edimburgo, majestosamente envolto na poeira luminosa 
de sua antiguidade e de sua histria. Em outros tempos, fora o cenrio de paixes inconfessveis. Mary, rainha da Esccia, sua mais famosa e infeliz inquilina, ali 
casara-se e vivera, ali vira seu amante Rizzio ser assassinado.
       E era ali, nesse lugar de pompa e intrigas, que o prncipe Charles, trineto de James I, iria instalar sua corte. Depois de desmontar, ele atravessou lentamente 
o ptio e as arcadas, reaparecendo momentos depois  janela de seus novos apartamentos, de onde acenou para a multido. Edimburgo em peso aclamava o prncipe e ele, 
por sua vez, reverenciava a cidade. Iria provar essa adorao poucos dias depois, quando Cope movimentou suas tropas, levando-as para o sul.
       Os jacobitas defrontaram-se com o exrcito do governo a leste da cidade, em Prestopans. No primeiro instante, somente o som fantstico das gaitas de fole 
rompia o estranho silncio do campo de batalha. Sua melodia profunda e sentida erguia-se sobre as charnecas, espalhando tristeza como nvoa de inverno.
       O primeiro ataque fez os pssaros debandarem em revoada. Foi o sinal para que as duas primeiras filas de ambos os partidos, apoiadas pela retaguarda, se lanassem 
uma contra a outra num choque to formidvel que se ouviu a uma milha de distncia.
       Como acontecera antes, a infantaria inglesa no pde suportar a violncia da carga escocesa. Quando a linha vermelha ondulou e quebrou-se, os cavaleiros esporearam 
os cavalos, e as espadas de dois gumes brilharam ao sol. Os corvos crocitaram, em meio  fumaa de canho e morteiro, e, atrados pelo cheiro de sangue, puseram-se 
a voar cada vez mais baixo.
       Brigham conduzia sua montaria atravs do que havia sobrado das linhas inglesas. Enquanto o solo explodia com o impacto das balas, pde vislumbrar os penachos 
brancos dos jacobitas e os mantos axadrezados dos MacGregor, dos MacDonald e dos Cameron. Alguns cados, vtimas das baionetas ou das espadas.
       Aps dez minutos, a batalha estava decidida: a cavalo ou a p, os drages retiravam-se precipitadamente para os abrigos das colinas. Esse dia, as gaitas comemoravam 
a vitria, e o pavilho dos Stuart foi hasteado na torre de Holyrood House.
               
       - No compreendo por que estamos aquartelados em Edimburgo, quando podamos estar marchando para Londres! - disse Coll, enquanto caminhava pelo ptio de Holyrood 
envolto num manto que o abrigava da neblina gelada.
       Pela primeira vez, Brigham concordou com a impacincia do amigo. Fazia quase trs semanas que estavam na corte recm-estabelecida de Charles. Verdade que 
o prncipe no esquecia seus homens, dividindo seu tempo entre Holyrood e o acampamento sediado em Duddingston. O moral era alto, mas havia ali mais de um homem 
que partilhava das opinies de Coll. Os bailes e as recepes podiam esperar.
       - A vitria em Prestopans nos valeu mais apoio - observou Brigham. - Duvido que ficaremos aqui por mais tempo.
       - Se os problemas que h entre lorde George e O'Sullivan se resolverem!
       Essa era uma questo que inquietava Brigham.
       - Confesso a voc que O'Sullivan me preocupa. Preferia um comandante enrgico, que estivesse menos interessado em causar confuso ao inimigo, e mais interessado 
na vitria definitiva.
       - No teremos nem uma coisa nem outra, se demorarmos mais um pouco aqui. 
       Brigham sorriu compreensivo.
       - Voc est sentindo falta de sua casa e de sua mulher.
       - Faz dois meses que deixamos Glenroe. E uma vez iniciada a marcha para o sul, poder passar um ano antes de revermos nossos lares e nossas famlias.
       Coll bateu amigavelmente nas costas do companheiro.
       - A corte  magnfica e as mulheres so bonitas. Posso jurar que voc j partiu uma dezena de coraes com a sua indiferena.
       - Tenho outras coisas na mente. - Brigham sorriu. - Que me diz de um jogo de dados?
       Coll assentiu e os dois voltaram a atravessar o ptio. Enquanto seguiam pelas arcadas imersas em sombras, uma mulher, ao passar, olhou para Brigham. Ele foi 
atrado por seu porte, gracioso e reto, mas no se preocupou com ela. Sbito, estacou, pensando por que aquela estranha lembrava-lhe to intensamente sua pastora 
de porcelana.
       Voltou-se. Ela estava ainda l. O capuz encobria-lhe parte do rosto e,  luz que morria, conseguiu apenas ver que era muito alta- e esguia. Podia ser uma 
criada ou uma das damas da corte tomando ar.
       - O que h com voc? - Coll virou-se. Ao ver a figura de mulher oculta nas sombras, sorriu. - Oh,  isso! Presumo que, agora, no vai querer jogar dados.
       Mas Brigham no o ouvia. A mulher abaixara o capuz e os ltimos raios do sol poente incidiam sobre seus cabelos, fazendo-os brilhar como ouro.
       - Serena?!        
       Comeou a correr na direo dela, suas botas produzindo um rudo seco sobre o cho de pedra. Tomou-a nos braos antes que ela pudesse murmurar seu nome e 
a estreitou contra o peito.
       - Querida...
       Coll alcanou-os um segundo depois.
       - E Maggie? - perguntou ele, ansioso, enquanto beijava a testa da irm.
       - Estamos todos aqui - disse Serena, sem flego.
       - O prncipe nos convidou. Chegamos h uma hora.
       - Maggie est aqui? Onde?
       Sem esperar resposta, Coll girou nos calcanhares e saiu correndo atravs do ptio.
       - Brigham... - murmurou ela.
       - No diga nada, meu amor. No diga nada.
       Ele a atraiu para si e beijou-lhe os lbios macios, sentindo o leve perfume e a curva delicada daquele dorso sob as suas mos.
       - No sabe que tortura  viver tanto tempo longe de voc.
       - Fiquei desesperada quando tivemos notcia da batalha!
       Serena afastou-se um pouco e olhou-o. Era o mesmo homem que partira de Glenroe quase trs semanas antes.
       - E depois temia que voc tivesse mudado. Tudo aqui  to esplndido!
       - Nada poder mudar o que existe entre ns, Serena.
       Ela voltou a aninhar-se nos braos dele com um suspiro.
       - Pedi tanto a Deus que voc no encontrasse conforto nos braos de outra mulher...
       - Meu amor, no receie ningum, porque no h ningum que possa se comparar com voc. Esta noite, vou provar isto.
       - Nada me daria mais prazer. Mas seria imprudente. O que no diriam os criados, se o vissem entrar em meu quarto, ou se me vissem entrar no seu?
       - Esta noite, voc vir a meu quarto como minha esposa!
       Serena olhou-o, sem poder acreditar.
       - Impossvel!
       - E absolutamente possvel! Venha, vamos falar com o prncipe.
       Sem lhe dar tempo para objetar, ele a arrastou atravs das arcadas. O prncipe estava em seus aposentos, preparando-se para a recepo da noite, mas consentiu 
em receb-los.
       - Alteza. - Brigham inclinou-se profunda e respeitosamente, ao entrar na sala de estar.
       - Boa noite, Brigham. Madame...
       Quando Serena postou-se numa reverncia, Charles ajudou-a a se erguer e depois beijou-lhe a ponta dos dedos.
       - Agora compreendo por que lorde Ashburn no lana sequer um olhar s nossas damas!
       - Alteza, quero lhe agradecer o convite que fez a mim e a minha famlia. Foi muita bondade de sua parte.
       - Devo muito aos MacGregor. Eles nos deram um apoio incondicional. Tamanha lealdade no tem preo. No quer se sentar?
       Serena correu os olhos pela sala. No havia ali seno coisas belas. No teto, cupidos espalhavam flores. E das paredes, decoradas no alto com ornatos em forma 
de folhagens, pendiam tapearias que reproduziam as vitrias dos Stuart nos campos de batalha.
       - Obrigada, Alteza.
       - Sir, tenho um favor a lhe pedir - comeou Brigham.
       Charles sentou-se, convidando-o a fazer o mesmo.
       - Pea o que quiser, meu amigo. Eu lhe devo muito.
       - Lealdade no  dvida, Alteza.
       Os olhos de Charles suavizaram-se e Serena compreendeu por que o chamavam de Prncipe Galante. No era s por seu belo rosto ou sua figura altiva mas, principalmente, 
pela beleza de sua alma.
       - Que deseja?
       - Gostaria de me casar com a srta. MacGregor.
       O sorriso de Charles alargou-se.
       - Eu j imaginava. - Virou-se para Serena. - Em Paris, lorde Ashburn parecia deleitar-se na companhia das damas da corte. Em Holyrood, ele passa por desdenhoso 
e de gosto difcil.
       Serena retribuiu o sorriso.
       - Lorde Ashburn  um homem prudente, sir. Ele conhece a impetuosidade e o temperamento dos MacGregor.
       Charles riu, divertido.
       - Presumo que voc queira casar-se aqui na corte, Brigham.
       - Sim, Alteza. Esta noite.
       O prncipe ergueu as sobrancelhas. 
       - Esta noite? Tal pressa ... - Ele olhou para o rosto radiante de Serena e concluiu: - ...perfeitamente compreensvel. Tem a permisso de lorde MacGregor?
       - Sim, Alteza.
       - H o problema dos banhos, mas eu acho que um aspirante ao trono tem a obrigao de resolver os problemas de seus futuros sditos. Charles levantou-se.
       - Prometo que os casarei ainda esta noite.
       
       Plida, tendo a impresso de estar sonhando, Serena foi ao encontro de seus pais.
       - Serena! - Fiona balanou a cabea ao ver que sua filha usava ainda os trajes de viagem. - Voc precisa mudar de roupa. Estamos na corte, no em Glenroe!
       - Mame, eu vou me casar! 
       Ian beijou-a na testa. - J sabemos, filha. 
       - Esta noite!
       - O qu? - Fiona levantou-se impetuosamente. - Mas como?
       - Brigham e eu fomos pedir permisso ao prncipe.
       - Compreendo. Tem certeza de que  isso mesmo que voc quer?
       - Tudo aconteceu to depressa... Sim, mame. No h nada que eu queira mais do que ser a esposa de Brigham! 
       Fiona passou-lhe o brao pelos ombros.
       - Nesse caso, temos que nos apressar. Por favor, Ian, deixe-nos a ss.
       - Est me mandando embora de seus aposentos, my lady?
       Fiona estendeu-lhe ambas as mos.
       - Voc iria se aborrecer aqui.
       Ian beijou-as e depois atraiu a filha para si.
       - Esta noite, voc passar a usar o nome de outro homem. Mas no se esquea: ser sempre uma MacGregor!
       No houve tempo nem para pensar. As criadas prepararam rapidamente o banho e, enquanto Serena mergulhava na imensa banheira e um doce aroma de flores impregnava 
o ar, Gwen e Maggie puseram-se a ajustar o traje de cetim branco da noiva.
       -  to romntico... - murmurou Gwen, alisando o cetim.
       - Maravilhoso - concordou Maggie. - A noiva ser a mais linda!
       Essas palavras transmitiram, a um s tempo, alegria e medo a Serena, que saiu do banho tremendo.
       - Venha depressa para perto do fogo, querida.
       Fiona tomou a mo da filha e percebeu que seu tremor pouco tinha a ver com o frio. Procurou tranqiliz-la:
       - Este  o dia mais importante na vida de uma mulher. Daqui a alguns anos, quando olhar para trs, ir lembrar-se dele com saudade.
       - Estou com tanto medo...
       Fiona sorriu.
       - Quanto mais se ama, maior  o medo.
       - Ento, amo Brigham mais do que imaginava.
       - Eu no poderia desejar um marido melhor para voc, querida. Quando a guerra terminar, vocs conhecero as alegrias que do valor  vida.
       - Na Inglaterra - observou Serena.
       - Quando eu me casei com seu pai, deixei minha famlia e meu lar - disse Fiona, enquanto a preparava com delicada ateno. - A floresta de Glenroe me assustava, 
e eu no suportava a idia de ficar longe de tudo o que amava.
       - Como conseguiu superar esse medo?
       - Amando e dedicando-me ainda mais a seu pai.
       Serena assentiu suavemente. Depois com agrado mirou no espelho a imagem da mulher ali refletida. Os cabelos derramavam-se sobre suas costas, brilhantes. O 
corpete do vestido de cetim modelava-lhe o busto, permitindo que os seios se elevassem suavemente. As mangas, muito amplas, ajustavam-se nos punhos bordados com 
prolas. As pedras tambm salpicavam a saia, que se avolumava sobre a onda de rendas dos saiotes. A faixa que lhe cingia a cintura era larga e guarnecida com um 
pequeno buqu de rosas cor-de-rosa.
       Foi assim, parecendo uma viso de contos de fadas, que ela atravessou a nave iluminada com os reflexos oblquos dos vitrais, para se unir a Brigham pelos 
sagrados laos do matrimnio.
       Ele a esperava aos ps do altar, cujos degraus estavam cobertos de rosas. Foi ao seu encontro, pensando que nunca o vira assim to bonito. A peruca branca 
realava o rosto moreno e o brilho dos olhos escuros. Quando ele tomou-lhe a mo, Serena parou de tremer e foi confiante que se ajoelhou diante do sacerdote.
       Aps a cerimnia, haveria, segundo o desejo do prncipe, uma grande recepo. E assim, minutos depois de se ter tornado lady Ashburn, Serena viu-se conduzida 
para a Galeria dos Retratos, onde, aps a tomada da cidade, Charles oferecera seu primeiro baile de gala. Ali, desejaram-lhe felicidade, beijaram-na e olharam-na 
com inveja ou admirao.
       Ao convid-la para danar, o prncipe teceu-lhe o louvor que se d  mais bela:
       - Est extraordinariamente bonita, lady Ashburn.
       "Lady Ashburn!", pensou Serena.
       - Obrigada, Alteza. Como posso agradec-lo por tornar isso possvel?
       - Prezo muito seu marido, my lady.
       "Seu marido!"
       - Sua Alteza  extremamente gentil.
       Quando a dana terminou, Brigham veio busc-la.
       - Est se divertindo, meu amor?
       Ela corou profundamente. Ele estava diferente de peruca. Quase no podia acreditar que aquele era o mesmo homem que se deitara a seu lado e que a acariciara 
com ternura. Parecia to encantador quanto o prncipe e quase to estranho quanto ele.
       - Sim, muito.
       - Viu os retratos? So de monarcas escoceses. Disseram-me que foram encomendados por Charles II, embora ele nunca mais tenha voltado  Esccia, aps a Restaurao.
       - Aquele  Robert the Bruce, um soldado destemido e um rei adorado.
       - Devia saber que uma mulher instruda como voc conhece perfeitamente a histria de seu pas. - Brigham inclinou-se e perguntou baixinho: - O que sabe sobre 
estratgia militar?
       - Como?
       - Ah! Ento h ainda alguma coisa que eu posso lhe ensinar.
       Antes que ela pudesse retrucar, ele a levou para o corredor deserto, e ergueu-a nos braos.
       - Para onde me leva?
       - Para o quarto - murmurou ele, dando-lhe um grande beijo na boca.
       - Que diro os outros?
       - No se preocupe. Ningum notar a nossa ausncia.
       Sem dar-lhe tempo para protestar, Brigham galgou os degraus de dois em dois. Uma vez diante de seu quarto, abriu a porta com um pontap.
       - Aqui estamos! - anunciou ento, colocando sua esposa sobre a cama.
       Ela fingiu-se indignada.
       -  desse modo que trata sua esposa, my lord?
       - Ainda no comecei!
       - Eu estava com vontade de danar.
       - Pois sim, querida, danaremos. At o amanhecer!
       - Minuetos? - provocou-o Serena.
       - No  bem isso que eu tenho em mente.
       Ela alisou o vestido amarrotado.
       - Gwen acha-o um personagem de romance, mas duvido que ela continuar a pensar assim, quando eu lhe contar que voc me jogou na cama como se eu fosse um fardo!
       - Romance? - Ele acendeu as velas dos castiais. -  isso o que voc quer, Serena?
       -  com isso que Gwen sonha.
       - Voc no?
       - Toda mulher tem direito a romance no dia de seu casamento.
       Ele tirou-lhe os escarpins e beijou-lhe os ps, reverente.
       - Que fiz eu para merecer uma mulher assim? No instante em que a vi a meu lado, no altar, soube que todos os meus sonhos iriam se realizar.
       - Voc parecia um prncipe...
       - Esta noite, sou apenas um homem apaixonado. - Ele beijou-lhe o colo. - Enfeitiado... escravizado!
       - Estava com tanto medo!
       Ele desabotoou-lhe o corpete do vestido e deixou-o cair at a cintura.
       - E agora?
       - Deixei de sentir medo quando voc me levou para o corredor e me ergueu nos braos. Foi a que encontrei o meu Brigham novamente.
       - Serei sempre seu, Serena. Sempre.
       
       
       
     CAPTULO XIII
       
       
       Holyrood House era a grande atrao da poca. Por seus vastos sales, outrora desertos, circulava tudo o que havia de mais nobre, mais belo e rico nas regies 
setentrionais da Esccia. Charles, esse prncipe corajoso e temerrio, carter brilhante e romanesco, ocupara seu castelo e estava deslumbrando seus pares com a 
sua hospitalidade e magnificncia.
       Ainda um tanto entorpecida pela felicidade, Serena via Brigham incorporar-se com naturalidade quele mundo que lhe pertencia por direito. Ao passo que ela 
precisava reprimir o seu temperamento impetuoso para moldarse quela vida de prazeres.
       Naquela corte frvola e elegante, foi obrigada a aprender novas regras de etiqueta, a usar brilhantes nos cabelos, a empoar-se e a perfumar-se com as mais 
finas essncias francesas. E ali, junto com a descoberta do que significava realmente ser lady Ashburn, teve uma noo exata da fortuna de seu marido.
       Uma semana aps o casamento, Brigham, valendo-se de seus contatos, fez vir de Londres as fabulosas esmeraldas de sua famlia e presentou-a com elas. Depois, 
no satisfeito, contratou uma modista para que a vestisse de seda e cetim, de cambraia fina e rendas delicadas.
       Era impossvel no apreciar aquele luxo. Mas,  medida que os dias passavam, no podia afastar a sensao de que os privilgios, as honras, a pompa, a convivncia 
diria com o prncipe eram um sonho.
       As noites, porm, lhe pareciam reais. Entregava-se ento a Brigham com todo o ardor de sua juventude. Amava e era amada e esquecia tudo, a guerra e a inevitvel 
separao, diante daquela felicidade to fugidia quanto o brilho das sedas e dos brocados.
       Durante o dia sentia-se uma impostora, uma criada disfarada com os trajes de sua ama. Seu maior desejo era correr descala por entre as rvores meio desfolhadas 
dos bosques, galgar as colinas abruptas que fechavam o parque do castelo, ao sul.
       No ousava. Apenas uma vez, quando teve certeza de que ningum a notaria, acompanhou Malcolm aos estbulos. Invejava seu irmo pela liberdade que lhe concediam 
de entregar-se a cavalgadas desenfreadas. Mas continha-se, determinada a comportar-se como a esposa perfeita que Brigham merecia.
       Trs semanas passadas, Serena aprovava-se por sua conduta. Ao mesmo tempo, suspirava pela paz das charnecas da Alta Esccia. Queria vestir seus cales e...
       Com um encolher de ombros mais ostensivo do que seria de esperar em uma dama delicada, deixou-se cair numa cadeira. E, com o rosto apoiado na mo diante do 
fogo apagado, censurou-se. Era uma ingrata. Que mulher em seu juzo perfeito dispensaria a vida deliciosa que Brigham lhe proporcionava?
       Ouviu a porta do quarta abrir-se e levantou-se de um pulo, alisando a saia. " ele", pensou. Virou-se e viu-o parado no meio do quarto, com um sorriso a iluminar-lhe 
o rosto. Viu o sorriso desvanecer-se e depois renascer, mais quente e mais cheio de admirao.
       - Voc est linda, Serena. Parece uma violeta dos campos.
       Com uma risada que era quase um soluo, ela se lanou nos braos do marido.
       - Oh! Brig... Eu te amo tanto!
       - Que  isto? Voc est chorando?
       - No.  que... estou feliz demais. Vai rir de mim?
       Ele curvou-se e beijou-lhe os cabelos, segurando-lhe o rosto entre as mos.
       - No, minha querida. No vou rir de voc.
       Os olhos cinzentos ficaram de repente muito srios e ela soube que o momento da partida havia chegado.
       - Chegou a hora, no ?
       No fora dita uma palavra, mas Brigham compreendeu que ela sabia. Seus olhos mostravam isso, alm das lgrimas e da postura desalentada.
       - Sim, chegou.
       - Conte-me tudo.
       - Iniciaremos a marcha dentro de alguns dias. E preciso que voc parta amanh para Glenroe.
       Serena empalideceu, mas sua voz no se alterou.
       - Preferia ficar aqui at o momento em que voc fosse embora.
       - Eu partiria mais tranqilo, se soubesse que voc e sua famlia esto em segurana.
       - Marcharo para Londres?
       - Se Deus quiser.
       - Esta luta  tambm minha. Gostaria de ir com voc.
       - Voc ir comigo. Aqui. - Ele apontou para o corao. - No deve esquecer que sua famlia conta com voc.
       "Meus sentimentos no contam?" As palavras subiram aos lbios de Serena, mas ela as reprimiu.
       - Est bem, Brigham - disse, obediente. - Ficarei esperando por voc em Glenroe.
       - H uma coisa que eu quero que saiba, caso as coisas no correrem bem. Em meu quarto, voc encontrar um cofre com ouro e jias suficientes para comprar 
sua incolumidade e a de sua famlia, se for necessrio. H tambm uma arca com algo mais precioso, que eu espero que conserve para sempre.
       - Posso saber o que ?
       Ele acariciou-lhe o rosto com delicadeza.
       - Voc saber, quando chegar o momento.
       - Mas voc vai voltar, no vai? Prometeu que me levaria ao Solar Ashburn.
       - No vou esquecer uma promessa.
       Ela comeou a desatar a faixa do vestido com os olhos ainda nele.
       - Acha imprprio que eu queira fazer amor com meu marido to cedo pela manh?
       Brigham tirou o casaco sorrindo.        
       - Nunca  cedo demais para fazer amor.
       Amaram-se banhados pela luz do sol que entrava magnfica pelas janelas abertas. Recordaram sua bela e curta histria, e outra manh ensolarada, cheia de desejo 
e paixo,  beira do lago. Essa lembrana, somada s incertezas de um futuro velado, fez com que a entrega fosse total.
       
       Era novembro quando as foras de Charles puseram-se finalmente em marcha. Muitos, e Brigham dentre eles, teriam preferido que o prncipe houvesse comeado 
a campanha mais cedo, aproveitando a vantagem adquirida no incio, ao tomarem Edimburgo. Mas ele preferira esperar por um auxlio de maior peso da Frana.
       O ouro francs havia na verdade chegado, e tambm suprimentos. Mas no homens. Em vista disso, Charles reunira seu pequeno exrcito e decidira-se por um ataque 
fulminante, alcanando a vitria ou a derrota em curto espao de tempo. Como na primeira vez, ele chegara  concluso que a empresa s podia ser realizada por meio 
de um golpe de audcia.
       Alguns meses antes, seu intento fora motivo de risos. Entretanto, aps a queda de Edimburgo, os ingleses tinham revisto suas opinies e mandado s pressas 
reforos de Flandres para o marechal de campo Wade, aquartelado em New Castle.
       Enquanto isso, o exrcito do prncipe, sob o comando de lorde George Murray, marchava para Lancaster, encontrando pouca resistncia no caminho. Tomaram a 
cidade com relativa facilidade, mas a vitria foi ofuscada pela desero de um grande nmero de jacobitas ingleses.
       Certa noite fria, logo aps o combate, Brigham encontrava-se sentado junto a uma das fogueiras do acampamento em companhia do conde Withesmouth, que acorrera 
de Manchester para defender a causa.
       - Devamos ter atacado as foras de Wade - observou Whitesmouth, tomando um longo gole de usque para aquecer-se do vento cortante. - Agora, ele convocou 
Cumberland, o filho do Prncipe Eleito, que j deve estar marchando atravs das Midlands. Quantos somos, Brig? Quatro, cinco mil?
       - No mximo. - Brigham fitou as chamas. 
       - Enquanto isso, o prncipe hesita entre dois lderes de vises opostas, Murray e Sullivan. Qualquer deciso, por menor que seja,  tomada aps um penoso 
debate. Quer saber a verdade, Johnny? Perdemos nosso grande momento em Edimburgo. E essa perda pode ter sido irremedivel.
       - Mas voc continua com ele.
       - Sim, vou empunhar a espada e o escudo e seguir em sua companhia, compartilhando com ele da sorte que Deus nos enviar.
       Permaneceram um momento em silncio, ouvindo o vento assobiar nas colinas.
       - Sabe que tambm os escoceses esto desertando e voltando furtivamente para seus vales e colinas? - tornou Whitesmouth.
       - Sim, eu sei.
       Aquela mesma tarde, Ian e os outros chefes de cls haviam discutido a situao. Mas teriam compreendido que as brilhantes vitrias obtidas por seus homens 
devia-se ao fato de que eles haviam lutado com os seus coraes? Uma vez perdida a f, a causa estaria comprometida.
       Afastando esses pensamentos perturbadores da mente, ele passou a consideraes mais prticas:
       - Chegaremos a Derby amanh. Se atacarmos Londres rapidamente e com entusiasmo, poderemos ainda ver o rei James no trono. Ainda no fomos derrotados. Pelas 
notcias que voc nos trouxe, sabemos que h pnico na cidade.
       - Se a sorte estiver de nosso lado, voc voltar para sua esposa no Ano-Novo.
       Brigham assentiu. Mas, no fundo de seu corao, sabia que era necessrio um pouco mais do que sorte.
       
       Em Derby, situada a cento e trinta milhas de Londres, Charles reuniu seu conselho de guerra. A neve caa sem cessar, quando os principais membros da aliana 
sentaram-se  grande mesa redonda. Havia um bom fogo, mas, acima de seu crepitar, ouvia-se o lgubre uivar do vento do norte.
       - Senhores. - O prncipe pousou as mos brancas e esguias diante de si. - No me atrevo a agir sem a colaborao dos homens que se empenharam por meu pai. 
Estou aqui para ouvir os seus conselhos.
       Os olhos negros perscrutaram a sala, pousando brevemente em cada um dos homens.
       - Sabemos que trs tropas do governo convergem para ns de pontos diferentes. Acredito que a sada seja um ataque rpido e fulminante  capital, enquanto 
estamos ainda comemorando a vitria.
       - Alteza - disse Murray -, o nico conselho que eu posso lhe oferecer  cautela. Estamos mal equipados e em desvantagem numrica. Se nos retirarmos para a 
Alta Esccia, aproveitando o inverno para planejar uma nova campanha que seria iniciada na primavera, poderamos atrair novamente os homens que desertaram e conseguir 
suprimentos frescos da Frana.
       - Essa  a ttica do desespero - retrucou Charles. - Haver runa e destruio, se batermos em retirada.
       - Seria uma retirada estratgica - explicou Murray e recebeu a aprovao dos outros membros do conselho. - No podemos agir impulsivamente.
       De olhos fechados, o prncipe ouviu seus conselheiros darem, um a um, seu apoio a Murray. Prudncia, cautela, pacincia. Apenas O'Sullivan pregava o ataque. 
E valia-se de lisonjas e promessas temerrias na tentativa de convenc-lo.
       Sbito, ele levantou-se da cadeira e varreu com a mo os mapas e os documentos abertos sobre a mesa. Depois olhou para Brigham.
       - E o que diz lorde Ashburn?
       Brigham tinha conscincia de que a estratgia de lorde George era a mais aconselhvel. Apesar disso, suas dvidas persistiam: uma retirada significava partir 
a espinha dorsal da rebelio. Pela primeira vez, que seria talvez a nica, concordava com O'Sullivan.
       -Com o respeito que devo a Sua Alteza, afirmo que se eu tivesse o poder da deciso marcharia para Londres ao raiar do dia, aproveitando o moral alto de nossas 
tropas.
       - O corao me diz para lutar, Alteza - disse um dos conselheiros. - Mas, na guerra, deve-se seguir tambm a razo. Se avanarmos sobre Londres agora, nossas 
perdas podem ser considerveis.
       - Ou grande o nosso triunfo! - objetou Charles com vigor. - Seremos como as mulheres, que cobrem as cabeas ao primeiro sinal de neve, e que s pensam em 
aquecer os ps junto ao fogo? Retirada estratgica, recuo...  tudo a mesma coisa!
       Ele voltou-se para Murray espumando indignao.
       - Ser que o senhor no pretende abandonar-me, depois de todos os protestos de lealdade e dedicao?
       Murray empalideceu como um homem que recebesse uma flechada no peito, mas falou com calma:
       - Jamais faria tal coisa. Meu nico objetivo na vida  ver sua causa bem-sucedida.
       A discusso continuou mas, antes que terminasse, Brigham soube como acabaria. O prncipe, sempre hesitante quando enfrentava uma dissidncia entre os seus 
conselheiros, seria forado a concordar com a estratgia cautelosa de Murray.
       No dia seis de dezembro, como previra, Charles decidiu-se pela retirada, mesmo consciente que o caminho de volta  Esccia seria longo. Os homens haviam perdido 
o estmulo. A interrupo do exuberante e agressivo avano, que dera tanto poder aos cls no vero anterior, sufocara o esprito da rebelio.
       Durante a retirada, tomaram Glasgow, uma cidade que lhes era abertamente hostil. Os homens, frustrados e desiludidos, queriam destru-la e saque-la. Apenas 
a cabea fria e o esprito de compaixo de Cameron de Lochiel impediram um massacre total.
       Continuaram sua marcha vitoriosa. Dominada a cidade de Stirling, homens, suprimentos e munies chegaram da Frana. Parecia, afinal, que o prncipe havia 
tomado a deciso certa, ao optar pela estratgia de Murray.
       As tropas voltaram a recompor-se com novas adeses. Houve outra batalha ao sul de Stirling, travada sob um purpreo crepsculo de inverno, e de novo sentiram 
o sabor da vitria. Mas experimentaram tambm o sofrimento, quando Ian MacGregor caiu sob uma espada inimiga.
       Ele resistiu durante toda a noite, apesar do ferimento ser mortal, mergulhado numa sonolncia inquieta. De madrugada, despertou de um leve embalo no limiar 
da conscincia e ergueu um pouco a mo hesitante at encontrar a de seu filho.
       - Sua me...
       - Eu cuidarei dela.
       - Sim - Ian balbuciou, respirando com dificuldade. - A criana... Meu nico pesar  no poder ver seu filho.
       - Ele ter seu nome - disse Coll.
       Os lbios exangues do moribundo entreabriram-se num leve sorriso.
       - Brigham.
       - Estou aqui, senhor.
       - No dome minha gata selvagem... Ela morreria no cativeiro. Ajude Coll a cuidar da pequena Gwen e de Malcolm.
       - Eu prometo.
       - Minha espada... Minha espada  para Malcolm. Voc j tem a sua, Coll.
       - Ele a ter, pai.
       - Tnhamos o direito de combater. - Ian abriu os olhos pela ltima vez. - Nossa raa  real. Somos MacGregor, a despeito de tudo.
       
       Aquele inverno, Charles, instalou seu quartel-general em Inverness. A inatividade novamente estimulou a debandada. Houve algumas escaramuas isoladas e, numa 
delas, os jacobitas conseguiram tomar o Forte Augusto, a odiada fortaleza inglesa cravada no corao da Alta Esccia. Mas os homens ansiavam por uma vitria decisiva 
e pela volta ao lar.
       Enquanto isso, Cumberland reunia suas foras e esperava o degelo. Mas parecia que o inverno jamais acabaria.
       
       Estava nevando, quando Serena ajoelhou-se diante do tmulo do pai. Fazia quase um ms que haviam trazido o corpo a Glenroe para que seus familiares e amigos 
pudessem chorar sua morte.
       As lgrimas voltaram a cobrir suas faces quando recordou a voz sonora e os olhos sempre risonhos. Gostaria de poder gritar, extravasar sua fria contra aqueles 
que o haviam matado. Mas estava esgotada. Em seu corao havia apenas angstia e uma dor profunda, insuportvel. Parecia que aos homens cabia lutar e s mulheres 
apenas chorar.
       Fechou os olhos e deixou que a neve molhasse seu rosto. J havia perdido um dos homens que amava. Como poderia viver, se perdesse outro? A rebelio era justa. 
"O povo que acredita firmemente num ideal, est pronto a lutar e morrer por ele". Seu pai dissera isso.
       - Papai... - murmurou. - Estou esperando um filho.
       Passou a mo pelo ventre e seus pensamentos voltaram-se instintivamente para Brigham. Ele ainda no sabia que estava grvida.
       - Serena!
       Voltou-se e deparou com Malcolm parado a alguns passos de distncia dela. A neve caa entre eles como uma cortina espessa, mas pde ver que havia lgrimas 
nos olhos dele. Sem proferir palavra, abriu-lhe os braos.
       Confortou-o enquanto ele chorava. Ele fora to corajoso, permanecera to firme segurando o brao da me quando o sacerdote murmurava a orao fnebre! Comportara-se 
como um homem. Agora, era um menino.
       - Odeio os ingleses! - ouviu-o dizer com voz abafada.
       - Mame diria que odiar no  cristo. Mas s vezes, eu acho que h um momento para odiar, assim como h um momento para amar.
       - Ele era um soldado corajoso.
       - E voc no acha que um soldado prefere morrer lutando por seu ideal?
       - Sim, mas eles estavam em plena retirada objetou Malcolm com amargura.
       A carta que haviam recebido de Brigham explicava a estratgia adotada, assim como a insatisfao e o crescente descontentamento das tropas.
       - No compreendo a estratgia do general Malcolm. Mas sei que, vencendo ou perdendo, nada mais ser como era antes.
       - Quero ir para Inverness e combater.
       - Malcolm...
       - No sou mais uma criana. Tenho a espada de papai! Vou us-la para ving-lo!
       Serena olhou para ele. O menino que chorara em seus braos era um homem novamente. Ele havia se endireitado e sua mo estava cerrada em volta do punho da 
adaga.
       - No, voc no  mais criana. E acredito que poder usar a espada de papai como um homem. No vou impedi-lo, se seu corao diz que voc deve ir. Mas gostaria 
que pensasse em Gwen e Maggie.
       - Voc pode cuidar delas.
       - Vou tentar, mas eu tenho de pensar em meu beb. - Ela tomou-lhe a mo entre as suas. - Quando eu estiver to pesada quanto Maggie, como poderei defend-las, 
se os ingleses chegarem? No lhe peo para no lutar, Malcolm. Mas gostaria que lutasse aqui. Como um homem.
       Perturbado, ele voltou-se e fitou o tmulo do pai. A neve cobria a lpide como uma mortalha branca.
       - Acho que papai gostaria que eu ficasse. 
       - No  vergonha ficar para trs. No, quando  a nica coisa certa a fazer. 
       - Mas  terrvel!
       - Eu sei. Acredite em mim, Malcolm. Eu sei! - Pensativa, Serena fez uma pausa antes de voltar a falar: - Se as tropas do prncipe esto to perto de Inverness, 
os ingleses no devem estar longe daqui. Podero atacar Glenroe. Ento, quem poder nos defender? H pouca gente na aldeia, e em sua maioria mulheres e crianas.
       - Voc acha que os ingleses chegaro at aqui?
       - Pode acontecer, Malcolm. J no atacaram Moy Hall?
       - E foram derrotados.
       - Mas esto perto demais. E como no podemos nos defender, teremos ao menos que nos proteger. Vamos procurar um lugar secreto nas colinas e construir um abrigo, 
se for preciso com as nossas prprias mos.
       - Conheo uma caverna. Pode ser um bom lugar.
       - No quer me levar at l amanh?
       
       Era quase abril e o inverno ia se extinguindo, alternando perodos de nevascas com geladas calmarias. O frio continuava e os exrcitos em luta cavavam abrigos 
e aguardavam o degelo.
       Brigham tinha partido com um punhado de homens famintos e cansados, um grupo miservel como tantos outros que vinham de Inverness,  procura de comida e suprimentos.
       Durante a batida, tomara conhecimento de certas notcias alarmantes que comeavam a circular: O duque de Cumberland, filho do Prncipe Eleitor, estava acampado 
em Aberdeen com um grande contingente de homens bem armados e bem alimentados, e parecia na iminncia de avanar sobre Inverness.
       "Preciso levar essas novas ao conhecimento do prncipe Charles imediatamente", pensou, olhando para trs com preocupao.
       Seus homens cavalgavam em total silncio. Eram soldados corajosos. Mas agora, prostrados pela fome e pelo cansao, pensavam apenas em encontrar alimento para 
encher seus estmagos vazios e dormir. No podia censur-los.
       Voltou-se na sela com um suspiro e perscrutou a estrada deserta. Tinham agora alcanado um bosque de pinheiros. Estavam prestes a penetrar em seu recesso, 
quando um inesperado contingente de drages vermelhos surgiu a oeste. Deteve os homens com um gesto e ergueu-se nos estribos para estudar o inimigo a distncia. 
Os ingleses eram superiores em nmero e pareciam descansados. Precisava decidir: escapar ou lutar.
       Fazendo seu cavalo dar meia-volta, olhou seus homens com determinao.
       - Cabe a vocs decidir: podemos galgar as colinas e escapar, ou enfrent-los aqui na estrada. Os casacos vermelhos tm os rochedos atrs de si. Esto, portanto, 
sem via de escape.
       - Para a frente! - gritou algum.
       Um homem desembainhou a espada. Depois outro e mais outro. Brigham sorriu. Era a reao que esperava.
       - Nesse caso, vamos mostrar-lhes quem so os homens do rei James! - Dizendo isso, partiu a galope.
       Animados pelo desespero e pelo exemplo de seu chefe, os homens cavalgaram como demnios, soltando gritos de guerra em galico e brandindo suas armas. Aps 
semanas de frustrao e raiva, queriam saciar naquele ataque a sede de vingana que havia muito os animava contra os soldados do usurpador.
       Conseguiram levar os drages para os rochedos e perseguiram-nos sem piedade. Quando terminaram, cerca de uma dezena de casacos vermelhos jaziam, mortos ou 
agonizantes, sobre a neve manchada de sangue. O resto da tropa esgueirava-se rapidamente, por entre as rochas.
       - Vamos atrs deles! - gritou um dos homens.
       Brigham bloqueou a estrada com seu cavalo.
       - Com que propsito? - Ele desmontou e limpou a lmina de sua espada na neve. - J fizemos o que devia ser feito. Agora, vamos cuidar dos mortos e dos feridos.
       - Vamos deixar os ingleses para os abutres!
       Brigham virou a cabea. Seus olhos estavam frios como gelo quando se fixaram no rosto sujo de sangue do escocs que falara.
       - No somos animais. Vamos enterrar os mortos, sejam amigos ou inimigos!
       Voltaram para Inverness lentamente, ainda mais famintos do que quando haviam partido. A cada milha que venciam, Brigham tomava conscincia, cheio de apreenso, 
como os drages haviam estado perto de Glenroe.
       
       
       
     CAPTULO XIV
       
       
       Os tambores rufavam, as gaitas tocavam. Em Inverness, o exrcito aprontava-se para combater. As poderosas foras do duque Cumberland encontravam-se a apenas 
doze milhas de distncia.
       - No aprovo o campo de batalha - disse Murray.
       Ele era ainda o conselheiro do prncipe mas, a partir do episdio da retirada, o muro de frieza que se erguera entre eles crescia inexoravelmente.
       - Por que no?
       - Drumossie Moor  um campo mais apropriado para as tticas do exrcito ingls, Alteza. O combate ser desigual.
       Murray fez uma pausa e escolheu as palavras com cuidado.
       - Essa charneca ampla e nua  ideal para as manobras da infantaria de Cumberland. Os escoceses do norte esto habituados a um solo mais ondulado.
       - O senhor est se esquivando! - interveio O'Sullivan, irnico. 
       - Alteza, os escoceses do norte j provaram que so audaciosos e sagazes em qualquer campo! O mesmo no se pode dizer do general.
       - Aqui, no se trata simplesmente de uma questo numrica.
       Murray deu as costas a O'Sullivan e sua argumentao se converteu num apelo  compreenso do prncipe.
       - Sir, esse campo  uma armadilha! Se nos retirarmos novamente para o norte, alm do Nairn Water...
       - Por que tanta obstinao, Murray? Por que foi, O'Sullivan quem escolheu o campo? - perguntou Charles. - Pois eu lhe digo que vamos permanecer e enfrentar 
Cumberland. Esperamos por esse momento todo o inverno. No vamos esperar mais!
       Murray e Brigham, que j haviam discutido a deciso do prncipe, entreolharam- se, desalentados.
       - A deciso est tomada, Alteza. Mas eu quero lhe propor uma manobra que, se bemsucedida, poder nos levar  vitria.
       - timo... se no incluir uma retirada, my lord.
       Murray sentiu a pungncia da resposta e enrubesceu.
       - Hoje  o aniversrio do duque. Ele ir celebrar a data em companhia de seus homens. Ficaro bbados como esponjas. Um ataque de surpresa  noite poder 
desmantelar as tropas.
       O prncipe considerou a estratgia.
       - O plano parece interessante. Continue.
       - Duas colunas de homens se aproximaro de ambos os lados do campo, num movimento em pina, e surpreendero os drages de Cumberland, enquanto eles dormem 
sob o efeito do lcool.
       - Um bom plano - murmurou o prncipe, os olhos brilhando de excitao. - A festa do duque pode durar pouco.
       O plano era de fato bom, mas os homens que deviam execut-lo estavam cansados e famintos. Esgueiraram-se no meio da noite escura e fria, e perderam o rumo, 
uma, duas, trs vezes seguidas. No eram mais do que um bando desordenado de homens frustrados, trpegos e esmagados pelo cansao, quando, ao amanhecer, voltaram 
para o acampamento.
       Montado em seus cavalos, Brigham e Coll observaram sua chegada.
       - Meu Deus... - murmurou o escocs. - A que ponto chegamos!
       Com o cansao a pesar tambm sobre seus ombros, Brigham voltou-se na sela. Os homens dormiam em p. Muitos deixavam-se cair no relvado do parque de Culloden 
Houx, ou na estrada.
       Brigham tornou a voltar-se e olhou para Drumossie Moor. A charneca, coberta agora de geada e de uma leve camada de neblina, era ampla e nua. Poderia converter-se 
num campo de parada para a infantaria de Cumberland. Ao norte, alm do rio Nairn, o solo era acidentado. Murray, com seu tato e experincia militar, o teria escolhido. 
Ali haveria ainda uma chance de vitria. Mas era O'Sullivan quem dava as cartas agora.
       - A campanha de Charles vai terminar aqui - disse Brigham com serenidade. - Para o melhor ou para o pior.
       Ele olhou para o cu que comeava a clarear. A leste, o sol emergia da camada espessa de nuvens. As fogueiras se apagavam  luz fraca da manh. Esporeando 
seu cavalo, atravessou o acampamento, gritando:
       - De p, homens! Pretendem dormir at que o inimigo venha lhes cortar a garganta? No esto ouvindo os tambores ingleses?
       Os soldados, estonteados de sono, levantaram-se com esforo e comearam a reagruparse em destacamentos. Guarneceu-se a artilharia e distriburam-se todas 
as raes disponveis s tropas. Mas serviram apenas para dar uma sensao de insatisfao aos estmagos vazios dos homens.
       Munindo-se de lanas e achas de combate, rifles e foices, eles se reuniram sob o estandarte dos MacGregor, MacDonald, Cameron, Chrisholm, Robertson e outros 
mais. Eram cinco mil homens em frangalhos, mal equipados, unidos apenas. por uma causa que consideravam justa, que se enchiam de uma nova esperana.
       Charles, parecendo um prncipe da cabea aos ps com seu casaco escocs e boina emplumada, passou as tropas em revista. Aqueles eram seus homens, e a tarefa 
que lhes destinara no era menor do que aquela que ele prprio havia assumido.
       - Companheiros! - bradou. - No h ningum a quem o interesse da Inglaterra e a vida de todos, ingleses e escoceses, sejam mais caros do que a mim. E eu lhes 
digo, nunca este pas necessitou tanto como agora do apoio daqueles que o amam.
       Atravs da charneca, observaram o inimigo avanar. Vinham em trs colunas que lenta, disciplinadamente, converteu-se numa nica linha. A exemplo do prncipe, 
o duque desempenhou seu papel de representante do poder e percorreu-a lentamente, encorajando os soldados.
       Acima do uivar do vento que aoitava as faces plidas dos jacobitas, ouviu-se novamente o rufar dos tambores e o som plangente das gaitas de fole. Depois, 
o silncio. A direita, um tiro de canho ecoou, surdo, solitrio, e perdeu-se na distncia. O primeiro estampido ainda ressoava, um segundo e um terceiro ribombaram. 
A batalha comeava.
       
       Quando o primeiro tiro de canho explodiu perto de Culloden House, Maggie contorceu-se num espasmo e gemeu. Depois, esgotadas as foras, deixou escapar um 
fraco queixume.
       - Pobre menina... - murmurou a sra. Drummond, que chegava com gua fresca e lenis limpos.
       Fiona terminou de banhar o rosto suado de sua nora e voltou-se para ela.
       - Alimente o fogo, por favor. Precisamos manter o quarto aquecido para o momento em que o beb nascer.
       - Quase no h mais lenha.
       - Usaremos toda a que temos. Gwen?
       - O beb est sentado, mame. - A jovem endireitou-se e flexionou os msculos das costas. - Maggie  to pequena...
       Serena agarrou-a pelo brao e perguntou baixinho:
       - Pode salvar os dois?
       As duas se olharam. Aps uma pausa, Gwen acenou com a cabea.
       - Se Deus quiser... - E observou, cautelosa: - Pode haver complicaes.
       - Serena... - soluou Maggie nesse instante. - Voc est a?
       - Sim, meu amor. Eu estou aqui. Ns trs estamos aqui.
       - Coll... eu quero Coll.
       - Ele vai voltar. - Serena tomou-lhe a mo crispada e beijou-a. - Procure descansar entre as contraes para recobrar as foras.
       - Tentarei. Vai demorar muito?
       Maggie olhou para Gwen.
       - Diga-me a verdade. H algo errado com o meu beb?
       Gwen debruou-se sobre a cama para apalpar e examinar-lhe o ventre rgido. Por uma frao de segundo, foi tentada a mentir. Mas, embora fosse ainda jovem, 
achava que as mulheres deviam enfrentar a verdade com coragem.
       - Ele est de ndegas, Maggie. Eu sei o que tem de ser feito. Mas no ser um parto fcil.
       - Vou morrer?
       No havia desespero na pergunta de Maggie, apenas a necessidade de saber a verdade.
       - No.
       Gwen j tomara a sua deciso. Se tivesse que optar, salvaria a vida da me. Porm, antes que pudesse proferir palavra, uma nova contrao obrigou Maggie a 
arquear-se.
       - Meu beb... no deixe meu beb morrer! Prometa!
       - Ningum vai morrer - disse Serena, alisando-lhe os cabelos midos de suor. - Mas voc tem de lutar. Quando sentir dor, grite! Mas no desista. Os MacGregor 
nunca desistem.
       
       O fogo concentrado da artilharia inimiga continuava a fazer estragos nas linhas jacobitas. Os homens caam como moscas. O vento aoitava os rostos dos que 
recompunham as fileiras, a fumaa os cegavam, eles, porm, mantinham suas posies, agentando o fogo inimigo e o massacre de seus companheiros.
       - Senhor, por que no nos do ordem de avanar? - Coll, o rosto sujo de fuligem, olhava para aquela carnificina com ar desesperado. - Quando chegar a hora 
j estaremos aniquilados pela longa espera. E sem que tenhamos erguido a espada!
       Brigham fez meia-volta e galopou at alcanar o flanco direito.
       - Em nome de Deus! - gritou ele, quando se defrontou com o prncipe. - D a ordem para avanar. Estamos morrendo como ces danados!
       - Aguardamos que Cumberland faa o primeiro movimento.
       - Esperaremos em vo! Seus canhes esto arrasando nossas linhas de vanguarda! - Lorde Ashburn...
       - Cumberland no ir atacar enquanto puder nos matar a distncia, Alteza! Se pudssemos ao menos responder ao fogo... Mas no contamos com uma artilharia 
de grande alcance!
       Charles ia dispens-lo. Sua posio era tal que no lhe consentia uma viso clara do poder mortal da artilharia de Cumberland e do horror da situao. Mas, 
naquele instante, o prprio Murray chegou dizendo:
       - Precisamos dar uma ordem imediata, Alteza. Atacar ou recuar?
       - Atacar - concedeu o prncipe.
       O mensageiro preparava-se para executar fielmente a ordem, quando foi abatido sem que pudesse alcanar as vanguardas. Em vista disso, Brigham tornou a esporear 
o cavalo e saiu em disparada gritando "atacar"!
       Os soldados que formavam o centro das tropas foram os primeiros a se moverem, correndo como selvagens atravs da charneca, e deferindo golpes com suas espadas 
e foices. Pareciam lobos sedentos de sangue. Porm, eram apenas homens e seus esforos desesperados encontraram uma resistncia igualmente vigorosa por parte dos 
inimigos, que os receberam com uma descarga mortal de seus rifles.
       O ataque escocs continuou, mas o terreno, como Murray havia previsto, favorecia os ingleses. Ainda assim, por um instante, os escoceses conseguiram fragmentar 
a vanguarda de Cumberland, forando os drages a recuarem. Contudo, a segunda linha resistiu, despejando uma rajada de fogo devastador sobre os escoceses enfurecidos. 
Eles caam aos montes, de modo que os que ainda estavam de p, eram forados a passar por cima dos corpos de seus infortunados companheiros.
       Sobre o campo havia a bruma, a umidade e o cheiro cido, estranho, de salitre e de sangue. Enquanto Brigham abria caminho por entre as formaes escocesas, 
a bruma desfez-se e a situao tornou-se mais clara: o flanco direito do exrcito do prncipe Charles estava rompido.
       Num manobra desesperada, ele obrigou seu cavalo a dar meia-volta, determinado a reagrupar o maior nmero de homens que pudesse. Ento viu Coll. Cercado por 
um grupo de drages, ele girava sua espada de dois gumes no ar, afrontando-os com toda a animosidade que um dio mortal podia inspirar. Sem hesitar, desmontou e 
foi em seu auxlio.
       Em torno deles, os jacobitas ainda lutavam com ardor mas, pouco a pouco, eram forados a recuar para a charneca. A ala direita despedaada permitia a passagem 
dos drages que, agora, ameaavam os soldados em retirada. Os escudos fendiam-se aos repetidos golpes das espadas. O chocar das armas e os gritos dos combatentes 
misturavam-se aos sons das gaitas de fole, e afogavam os gemidos dos que caam e que ficavam rolando indefesos sob as patas dos cavalos.
       Mas, naquele momento, a derrota pouco significava para Coll e Brigham, que continuavam a lutar ombro a ombro. Tomados de compreensvel fria, ambos investiram 
contra o grupo de drages e, golpeando a torto e a direito, derrubaram um adversrio a cada golpe.
       Aps essa pequena vitria pessoal, os dois puseram-se a correr pela charneca, escorregadia pelo sangue dos mortos e dos feridos.
       - Meu Deus... eles nos destruram!
       J no era uma batalha, era uma carnificina contnua. Os canhes troavam por toda a extenso da misteriosa fumaa que ora se dissipava, obuses e granadas 
voavam constantemente, com um sibilo rpido. A cada novo tiro, os que ainda sobreviviam tinham menos probabilidades de escapar com vida.
       Coll olhava para aquele espetculo estarrecido. Era algo que homem nenhum jamais esqueceria, um vislumbre do inferno.
       - Deviam ser mais de dez mil ingleses... - comeou ele a dizer, quando viu um drago mutilar brutalmente um dos homens de seu cl. - Co! - gritou, cerrando 
os dentes, e desferiu-lhe uma violenta pancada na cabea.
       Depois de muito esforo, Brigham conseguiu arrast-lo para longe.
       - Basta! No h mais nada que possamos fazer aqui, a no ser morrer. A causa est perdida. A rebelio terminou.
       Mas Coll no o ouviu. Brandia a espada que tinha na mo, a sede de vingana brilhando em seus olhos alucinados.
       - Reflita, amigo. Glenroe est perto demais daqui. Temos que voltar e tirar nossa gente de l.
       - Maggie! - Lgrimas comearam a correr dos olhos de Coll. - Sim, voc tem razo.
       Puseram-se a caminho com os sabres prontos. Aqui e ali ouviam-se gritos e tiros espordicos. Estavam quase alcanando a borda da charneca, quando o drago 
ferido ergueu seu mosquete e fez montaria. Brigham viu o orifcio negro da arma de fogo crescer e deu cobertura a Coll. No sentiu o tiro. Apenas viu, de repente, 
bem junto de seus olhos, a relva que cobria Drumossie Moor. Depois, suas plpebras fecharam-se.
       
       Flexionando os msculos tensos das costas, Serena saiu de casa para respirar um pouco de ar fresco. Havia batalha que s as mulheres conheciam e ela acabava 
de travar uma delas. Tinham passado quase duas noites na desesperada tentativa de trazer a criana de Maggie ao mundo. Houvera muito sangue e sofrimento, tanto como 
nunca imaginara ser possvel. O menino viera ao mundo, mas deixara sua me entre a vida e a morte.
       Agora, era quase noite, e Gwen garantira que Maggie viveria. Ela ouvira os primeiros, dbeis vagidos de seu filho e sorrira, antes de desmaiar de exausto 
e de fraqueza.
       Ali fora a brisa era fresca, com o aproximar-se da noite. A leste, as primeiras estrelas tremulavam no cu escuro.
       - Oh, Brigham... Preciso tanto de voc!
       - Serena?
       Ela virou-se, sobressaltada, e estreitou os olhos para focalizar a figura que emergia das sombras.
       - Rob... Rob MacGregor?
       Ento viu-o claramente, o gibo manchado de sangue, os cabelos emplastrados de suor e sujeira, os olhos selvagens.
       - Meu Deus! Que aconteceu? - gritou, correndo para ampar-lo.
       - A batalha... os ingleses... eles nos destruram, nos massacraram!
       Serena sacudiu-o pelos ombros.
       - Onde est Brigham? Em nome de Deus, diga onde est Brigham!
       - No sei. Tantos. morreram, tantos... - Rob chorou no ombro dela. Meu pai, meus ir- mos... Eu os vi cair diante de meus olhos.
       - Viu Brigham? - perguntou ela, desesperada. - E Coll?
       - Sim, eu os vi. Mas havia muita fumaa e os canhes no paravam de atirar. O campo estava coberto de mortos e feridos.
       - Oh, Deus... - Serena fechou os olhos. Precisava acreditar que Brigham e Coll tinham sobrevivido!
       - Havia centenas de corpos tambm ao longo da estrada, mas no pudemos enterr-los.
       - Quando foi isso?
       - Ontem. Mas parece que foi h um sculo. 
       - Acha que eles viro aqui?
       - Esto nos caando como animais selvagens! No respeitam nem as mulheres, nem as crianas.
       Serena o manteve em seus braos at que toda aquela tenso se dissipasse. Depois, afastou-se delicadamente.
       - E sua me?
       - Ainda no fui para casa. No sei como dar-lhe a notcia.
       - Diga-lhe que os homens morreram bravamente, a servio do verdadeiro rei. Depois, leve-a para as colinas, junto com as outras mulheres.
       Serena olhou para a trilha imersa em sombras.
       - Desta vez, quando os ingleses chegarem para queimar as casas, no encontraro nenhuma mulher para violentar.
       Ao voltar para casa, ela foi procurar Gwen, que estava ainda  cabeceira de Maggie.
       - Como est ela?
       - Muito fraca. Gostaria de saber mais coisas. H tanto para aprender...
       - Voc fez tudo o que podia ser feito. Salvou me e filho.
       Gwen voltou-se para a grande cama de dossel, onde Maggie dormia.
       - Tive muito medo.
       - Todos ns tivemos.
       - At voc? - Gwen sorriu. - Voc parece to confiante, to segura de si... Bom, o pior j passou. A criana  saudvel, graas a Deus.
       Quanto a Maggie, algumas semanas de repouso e cuidados faro milagres.
       - Quando acha que ela, poder se levantar? 
       - Levantar-se? Para qu? 
       - Acabo de ver Rob MacGregor. 
       - Rob? Mas...
       - Houve uma batalha, Gwen. E foi terrvel! 
       - Coll... Brigham?
       - Rob no sabe. Mas ele me disse que o campo estava coberto de mortos e feridos. Os ingleses esto perseguindo os sobreviventes. 
       - Podemos escond-los! Se os ingleses chegarem aqui e encontrarem apenas mulheres, partiro novamente.
       - J esqueceu o que aconteceu antes? 
       - Aquele homem era um doido!
       - Rob disse que esto todos loucos. Os drages no esto respeitando nem as mulheres, nem as crianas. Se eles chegarem aqui antes que essa loucura passe, 
nos mataro a todos. Maggie e as crianas.
       - Ela poder morrer, se tentarmos remov-la!
       - Antes isso, do que v-la torturada pelos ingleses. Apronte tudo o que for necessrio.
       Deixaremos a casa ao amanhecer.
       - O que vai ser de voc e de seu beb?
       Os olhos de Serena brilharam intensamente. 
       - Vamos sobreviver!
       Com suas prprias palavras a ecoar em seus ouvidos, ela desceu as escadas. Na cozinha, sua me preparava uma bandeja com o jantar de Gwen.
       - Mame?
       - Voc deve descansar, Serena. V para a cama.
       - Precisamos conversar. 
       Fiona empalideceu.
       - Aconteceu alguma coisa a Maggie? Ou ao beb?
       - Os dois esto bem. E Malcolm?
       - Est na estrebaria, cuidando dos cavalos. 
       Serena voltou-se para Parkins e a sra.Drummond.
       - Ouam todos.
       Ela abarcou os trs com um s olhar e esperou um minuto, reunindo as foras e as palavras. Depois, com voz firme, disse-lhes tudo.
       
       Deixaram o solar  primeira luz do dia, levando consigo apenas o estritamente necessrio. Parkins deitou Maggie numa padiola que ele improvisara e deu incio 
 jornada para as colinas. O percurso foi feito lentamente e quase em silncio. Ningum tinha vontade de falar.        .
       Fizeram a primeira parada ao atingirem o alto da colina, onde as primeiras flores silvestres abriam-se ao sol, e voltaram-se para contemplar o cenrio. Fiona 
lanou um olhar nostlgico para o vale. Os bosques que ela atravessara pela primeira vez quando recm-casada refulgiam sob a leve bruma matutina. Pouco alm estava 
a casa onde vivera com Ian e seus filhos.
       - Voltaremos, mame - disse Serena, passando-lhe o brao pela cintura. - Eles no tomaro nossa casa.
       Fiona ergueu altivamente a cabea.
       - Sim, os MacGregor voltaro a Glenroe.
       Ficaram mais alguns minutos contemplando os telhados azuis, de ardsia, que brilhavam ao sol d a manh e depois seguiram caminho. Alcanaram a caverna duas 
horas depois. J havia ali uma proviso de lenha e de pedaos de turfa, cobertas, vveres, remdios e leite fresco. Oculta atrs das rochas que formavam o fundo, 
estava a arca que continha os bens de Brigham.
       Serena apoiou a espada de seu pai na entrada e verificou as pistolas e as munies.
       - Sabe atirar, Parkins?
       - Se for necessrio, lady Ashburn.
       A despeito de seu cansao, ela sorriu de seu ar formal.
       - No quer ficar com esta?
       - Pois no, my lady - disse ele, apanhando a arma com uma leve inclinao de cabea.
       - Voc  uma preciosidade - disse Serena, lembrando com que destreza ele construra a padiola para Maggie e com que cuidado levara a carga frgil atravs 
da ladeira ngreme.
       - Obrigado, my lady.
       - Comeo a perceber por que lorde Ashburn no dispensa os seus servios. Faz tempo que est com ele?
       - Estou a servio dos Langston h muitos anos, my lady. - A voz de Parkins tornou-se mais branda. - Ele voltar para ns.
       As lgrimas ameaaram transbordar dos olhos de Serena.
       - Gostaria de lhe dar um filho homem. Qual era o nome do pai dele? 
       - Daniel, my lady.
       - Daniel. - Ela sorriu. - Ento ns o chamaremos de Daniel!
       - No quer descansar agora, lady Ashburn? A jornada foi muito cansativa.
       - Estive pensando; Parkins: quando Brigham e meu irmo voltarem, algum ter de avis-los que estamos aqui. Ser necessrio que um de ns desa de vez em 
quando at o vale. Creio que Malcolm, voc e eu poderemos nos revezar nessa tarefa.
       - No, my lady.
       - No?
       - No, senhora. No posso permitir que faa esse esforo. Meu patro no gostaria.
       Serena olhava-o, atnita.
       - No compreende, homem? Precisamos avis-los!
       - O jovem Malcolm e eu nos encarregaremos disso. A senhora ficar aqui, my lady.
       Serena franziu a testa.
       - No, quando posso ser til a meu marido!
       Parkins estendeu calmamente uma manta perto do fogo.
       - Insisto para que descanse, lady Ashburn. My lord faria questo disso.
       - Se lorde Ashburn estivesse aqui, tenho certeza de que o despediria!
       - Ele ameaou despedir-me vrias vezes. Mas nunca o fez - objetou Parkins com uma impassibilidade tipicamente britnica. - E agora, se me permite, vou lhe 
preparar um pouco de leite quente.
       
       Serena dormiu com a pistola numa das mos e a espada na outra. Mas seus sonhos foram deliciosos, povoados com a imagem de Brigham. Revia-o to nitidamente, 
que pde quase sentir o calor de seu corpo, quando ele segurou-lhe ambas as mos e atraiu-a para si.
       Danaram  margem do rio, ao som do murmrio das guas e do canto dos pssaros. Ele usava um traje com debruns de prata, e ela um vestido de cetim semeado 
de prolas. Quando ele inclinou-se para beij-la, enlaou-o murmurando "no  o fim para ns, querido". Depois abriu os olhos e olhou-o. Ele era to bonito! E sabia 
beijar com tanta doura!
       Sbito, viu o sangue que manchava o seu casaco. O sangue era to real, que podia sentir seu contato pegajoso na palma da mo. Assustada, quis sustent-lo 
nos braos, mas a imagem desvaneceu-se e ela ficou sozinha  margem do rio.
       Acordou murmurando "Brigham". Um pnico incontrolvel dominou-a. Ergueu a mo e no encontrou sangue algum. Lentamente, lutando para separar o sonho da realidade, 
percebeu que no era o canto de um pssaro que ouvira, mas o grito de uma guia. No escutara o murmrio do rio, mas o gemido do vento.
       "Ele est vivo!", disse a si mesma, com fervor.
       Quase no mesmo instante, ouviu o choro do recm-nascido. Levantou-se com esforo. Maggie, com a ajuda de Fiona, amamentava o pequeno Ian.
       - Serena. - As faces da cunhada estavam ainda plidas, mas seu sorriso era doce. - Venha ver o meu beb. Ele fica mais forte a cada dia que passa.
       - Ele  lindo! - disse Serena sentando-se ao lado dela. - E parecido com voc, graas a Deus!
       Maggie riu.
       - Eu no sabia que podia amar, outra pessoa tanto quanto amo Coll. Mas agora eu sei. 
       - Como est se sentindo?
       - Fraca, cansada... No gosto de me sentir assim.
       Fiona acariciou-lhe o rosto.
       - Procure dormir um pouco. Eu cuidarei dele. 
       - Coll vai voltar logo? 
       - Sim, logo. E ficar orgulhoso de seu filho. 
       Serena pegou o beb no colo. 
       - Parece um milagre!
       - Todas as crianas so um milagre - disse Fiona. 
       - So a promessa de uma nova vida. Sem elas, no poderamos suportar a morte e a dor da perda.
       Serena olhou-a fixamente. 
       - Acha que eles morreram?
       - Peo sempre a Deus que olhe por eles. 
       - Onde est Malcolm?
       - Com Parkins. Os dois saram assim que voc pegou no sono. Foram buscar algumas coisas que esto faltando.
       Serena assentiu e aceitou a tigela de leite que a sra. Drummond lhe ofereceu.
       - No se preocupe com aqueles dois, querida - disse ela. - Meu Parkins sabe o que faz.
       - Ele  um bom homem, sra. Drummond. Um leve rubor subiu s faces redondas da cozinheira.
       - Sabia que vamos nos casar?
       - Fico muito feliz... - Serena interrompeu-se e fez uma pausa. - Ouviu isso, mame?
       - No ouvi nada - disse Fiona, mas seu corao bateu mais forte.
       - Algum est chegando. V para o fundo da caverna e no deixe Ian chorar.
       Antes que a me pudesse impedi-la, Serena caminhou silenciosamente para a entrada da caverna e empunhou a pistola com mo firme. Seria capaz de matar o intruso, 
se Deus no lhe mostrasse outro caminho! O ingls que entrasse ali, encontraria algumas mulheres sozinhas mas no indefesas! Atrs dela, a sra. Drummond apanhou 
o faco de cozinha e ficou  espera.
       Quando os passos se aproximaram, no houve mais dvidas, de que a caverna seria avistada. Erguendo a arma, saiu para fora da caverna, e preparou-se para lutar.
       - E mesmo minha gata escocesa ou uma miragem?
       Brigham, amparado por Coll e Parkins, tentou sorrir para ela.  luz do dia, as manchas pegajosas que se alargavam sobre seu casaco e seu calo eram claramente 
visveis.
       Serena deixou cair a arma e correu lanando um grito:
       - Brigham!
       Ele murmurou seu nome e depois tombou para frente.
       
       
       
     CAPTULO XV
       
       
       - Ele no vai morrer, no  verdade? - perguntou Serena, desesperada. O medo revolvia-lhe as entranhas, causando-lhe ligeira vertigem.
       Gwen permaneceu em silncio, ocultando a dvida que sentia, e continuou a apalpar delicadamente o flanco direito do ferido, onde a bala se alojara.
       - O tiro seria para mim, se Brigham no se colocasse na minha frente - disse Coll abruptamente.
       - Foi assim? - indagou Fiona, cheia de compaixo.
       Seu filho acenou vagamente com a cabea.
       - Estvamos derrotados, no havia mais nada que pudssemos fazer. Ele queria sair daquele inferno a qualquer custo. - Coll fez uma pausa demorada. - A princpio, 
pensei... pensei que ele estivesse morto.
       Serena acariciou-lhe a mo.
       - Voc o trouxe de volta para mim. Obrigada.
       Coll fechou os olhos. No conseguia esquecer o desespero que sentira, quando, com Brigham s costas, seguira a trilha acidentada que levava ao dorso da colina. 
Escondera-se numa cavidade de rocha e ministrara os primeiros cuidados ao amigo enquanto os ingleses vasculhavam os urzais. Ao cair da noite, haviam iniciado a longa 
caminhada de volta ao lar.
       - Estvamos com pressa por causa de vocs - tornou. - Temamos que os ingleses chegassem antes que pudssemos tir-los do solar.
       Gwen endireitou-se e todos os olhares se voltaram para ela.
       - A bala tem de ser extrada. S um mdico pode fazer isso.
       - No h mdicos em Glenroe! - gritou Serena, subitamente fora de si. - Se sairmos  procura de um, atrairemos a ateno dos ingleses.
       -Sim, mas...
       - Logo tero conhecimento da presena de um fugitivo aqui. Brigham  um homem marcado. Eles o faro prisioneiro... e o mataro!
       Gwen fitou-a cheia de piedade.
       - Que podemos fazer?
       - Tente alguma coisa, pelo amor de Deus!
       - O ferimento  profundo, no saberia o que fazer. Poderia mat-lo, ao invs de salvar-lhe a vida.
       - Pois bem. Eu mesma farei isso!
       - My lady. - A voz de Parkins era calma e controlada. - Eu removerei a bala com a assistncia da srta. MacGregor.
       - Voc est maluco! - disse Serena sem meias palavras. - No estamos falando de rendas e babados, mas da vida de um homem!
       - J fiz isso uma vez, my lady - insistiu Parkins, imperturbvel. - Vou acender o fogo e ferver uma chaleira de gua. Depois, algum ter de segurar lorde 
Ashburn para mim.
       - Eu mesma farei isso - Serena falou com determinao. - E pea a Deus que sua mo no falhe!
       Gwen esterilizou a faca e depois derramou uma infuso de papoula por entre os lbios semicerrados de Brigham.
       - V descansar, Serena. Eu assistirei Parkins.
       - No, isso cabe a mim.
       Enquanto Parkins tirava o casaco e arregaava as mangas, preparando-se para agir, ela fechou os olhos por um momento. Estava tomando em suas prprias mos 
o que restava do fio de vida de seu marido. Tornou a abri-los e fitou Parkins. Sua calma tranqilizou-a. Hesitou apenas um segundo, antes de fazer-lhe um sinal para 
que desse incio  cirurgia.
       Embora sob o efeito da droga, Brigham gritou de encontro  mordaa que lhe enfiaram na boca, e Serena teve que lanar mo de toda a sua fora para segur-lo. 
Como em transe, ela observou o sangue do marido empapar o cho de terra, enquanto seu rosto tornava-se lvido e seus lbios exangues.
       A bala havia se cravado profundamente na carne, e Parkins teve de gastar minutos preciosos para localiz-la.
       - Encontrei-a - disse ele por fim, o suor escorrendo-lhe do rosto. - Mantenha-o imvel, my lady.
       Quando a operao terminou, Gwen substituiu-o.
       - Temos que estancar o sangramento. Brigham j perdeu sangue demais. Sra. Drummond, passe os ungentos.
       Feitos os curativos, ela enrolou de novo os cobertores em torno do corpo ferido e depois voltou-se para sua irm, que parecia a ponto de desmaiar.
       - V tomar um pouco de ar, querida.
       Serena levantou-se e caminhou lentamente para a entrada da caverna. Um ano antes, fora Brigham que havia chegado a Glenroe carregando Coll gravemente ferido. 
Agora, era seu marido que estava  beira da morte. O tempo entre esses dois acontecimentos passara como num sonho, marcado por momentos de amor, paixo, lgrimas 
e risos.
       Ergueu os olhos e observou a paisagem. Ao longe, em meio  tranqilidade que reinava no vale, as colinas tomavam uma colorao purprea. "Nossa terra" pensou, 
"pela qual muitos lutaram." Seu pai dissera: "No lutamos em vo." No entanto, o homem que amava estava agonizando e a terra pela qual haviam lutado escapava-lhe 
das mos. Esse era o momento que ela, havia muito, receava: o momento em que as duras conseqncias da luta se tornavam, afinal, claras.
       - Lady Ashburn.
       Ela era lady Ashburn, mas tambm uma MacGregor. Pousou a mo no ventre e sentiu o pulsar de uma nova vida, de uma nova esperana. No, a luta no fora em 
vo!
       Voltou-se e quase sorriu. Parkins tinha envergado o casaco e assumido novamente o seu papel.
       - Sim?
       - No gostaria de tomar um pouco de ch? - perguntou ele, passando-lhe s mos uma tigela de madeira.
       - Obrigada, Parkins. - Serena tomou, um gole da bebida fumegante e fitou-o. - Quero me desculpar pela minha rudeza. Espero que no tenha se ofendido.
       - My lady estava muito preocupada - disse ele, a expresso cheia de bondade.
       - Voc tem mos firmes, Parkins. E um corao de ouro.
       - Obrigado, my lady.
       - Salvou a vida de lorde Ashburn. Fico-lhe muito grata por isso. E gostaria de fazer alguma coisa por voc.
       Parkins balanou a cabea, num gesto de veemente recusa. Depois, muito solene, disse:
       - Nada fiz para merecer sua benevolncia.
       - Voc fez muito, no sabe quanto!
       Dito isto, Serena voltou para junto do marido. O vento levantara-se, violento. Penetrava atravs da coberta que vedava a entrada da caverna e fazia as chamas 
do fogo se inclinarem. Em seu encalo, ela ouvia algo que se assemelhava a um riso reprimido, a suspiros, murmrios e gemidos. Eram os espritos das colinas, mas 
no a assustavam.
       Velou Brigham a noite inteira. Ele delirava no colcho de palha, murmurando palavras e frases entrecortadas. Por elas, teve uma noo mais clara de todo o 
horror da batalha, e do perigo que ele e Coll tinham enfrentado.
       Pouco antes do raiar do dia, Fiona ofereceu-se para substitu-la.
       - Voc precisa descansar. Por si mesma e por seu filho.
       - No posso deix-lo, mame. s vezes, ele abre os olhos e me olha, dando a impresso de que sabe que estou ao seu lado.
       - Ento, deite a cabea no meu colo e durma um pouco.
       - Ele  to bonito, mame!
       Fiona sorriu.
       - Sim, Brigham  muito bonito.
       - Meu beb vai se parecer com ele. Vai ter esses mesmos olhos cinzentos e essa boca bem-feita.
       Serena fechou os olhos e as recordaes a invadiram.
       - Eu o amei desde a primeira vez que o vi. Mas fiquei assustada. No sabia que o corao tem razes mais profundas do que aquelas que eu tinha imaginado. 
Agora eu sei.
       
       Os sonhos de Brigham eram impregnados de horror. Ele se via quase sempre em meio a um mundo destrudo, gotejando sangue. Em torno dele, os homens agonizavam, 
os rostos cheios de dor. Podia at sentir o cheiro da morte, predominando sobre o odor acre da plvora. Podia ouvir o som das gaitas, o rufar dos tambores e o incessante 
ribombar da artilharia ultrapassando todos os lamentos.
       Punha-se a correr e de repente era atirado no ar por um estampido medonho e principiava a cair, a cair, num longo redemoinho sem fim, at bater de encontro 
ao solo relvoso. A vida esvaa-se de seu corpo lentamente e parecia a ponto de interromper-se.
       s vezes, quando abria os olhos, via Serena to nitidamente, que conseguia distinguir suas faces plidas pelo cansao. Ela se debruava sobre ele e o acariciava 
com mos macias. Reagia, num esforo para v-la melhor. Mas suas plpebras pesavam como chumbo.
       Durante trs dias, debateu-se na inconscincia. No percebia nada do pequeno mundo que fervilhava  sua volta. Ouvia vozes, mas no conseguia entender o que 
diziam. Pensou ouvir uma mulher chorar baixinho e depois uma criana choramingar.
       Ao final de trs dias, caiu num sono profundo, sem sonhos. O despertar foi algo semelhante a um parto: confuso, doloroso, desamparado. Ainda no tinha conscincia 
plena de onde se encontrava, se na charneca, em meio  batalha, ou em outro lugar qualquer.
       O primeiro jato de luz feriu seus olhos. Fechou-os novamente e procurou se orientar por meio dos sons e dos odores. Havia o cheiro enjoativo de papoulas, 
de terra, de lenha queimando, e, coisa estranha, o cheiro bom de batatas assando. Ouviu murmrios. Pacientemente, ps-se a decifrar as vozes. Coll. Gwen. Malcolm. 
Uma onda de calor percorreu-lhe o corpo, to reconfortante quanto o produzido por vinho fino, Serena devia estar ali tambm!
       Aos poucos, seguro daquele calor que o aquecia, foi abrindo os olhos. Agora, a via a um palmo de seus olhos, mirando-o cuidadosamente, uma expresso de alegria 
no rosto adorvel. Abriu a boca, mas no emitiu nenhum som.
       - Serena - conseguiu balbuciar por fim, ao estender o brao para toc-la.
       Serena se debruou sobre ele, no sabendo se ria ou chorava.
       - Voc voltou para mim, amor!
       
       A princpio, Brigham permaneceu num estado entre a viglia e o sono. Despertava, quando lhe passavam uma toalha mida pelo corpo dolorido, ou quando o faziam 
tomar ch. Era bom sentir o lquido descer por sua garganta ressequida.
       A lembrana da batalha era clara, mas no se lembrava do que acontecera depois. Gradualmente, com a ajuda de Coll, foi coordenando os pensamentos e as recordaes 
dolorosas. E no conseguiu dominar o pesar e a indignao..
       - O'Sullivan estava enganado. E ns... nada pudemos fazer. No podamos dar ordens ao prncipe. E agora...
       Sua revolta atenuava-se apenas quanto tinha Serena e seu filho ainda por nascer junto de si..
       - Este lugar no nos oferecer segurana por muito tempo - disse-lhe certa tarde.
       - Voc est ainda muito fraco para locomover-se - observou ela.
       Ele beijou-lhe as mos com ar pensativo.
       Como poderia permitir que sua esposa desse  luz naquela caverna?
       - Tenho parentes em Skye, eles podero nos ajudar. Quando acha que Maggie e o beb estaro suficientemente fortes para viajar?        
       - Dentro de um ou dois dias. Mas voc no poder participar de uma viagem com os ferimentos ainda abertos!
       - Estou curado. Ademais, meus ferimentos tm menos importncia do que um arranho de alfinete.
       - Voc estar curado quando ns lhe dermos alta!
       Um brilho da antiga arrogncia surgiu nos olhos dele.
       - A senhora  uma tirana, madame.
       Ela sorriu.
       - Fui sempre uma tirana, Sassenach.
       - Adorvel tirana... - murmurou ele, afundando a cabea no travesseiro.
       - Descanse agora. Quando recobrar as foras, iremos para onde voc quiser.
       Brigham olhou-a com intensidade.
       - Vou tomar isso como uma promessa, Serena.
       A voz dele estava to fraca, que Serena sentiu seu corao oprimir-se. Quando ele partira, era um homem forte, invencvel. Voltara para ela a beira da morte.
       - Onde esto Coll e Malcolm?
       - Saram para caar. Talvez tenhamos carne para o jantar.
       Deitou-se ao lado dele e, enquanto continuava a acarici-lo, pensava por que seus irmos estavam demorando tanto para voltar.
       
       Os dois estavam deitados de bruos no alto do plat que se erguia atrs da encosta da colina, e olhavam para o vale. Havia no ar o cheiro do incndio. Fios 
de fumaa e pequenas chamas subiam para o cu. O solar dos MacGregor ardia e as pequenas herdades jaziam em runas, com os chals arrasados at o solo. Os ingleses 
tinham voltado novamente trazendo o fogo, a morte, a destruio!
       - Que o diabo os leve - murmurou Coll, batendo com o punho no solo rochoso. - Que o diabo os leve!
       - Por que esto queimando nossas casas? - perguntou Malcolm, com os olhos cheios de lgrimas. - Que necessidade h de destruir nossos lares? 
       Os estbulos, lembrou-se ele de repente e fez meno de levantar-se.
       Coll segurou-o pelo brao.
       - Eles j devem ter retirado os cavalos de l, garoto. 
       Malcolm encostou o rosto na pedra bruta e chorou.
       - Ser que agora nos deixaro em paz? 
       O irmo lembrou-se da carnificina da batalha de Culloden e murmurou:
       - Receio que no. Iro dar uma busca nas colinas e perseguir os fugitivos sem descanso. Temos que voltar depressa para a caverna.
       
       Serena estava sentada a pequena distncia do fogo, em repouso. Ouvia a lenha estalar, Maggie cantar uma cano de ninar ao pequeno Ian, a sra. Drummond e 
Parkins falarem baixinho, enquanto preparavam a refeio. Tranqilos rudos familiares vinham reforar a sua prpria calma.
       Olhou para a me que tecia um xale para o neto, pensando que, afinal, estavam todos reunidos e em segurana. Um dia, quando a Inglaterra se cansasse de oprimir 
a Esccia e retornasse a suas fronteiras, poderiam instalar-se definitivamente no solar. Daria a Brigham uma vida cheia de felicidade, de modo a faz-lo esquecer 
o mundo suntuoso de Londres. Poderiam at construir uma casa para eles prprios perto do lago.
       Esse pensamento trouxe-lhe um sorriso aos lbios. Um rudo sbito de passos  entrada da caverna a fez voltar-se. Ficou  escuta. Houve um novo estalido. 
Deviam ser seus irmos. Palavras de boas-vindas vieram-lhe aos lbios, quando se lembrou que eles no teriam a necessidade de chegar to furtivamente. Sobressaltada, 
alcanou a pistola.
       Uma sombra bloqueou a claridade que jorrava pela abertura. Viu o drago ingls entrar com a espada erguida e um brilho de triunfo nos olhos. Ergueu a pistola. 
Quando ele deu o primeiro passo, atirou. O homem cambaleou, a surpresa estampando-se por um instante em seu rosto, antes que ele tombasse ao cho, morto.
       Pensando apenas em defender os seus, ela agarrou a espada de seu pai e ergueu-a. Sentiu a presena de Brigham a seu lado no instante em que mais um soldado 
avanava para eles com a baioneta calada. Outro estampido ecoou no espao confinado. Os dois voltaram-se ao mesmo tempo. Parkins estava no meio da caverna com a 
pistola ainda fumegante na mo.
       - Volte a carregar as armas - ordenou-lhe Brigham, puxando Serena atrs de si.
       Um terceiro drago apareceu  entrada, mas no chegou a dar um passo. Permaneceu um instante parado, e depois caiu para a frente, fulminado por um tiro. Ofegante, 
Brigham saiu da caverna. Fora, havia mais dois soldados. Coll lutava com um deles com todo o desespero de um homem acuado, enquanto protegia o irmo com seu prpria 
corpo. Brigham quis enfrentar o outro, mas uma dor aguda explodiu em seu crebro, cegando-o.
       O drago fez ento meia-volta e j erguia a espada, mirando a cabea de Malcom quando, da boca da caverna, Serena atirou com a pistola que acabava de carregar, 
atingindo-o no corao.
       Toda a ao no havia durado mais do que cinco minutos. Agora, cinco drages jaziam mortos. Mas a caverna deixara de constituir um refgio.
       
       Foram embora ao anoitecer, tomando a direo do oeste.
       Valiam-se da hospitalidade do povo generoso da Alta Esccia e, quando isso no era possvel, buscavam abrigo nas choas abandonadas. Durante a caminhada, 
tiveram notcias de Cumberland, que era agora conhecido como "O Carniceiro".
       A perseguio aos fugitivos era implacvel. Para aquebrantar ainda mais o nimo do povo derrotado, sem chefes, faminto, haviam confiscado ovelhas, cavalos, 
gado. Ainda assim, terras, gentes, florestas se faziam cmplices para guardar, com devotamento, o seu prncipe.
       Avanavam lentamente. Cada dia encerrava um novo perigo. Era junho, quando conseguiram finalmente zarpar do continente e desembarcar na ilha de Skye, onde 
foram acolhidos pelos MacDonald de Sleat.
       -  to linda quanto minha av dizia - murmurou Brigham enquanto, do topo da colina de Mugston House, inspirava profundamente o ar puro da ilha e abarcava 
com o olhar todo o panorama luminoso que se descortinava  sua frente.
       - Realmente linda - confirmou Serena. - Tudo me parece lindo agora que estamos todos em segurana.
       "Por quanto tempo ainda?", pensou Brigham. Corriam rumores de que o prncipe estava nas imediaes, procurando escapar para a Frana ou para a Itlia. E, 
onde ele estivesse, haveria sempre ingleses por perto. A orla martima estava sendo rigorosamente patrulhada.
       Refletira muito nos dias de sua convalescena e durante a longa e perigosa jornada atravs das colinas da Esccia. No podia voltar para a Inglaterra e dar 
 Serena a vida que ela tinha direito como lady Ashburn, e no podia voltar  Glenroe. Tinha que haver uma outra alternativa.
       - Venha sentar-se aqui - disse, conduzindo-a a um pequeno barco de pedra sombreado por uma rvore em flor. - Sabe que voc est mais linda do que nunca?
       - Voc  um mentiroso?
       Ela sorriu e apoiou a cabea no ombro dele.
       - Estou feliz que tenha a oportunidade de conhecer o lugar onde sua av nasceu e cresceu. Os parentes dela foram to gentis conosco!
       - Serei sempre grato a eles e a todos os que nos deram abrigo.
       Os olhos de Brigham enevoaram-se, enquanto ele olhava para o mar.
       -  difcil compreender por que deram abrigo a um ingls.
       - Como pode dizer isso? - indignou-se Serena. - No foi a "sua" Inglaterra que assassinou o esprito de liberdade da Esccia. Foi Cumberland, com sua sede 
de vingana, sua necessidade de destruio!
       - Em Londres, ele  aclamado como heri.
       Ela o fitou com intensidade.
       - Houve tempo em que eu culpava todos os ingleses pelos erros de alguns. No cometa o mesmo erro, Brigham!
       Ele atraiu-a para si.
       - Sabe o que aconteceria aos MacDonald, se soubessem que estou aqui?
       - No o encontraro!
       - No podemos fugir para sempre, Serena. Estou cansado de me sentir cercado, perseguido, caado pelos carrascos de um regime sangrento!
       - No temos outra alternativa! Tambm o prncipe est sendo caado!
       - Sim, e eu me preocupo por ele. Mas me preocupo tambm com voc e nosso filho. No consigo esquecer o ltimo dia que passamos na caverna, quando voc foi 
forada a matar para defender a mim e a sua famlia!
       - Fiz o que devia ser feito, o que voc teria feito. Pela primeira vez, depois de tantos meses, senti-me verdadeiramente til.
       - Nunca a amei tanto como naquela dia, quando a vi erguer a pistola e a espada, como uma deusa vingadora!
       Ele curvou-se e beijou-lhe ambas as mos.
       - Eu queria lhe dar uma vida cheia de beleza, queria lhe dar tudo o que era meu. Agora, no tenho mais nada.
       - Brigham...
       - Oua. H algo que eu preciso saber. Um dia, voc me disse que iria comigo para onde eu quisesse. Sua promessa continua de p?
       Serena sentiu uma pontada no corao, mas sua voz era firme, quando disse:
       - Sim.
       - Deixaria a Esccia, Serena, e iria comigo para o Novo Mundo? No posso dar-lhe tudo o que prometi, muita coisa ter que ser deixada para trs. Voc ser 
apenas a sra. Langston.
       Ela o abraou com fora.
       - Iria ao inferno com voc, se me pedisse! 
       Ele sorriu.
       - No pediria tanto. - Depois, repentinamente srio, acrescentou: - Estou quebrando todas as promessas que lhe fiz, Serena.
       - Voc me prometeu amor e essa promessa foi cumprida.
       - E suficiente?
       - Entenda, querido. As semanas que passei na corte foram maravilhosas, mas s porque voc estava comigo. O luxo nada significa para mim. Nem os bailes e os 
vestidos de gala. Apenas voc.
       Ela o fitou nos olhos, longamente.
       - s vezes, em Holyrood, cheguei a pensar se voc no havia cometido um erro, ao escolher-me para sua esposa!
       - Que absurdo  esse?
       - Eu nunca serei uma dama, Brigham. E meu maior medo era que voc me pedisse para ir viver na corte do rei Lus.
       Brigham olhou-a com surpresa.
       - L, voc teria uma vida to agradvel quanto a de Edimburgo!
       - E teria que me comportar como uma dama, quando meu maior desejo seria usar cales e cavalgar livremente pelos bosques!
       - Prefere ento ir para a Amrica contando apenas com um punhado de ouro para realizar esse novo sonho?
       - Voc perdeu a Inglaterra e eu a Esccia. Faremos da Amrica a nossa nova ptria! - disse ela com ardente convico.
       Esta resposta tocou-o mais do que qualquer outra. Serena estava afastando-se do passado e voltando-se para o futuro com a firme vontade de no se deixar abater 
pelos pesares. Essa coragem com que ela enfrentava o mundo seria, doravante, a fora e a base do amor que lhe dedicava.
       Sentiu a mo dela apertar a sua e murmurou:
       - Te amo, Serena.
       No cais, um barco preparava-se para singrar as guas azuis, o leme da proa brilhando na sombra crescente. Breve, muito breve, tambm eles estariam debruados 
no convs de um navio; rumo a uma nova existncia. A existncia que o destino lhes reservara.
       
       EPLOGO
       Era junho, quando o prncipe Charles Edward desembarcou na ilha de Skye, para se asilar em Mugston House. Chegava disfarado de criada de Flora MacDonald, 
uma jovem lady que arriscara a vida por ele, mas no havia perdido nem a infinita confiana em si prprio, nem seu intrpido orgulho.
       Quando ele se foi, amado, admirado, com uma lenda de valentia e romance em torno de seu nome, deixou a Flora um anel de seus cabelos e a promessa de que voltariam 
a encontrar-se na corte de St. James.
       Pouco antes de sua partida, o prncipe encontrou-se com Brigham num dos sales da nobre morada. Conversaram como sempre o haviam feito, com intimidade real 
e profunda mesclada a um mtuo respeito. Charles Edward no disse, mas esperava que seu fiel partidrio o acompanhasse em sua viagem  Frana.
       Quando Brigham falou-lhe de seus novos projetos, ele no respondeu imediatamente. Afastou-se uns passos e ficou a olhar, em meio  tranqilidade que reinava 
na ilha, o mar azul e profundo. Decorrido um momento, voltou para junto dele. Seu belo rosto aristocrtico estava contrado por uma emoo contida.
       - Ento, nada mais h a dizer, no  certo?
       - Nada mais, Alteza.
       - Desejo felicidades a ambos. 
       - Obrigado.
       Mais tarde, na intimidade de seus aposentos, Serena comentou:
       - Vai sentir falta dele, amor.
       - E do que ele representou para mim: a f de minha infncia.
       Brigham puxou-a para si, abraando-a com fora.
       - No vencemos, Serena. Muitos morreram defendendo uma causa perdida. Mas quando olho para voc e meu filho, vejo que no perdemos.
       Afastou-se um pouco para olhar o pequeno Daniel que dormia no carrinho.
       - Como seu pai disse, no lutamos em vo. 
       - Peo unicamente a paz, Brigham. Para voc e para mim.
       Ele beijou-lhe levemente os lbios. 
       - Est pronta?
       - Estou. - Serena apanhou o manto de viagem e envolveu-se nele. - Pena que mame, Coll e Maggie no possam vir conosco. Irei sentir falta deles.
       - Mas voc ter Gwen e Malcolm.
       - Eu s desejo...
       - Haver novamente um MacGregor em Glenroe - antecipou-se Brigham. - E ns voltaremos um dia.
       Ela o fitou. Via diante de si aquele homem bonito, rico de promessas, que a atrara desde o princpio: o seu homem de confiana.
       - E haver tambm um Langston no Solar Ashburn. Daniel voltar, ou o filho dele.
       Brigham concordou com um sinal de cabea e voltou-se para apanhar a arca que continha a pastorinha de Dresden, experimentando uma sensao de renovada juventude.
       Uma batida na porta tirou-o de sua concentrao. Era seu criado de quarto, que iria com eles para a Amrica, fazendo-se acompanhar pela sra. Parkins.
       - Temos que nos apressar para no perdermos a mar alta, my lord.
       Brigham ergueu as sobrancelhas.
       - J esqueceu que sou apenas o sr. Langston?
       Parkins apanhou os sacos de viagem, dizendo placidamente:
       - No, my lord.
       Serena no pde conter o riso.
       - Para ele voc ser sempre lorde Ashburn, Sassenach!
       FIM
       
